quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

anel/rei/feiticeiro/anão e elfo/dio/balada

anel

castigaram-te o peito.

o peso de um anel tombou-te o corpo.

o verde que conhecias já ignoras,
só o ouro te conduz e guia pelo escuro,
até ao fogo.

enfrentaste bestas aladas,
fugiste de bestas feitas de lama e lava,
cobertas de ferro e escuridão.

todas elas mais imperfeitas que nós homens,
todas elas mais imponentes que nós monstros.

vinte anéis e apenas um para os governar a todos.
por baixo do céu,
nas câmaras rochosas,
a quem foi destinada a morte
e a quem é feito de escuridão,
um anel para os governar a todos.

rei


num manejo imaculado da espada
mandaste muitos para a morte.
e para tua sorte
caíste para o fim e voltaste
para fazer chover sobre os teus inimigos
nada que não a raiva que eles te deram.

feiticeiro


de cinzento te vestias, mas nunca mais.
agora és branco como a luz que conduzes
nas trevas.

anão e elfo


um machado e trinta metros de determinação
é o que usas como arma.


um arco e nada mais.

em eterna competição,
ambos vencedores.

dio

ajoelhas-te sobre o chão que pisas e sujas
e dedicas rezas a quem não te ouve.

balada

ouço um tiro no escuro,
é sempre bom para dançar.
uma balada feita só de barulho
é o som do mundo a rodar.

será que ninguém ouve
a escuridão que só eu vejo?
ninguém será o que sou,
estou preso no meu desejo.

todo o mundo num segundo,
não passa de um ponto final.
o fim comprimido no fundo da frase,
o conteúdo não é mais fulcral.

somos todos parte de uma balada,
e quem nos escreveu foi quem nos amou.
somos um ajuntamento de peças inacabadas,
um comício de tudo o que foi
e que não nos define mais.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

o americano/adão e eva/tanto

o americano

oh grande herói.
foste tu que nos deste tudo
sem pedir nada.

o teu corpo penetrado por balas mancha o chão dos teus inimigos.

os teus, já fundo no mundo
em putrefacção
choram por ti.

confessaste os pequenos males que te pesavam.

levaste o teu isqueiro.

estavas em paz.
e assim continuarás.

adão e eva


somos feitos de peças soltas
mas onde está a nossa dor?
está espalhada por umas e por outras
manchas sujas, das quais só sobra vapor.

foi tudo ao ar, nada mais resta
e este é tão nocivo como a nossa voz.
a minha civilização é esta
e nem repulsa sinto por nós.

somos todos os primeiros a ser como somos
mesmo sendo cópias do que pensamos ser.
vivemos na boca do lobo
e ignoramos o que nos está a acontecer.

somos comidos, digeridos, dissolvidos por enzimas,
vomitados, castigados e atirados para os fogos magistrais
o que nos resta da mente não é o que fica ao de cima
mas sim o que nos torna exactamente iguais.

somos todos tão vestidos,
tão politicamente correctos,
tão pensativamente desmedidos,
tão mentalmente incertos.
qualquer passo para a inovação
atrasa a nossa mentalidade,
estamos presos ao chão
e a culpa é da nossa enfermidade:

a nossa criatividade é delimitada pelo que os outros pensam...

e eles sofrem do mesmo.

tanto

uma despedida despida de qualquer receio,
nua e para sempre efémera.
presa num momento.
o que temos em mente é o que somos
e nunca o que era.

só a gente se veste tanto.

um orgasmo residente no futuro.
um organismo sozinho e distante.
nada nos resta.
apenas nos tapa a vergonha um manto.

só a gente complica tanto.

o céu coberto de tormentos
torna o sol  numa miragem.
é tudo claro quando não sonho
e reduzo a minha mente a uma imagem.

só a gente se obscura tanto.

será que somos só memórias numa vagem?
uma viagem na margem de um rio
intrinsecamente viajado e conectado por pontes de água
que me lembram que os meus neurónios
só me servem de castigo.

só a gente se lembra tanto.
só a gente se analisa tanto,
como se a introspeção trouxesse respostas.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

menor que três

olho para trás.
só vejo caminhos.
uma teia de impulsos que nos trouxe até nós,
sinapses seguidas do que resta de momentos,
tão quentes de recordar e tão inconcebivelmente impossíveis de esquecer...

foi fruto do nosso amor o meu furor em viver,
tão longe em tempos e tão perto agora,
neste momento que durará para sempre,
embalado no equilíbrio do cosmos, em perfeita harmonia.

somos, na fabulosa sinfonia do que somos e seremos, serenos com tudo.


o nosso próprio abrigo.
fogo um do outro.

domingo, 4 de dezembro de 2011

actualidade/sonhar/legião de nenhuns

actualidade

quem dera a mim saber o que eles sabiam
para estarem tão relaxados enquanto se riam
de nós a lutarmos.

somos filho de manias,
que por triste ironia,
tanto ridicularizamos.

e eles diziam-me:
"ou me fazes a cama
ou dormes no chão."
é uma sociedade de iguais
com uma infinidade de senãos.

o preço da vida
é negociável,
o intrínseco valor
é desagradável.
pago por tudo,
até por ser humano,
sou pobre por ter
que suportar tiranos.
será tudo tão racional
numa época de exageros?
a liderança nacional
é uma aglutinação de estafermos,
a discutirem com eufemismos,
a acharem-se querubins.
com inúmeros destinos
já sabemos o nosso fim.

mas eles ainda me dizem:

"ou me fazes a cama
ou dormes no chão."
a gente já sem chama
só espera a revolução.

sonhar

onde está a racionalidade da mente humana?
somos pensamentos repartidos por corpos repartidos pelo mundo repartido por nós,
que somos donos do nosso quintal e de pouco mais.
é por isto que concluo que
a vida é um auto de fé infindável,
com a transcendência como única espectadora:
somos ratos num labirinto,
bactérias num tubo de ensaio,
gente confinada aos limites da mente.
labutamos incessantemente,
como se fossemos a algum lado para lá disto.
só escapamos com sonhos
(e só sonhamos com amor,
e quando o temos nada mais queremos.)
que não retratam realidades.
só fugimos para voltar passado um tempo,
mais sonolentos e velhos que antes,
com mais rugas e com menos tempo.

mas sabe tão bem sonhar.

legião de nenhuns

sou doente,
o meu próprio paciente,
inconscientemente consciente
igualmente indiferente.
totalmente e inutilmente
dono da minha mente.
a confrontar constantemente
os meus males frente a frente.

futilmente fatigado
por enfrentar a canseira
constantemente abandonado
por uma vida de cegueira:
acordo todos os dias
para ver o mundo que não vê:
ninguém se apercebe
que somos crias de um erro.
se somos filhos de deus,
perdemos o gene divino.
somos os seus imortais réus,
o julgamento dos próprios filhos.
pensa ele que somos finitos
quando ninguém sabe como acaba.
só nos ocupamos com os nossos ritos
até para a morte mais macabra.

o fim não é sequer
reconhecido como final.
a transcendência da alma
suprime o real.
na morte somos perfeitos
deixamos o corpo para trás:
o que é corpóreo e defeito
é fraco e fugaz.

já somos todos reis
da nossa união,
impomos as nossas leis
e é tudo em vão.
é inevitável o desejo
de sermos um com nós mesmos,
mas somos preenchidos por dor,
até os mais serenos.
personalidade múltipla
não é desordem:
quem não cultiva loucura
não se chama homem.
se eu fosse só um
era só solidão,
mas sou uma legião de nenhuns
com uma só expressão.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

máquinas, erotismo e amor

oh onomatopeias incessantes...
a canseira não vos afecta.
são filhos de rodas dentadas e de alavancas e de engrenagens,
da monotonia, da paralisia em movimento
e do óleo que pinga lentamente
nas calças do proletariado
tão igual,
em tantas maneiras diferentes que são todas a mesma.

da varanda observa o magnata, o titã, o gordo de cachimbo a deitar as cinzas no chão,
a sonhar com a mulher que lhe é tão fiel,
tão viajante de amante em amante.
depois em casa, com fofoquices e modernices e discursos de indignação
falam das camisas dos homens pobres que são mais limpos que a gente do poder.

oh hipocrisia,
oh soberania,
oh chefes das etiquetas e donos das elites,
oh maníacos do dinheiro,
oh erotómanos da fortuna,
oh amores brutos com moedas,
todos vocês têm prazeres corpóreos sem nada terem na cabeça.
e eu que tudo tenho, faltam-me as relíquias carnais, as emoções físicas, os pecados mecânicos, o caso eterno do homem com a máquina,
bem aconchegados na fatalidade das relações divinas.
DEUX EX MACHINA.
esmagados pelo peso do ferro,
mentes enferrujadas,
a sujarem os livros de regras que cuidadosamente seguiram em público,
com mais santidade que qualquer mandamento.

(e eu tão carente e tu tão longe...
tão afogado em tédio e tu tão rodeada em conhecimento...
e consigo já sentir o teu bafo
pela máquina.)

incansavelmente fatigados da vossa superioridade,
irritados e deleitados com os vossos escândalos,
inocentemente culpados das vossas corrupções.
de emoções feitas e contrafeitas e forjadas e falsificadas
e eu que me fodo porque nada de falso tenho e porque sou culpado de nada e porque sou o que sou de consciência limpa.

eu não trabalho com eletricidade.
não tenho pistões nos braços.
não tenho um motor de não-sei-quantos cavalos a mexer-me
nem tenho uma bateria que me descarrega potência para as artérias de cada vez que acordo, para me sentir forte e falível
com cada respiração minha.

não tenho emissões massivas de monóxido de carbono,
nem sou feito de metal
mas afirmo-me como máquina,
sinto-me fruto da engenharia sem ter qualquer engenho.

(os meus lábios nos teus,
perfeitamente encaixados,
como duas rodas dentadas...)

todo o erotismo envolvido numa máquina...
engenhos, engrenagens, carburadores, motores, rodas dentadas, fusíveis, válvulas,
a funcionarem em uníssono,
como uma sinfonia inacabada,
a terminarem de repente!
com manchas de óleo no colo dos trabalhadores
e com os desejos fabris saciados.

tal como os homens,
as máquinas têm prazeres, apenas não envolvem tanto amor...
também funcionam para a frente e para a trás, para cima e para baixo,
mas em vez do final se traduzir em pecado,
que tantas vezes custa mais do que o amor costuma custar,
nas ruas das "senhoras do ofício" como tão amavelmente lhes chamo para esconder o ódio que lhes tenho,
traduz-se em fumo e numa obra prima igual a milhares de outras.

se deus criou o homem, a máquina criou deus.
e como ele saíram da linha de montagem milhares iguais a ele,
todos eles com mundos defeituosos, criados pela perfeição, com livre vontade mas normas a seguir...
a máquina divina tem um cruel sentido de humor...
dá-nos sensações e emoções e paixões para as vivermos apenas na morte.
MAS NA MORTE NADA SINTO!

(nem na vida...
só me sinto quando me sinto contigo,
juntos na linha de montagem,
embalados em caixas diferentes...)

mas já sinto os circuitos a falharem.
sinto a beleza dos sonhos a tornarem-se em plantas de um pesadelo,
edificado pelos 4 cavaleiros do apocalipse na minha mente,
a montarem cavalos mecânicos,
movidos a carvão e a queimarem a minha sanidade que é única coisa que mostro,
mesmo não tendo nada disso.
afinal, quem é a pobre alma que diz que não é louca?
já todos cometemos actos de loucura...
já todos amámos uma máquina, perfeita e sem qualquer  retorno do amor, apenas calor.
já todos ardemos às mãos de ferro de quem não nos quis e fundidos e moldados no que não somos.
já fui água, já fui barro, já fui um erro, já fui pior que isso tudo
para agora ser uma pedra.
áspera, rude, um muro para um mundo que não conheces nem mereces:
o meu, onde sou a minha divindade,
onde eu me dei livre vontade
e me castigo por não ser o que eu penso ser bom
e por ter estragado os meus circuitos.
tenho falhas.
tenho diferentes comportamentos para as mesmas pessoas.
não tenho peças suplentes.
não como carvão.
sou feito de compostos orgânicos, frágeis e fortalecidos por dores.

oh, ironia.
sofro, apenas para poder sofrer mais.
ser vivo não é ser forte, é ser finito e masoquista.
(e partilhar essa dor e amor.)

ser vivo é temer o inevitável.
é chorar na morte e dizer que tudo acaba por baixo da terra,
de onde foram erguidas as máquinas.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

bestas/bestas 2/vida

bestas
amores e dores


bestas, 
são os meus amores e as minhas dores que não me deixam.


sempre a ser acossado diariamente pelo meu ódio às coisas
e pela minha paixão à emoção,
moldada num tabu.


quem me diz que o equilíbrio é bom se só na morte o terei?
enquanto vivo, deixam-me ser desequilibrado e ridículo.


bestas 2
bestas do governo


"senhor cínico, tem genuinidade à mostra!"

"ah, erro meu.

que terrível que era ter a confiança das gentes.
sentiam-se em segurança e com segurança não precisam de política!
agora reina a fragilidade.
ninguém confia nos democratas,
todos querem um líder, mas no meio de tanta cara de pau não se encontra um ponta de humano."


"somos todos bestas e felizes com isso."


"e temos tudo.
temos o mundo, 
temos fatos que nos tapam as mentiras
e grandes barrigas que não nos deixam ver os nossos sapatos,
engraxados pelo rapaz da praça que tão ridículos achamos,
brilhantes e a realçar o escuro que vai dentro de nós.
o frio das nossas palavras quentes chega para congelar o inferno!"


"e eles não congelam nem nos põe termo!"


"vivem congelados em fogo."

"à espera que chegue o fim

para dizerem que triunfaram sobre os tiranos
sem sequer erguerem armas."


vida


pus as mãos no fogo
e ardi.
pus paixão em jogo
só porque sim.


o demagogo ditou a lei.
qu'eu me queimo
só porque sei
que não temo.


pus o pé na água
que é parte de mim.
só tenho fé na mágoa,
foi tudo o que vivi.


questionas o que faço,
só porque o faço.
o meu pensamento escasso
só reina no espaço.


pus a mente no ar
e nada mais senti.
restou-me pensar
e agora não nasci.


o pantomima fala
o dialecto da vida
mas a sua voz rebaixada
não diz nada, dorida.


pus-me debaixo da terra
porque nada tive
o céu não é para quem erra
nem para quem vive.


de juras erguidas em vão.
de curtas despedidas a quem me tirou o coração.
de heresias a deuses que não o são.
eu sou feito dos restos dos que virão.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

monólogo do filho do espaço

o filho do espaço veio à terra e disse:
"são meus os vossos sonhos, esperanças e ilusões.
todos vocês, a mim imundos e submissos
a procrastinarem o que vós mesmos sois.
vi-vos morrer às vossas próprias mãos
à espera de um milagre que não veio
a levantar lamúrias do chão
e a pregá-las ao céu, se já não estiver cheio
de lamentos que não cabem na mente de ninguém.
que choros são esses que me mandam a mim?
pensam vocês, soberanos da soberania qu'eu sou alguém
que vos embala nas noites de tormento sem fim?
fazem de mim um recurso.
a desculparem os vossos erros comigo.
a agradecerem-me em tempos de triunfo.
e eu, o vosso único abrigo,
a vossa dosagem de benzodiazepinas psicológicas,
o vosso ansiolítico mental.
tomados de forma imódica
administrados via espiritual.
sou o conjugar das vossas acções.
sou uma besta de emoções desmedidas,
expulso dum universo de corrupções
com treze eternidades para curar as feridas
de séculos passadas a dar socos no chão,
o que criei e não consigo destruir,
para me aperceber que cerrei os punhos em vão.
para encontrar no que eu próprio construí
em templos e frases suspensas que não proferi
onde sou verbo, substantivo e fonética das palavras.
uma história que eu próprio escrevi, de quando quis
ser mais do que as lágrimas que chorava.
sou a chuva que vos traz o romance.
sou o sol que vos traz o amor.
sou um filme intenso do óbvio e do suspense
e uma pornografia carregada de suor.

sou tudo.
demónio e anjo.
sou tudo.
céu e inferno.
sou tudo.
água e terra.
sou tudo,
mas sou só dor."

e ninguém quis saber.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

discurso do medíocre, tão medíocre como todos nós

a vida fala-me em enigmas (o estigma do raciocínio).
se matam por amor e por ódio,
porque não matam por apatia?
choram por alegria e por tristeza,
mas nunca p'la existência do nada.
será assim tão deplorável
condenar o nada e adorar a falta de tudo?
podem ter morto,
mas nunca em vão!
envoltos na própria razão
e na loucura do solipsismo.

a fumarem o seu cigarro
(um devaneio de delinquência juvenil,
a viverem a vida boémia,
a serem todos os dias a metáfora ideal para o excesso,
mas mais mundanos que todos nós.)
trancados em casa, com o desespero.

já ninguém sonha...
(os meus sonhos contam épicos
que esqueço quando acordo.
lá, sou um rei pobre e um vagabundo rico.
nas minhas mãos são escritas histórias
e os meus olhos dizem por onde andei.
mas quando acordo sou, apenas.
não há contos nem epopeias,
vivo no limiar do intermédio.
conto eu as minhas histórias.)

sujos e medíocres,
à beira do abismo,
a vaiarem e a cuspirem em cima dos que saltaram,
dos que são tudo o que eles anseiam ser.

e vão para casa, onde limpam as lágrimas às mãos
que só contam lamentos.
(ao menos as minhas nada contam.
não têm histórias para contar.
nem lamentos.
as minhas mãos!, não limparam choros alegres ou tristes,
nem derramaram sangue por amor ou por ódio.
não foram levantadas a ninguém ou acariciadas por amores.
não têm nada a não ser dedos,
que escrevem histórias que não são passado nem futuro meu.)

todos reis da hipocrisia e da banalidade,
num trono de lama,
descalços e feios.

sábado, 5 de novembro de 2011

canto do altruísta

a que foi que me reduzi para vos ver tão altos?
será que todo o tempo em que vos vi crescer
eu fiquei igual?
ainda visto as mesmas roupas e calço os mesmos sapatos
que eram de quem me viu nascer.

mas acho que é meu o mal.

passei tempo a dar-vos cor
só para me ver a preto e branco.
esculpi-vos em ouro
para ser eu feito de lama
encostado a um canto.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

o amor é uma expressão feita para quem sonha/os vivos cumprimentam os mortos

o amor é uma expressão feita para quem sonha

o amor é uma expressão feita para quem sonha,
mas eu tenho vergonha de sonhar
e medo de dormir,
porque não quero acordar para o mundo.

(hei-de queimar com o gelo
por não saber ser dois.)

o frio é filho do inferno,
jaz no coração dos homens que não sentem
e no ventre das mulheres que os amam.

as crianças, com a mente em fogo,
olham os velhos livres de amor
e rodeados de paixão.
aprendem que as palavras são um jogo para a mente
um fantoche para o demagogo
e um tabu  para o que sente.

os vivos cumprimentam os mortos

os vivos cumprimentam os mortos,
saudosamente, de luto latente,
a relembrarem os tempos em que pediram um cigarro emprestado e nunca o devolveram.
apenas deitaram as beatas para o chão,
para onde olham agora com a escassez das memórias.

(paira no ar um cheiro a sal e pólen, das lágrimas e das flores.)

a pedra branca dos monumentos,
já suja de terra,
é limpa por choros e volta a dar cor aos póstumos,
 que são rostos, nomes ou números.
que já só permanecem na memória dos filhos que não nasceram
e do amigo que tantas vezes lhe acendeu o cigarro.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

saudade

vieste de um mundo violeta
onde viveste em histórias apenas.
e choras de saudade,
porque o que resta desse mundo
não é mais que a merda presa às minhas botas,
que por muito que limpe não há-de sair tão cedo.

talvez venha a chuva e lave as minhas botas.

talvez venham lágrimas e levem a tua saudade.

mas a chuva já veio
e continuo com as botas sujas.
já derramaste tantas lágrimas
e a saudade ainda te habita,
sem pagar renda nem nada.

a rasgar o papel de parede,
a partir lâmpadas,
a riscar os móveis,
a caminhar nua e de saltos altos
para te lembrares que ela tão cedo não sai.

mas tu também não a queres ver fora de ti
porque a saudade é o pouco que te lembras de onde vivias.
sem ela, as memórias eram só histórias
que contarias aos teus filhos,
para eles terem saudades também.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

a idade das trevas

fujo de quem me teve preso.
limpo o sangue aos lençóis que me cobriam
e as lágrimas à camisa rasgada que tenho vestida.
sou indefeso, porque sempre vivi nos olhos de outros
e saí das masmorras para um mundo
onde são todos cegos.

o meu sonho continua aceso
e é a minha luz de presença no escuro
onde continuo com o peso do que sei aos ombros
e olho os que nada sabem com asco
por quererem ser puros
sem saírem dos escombros
nem verem luz que seja.

oh, príncipes do eterno,
só o vosso pensamento é mais breve que a vossa mente.
quem me dera que esta chuva vos lavasse a pureza que não têm,
e vos levasse, para uma terra onde seriam lordes das moscas
e reis dos vossos próprios nojos.

mas não, são sempre os correctos, os perfeitos,
os benditos da razão e os desertores da ignorância,
que percebem tanto da vida
que não sabem que depois da morte apenas há pó.

nada de éter,
nada de castigo,
nada de ilusões,
apenas pó.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

no leito da minha sarjeta/quem me dera

no leito da minha sarjeta

chove. choram as minhas lágrimas outros que não conheço
e até as minhas lágrimas choram as lágrimas que não são delas.

já nada me pertence.
é tudo do tempo
e o tempo já esqueceu o que tem.

não me pertenço.
sou filho de nobres, desolado.
feito de lama, na minha sarjeta
onde penduro molduras,
porque nunca fui rapaz de fotografias,
nem tive memórias para fotografar.

morro.
levanta-se o tempo do seu trono e diz-me
"que foi feito dos teus sonhos?
ao menos tinhas algo para ninguém herdar."
mas vendi-os para comprar esperança.
que depois vendi para comprar pão.
que comi sentado no chão da rua onde não vivo.

quem me dera

luz.
os meus dias são luz
e encho os meus pulmões a celebrar o dia glorioso
que me conduz a um futuro com mais gozo.

mel.
quem me dera ser feito de mel
e matar-me no egoísmo a anular-me do mundo
que tenho anotado num papel nos bolsos rotos
do meu casaco de vagabundo.

rei.
era feliz se fosse rei
e não faria nada, como o bom mestre do ócio
que sou e que sempre serei, refastelado de equinócio
a equinócio.

marasmo.
quase estagno com tanto marasmo
e no entanto já andei por todo o mundo e imundo
que por sorte ou azar meu, culmina num pasmo
em que me lembro que não fui a lado nenhum.

tijolo.
duro e feio como um tijolo
que fez uma casa onde vive gente sempre alegre
e eu olho-os no meu desconsolo, a perguntar-me
se a alegria é fruto de uma febre.

anti-pirético.
quem me dera ser anti-pirético
que curasse a febre desta gente e os livrasse da canseira,
que o mundo e eu somos cépticos e olhamos para vocês
com grande inveja da vossa ingénua cegueira.

que nem vêm o mundo como ele é.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

um ode ao som/as câmaras nas nuvens

um ode ao som

um ode ao som. vou escrever um ode ao som. não vai ser um ode à beleza das teclas do piano, ao contraste do preto com o branco nem ao som quase harmónico que emana. não vai ser um ode ao violino, à delicadeza do braço, à simplicidade do arco e pêlo de cavalo nem ao brilho do verniz. não vai ser um ode à alegria, à tristeza, ao para sempre, ao nunca, a toda a gente nem a ninguém. vai ser um ode ao som. porque a música tem perfeições e imperfeições. ao som ninguém lhe sabe dizer as imperfeições. ninguém lhe sabe dizer se é bonito ou feio. também, se fosse bonito chamavam-lhe música, se fosse feio chamavam-lhe ruído que é bonito aos olhos de mentes transcendentes. desenvolver um culto ao som, seja ele um grito, um choro ao nascer, um silêncio após a pulsação ou o tombo de um morto. adorar o que nunca teve direito a altar, sempre abandonado, deixado para morrer num vale, no rugir do mar, na agonia de um rejeitado, fechado, silenciado mas a ecoar com as lágrimas que caem no chão.

as câmaras nas nuvens

as câmaras nas nuvens,
onde adoram a amplificação
desfazem-se com a chuva
e esculpem o meu caixão.

numa árvore, numa alucinação
induzida p'lo crescimento do barulho.
num barco que flutua p'la interrogação
do que causa nela este marulho.

nada mais que branco, e pedras pesadas
que arrasto comigo, de bengala em punho
até ao vale da morte, que é uma assombração sonhada
que ecoa na minha mente que é só um rascunho,
com uns rabiscos que não são nada nem podem aspirar a ser nada
e um fantasma que diz ser o meu único testemunho
em como estive mesmo aqui, a vaguear por terras afundadas
nos meus olhos fechados e soturnos.

e agradeço a minha dor ao ruído
que já é mais velho que o tempo.
ainda não era deus nascido
e já o ruído tinha um templo.

um monólito que rasgou o chão
e se afirmou, no meio do fumo
como supremo senhor dos que são
senhores de tudo e de todos os túmulos,
que controlam a morte na palma da mão,
como se ela já fosse desprovida de rumo.
controlam fantoches da sua prisão,
sem decência nem prumo.
 só temos de dar graças a um senhor por isto:
ao nosso amigo barulho.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

prosa da paixão

já não há inverno. é uma lenda. agora é só sensações - muitas sensações - desnecessárias. muitos cheiros, muitas cores, muita luz, muitos dissabores, muito tudo, e tudo me atrofia os sentidos. caminho pela rua que vai dar a uma escola onde já andei em tempos. para fugir ao normal, caminho num pedaço de terra, ao lado do passeio, que está à beira de um campo, e mais à frente de uma mata, a ver se encontro um relógio, uma moeda, uma nota de 5 euros, um brinco, um sei lá eu o quê, que sei lá eu quem perdeu. mas nada disso. quanto muito, um ou dois preservativos usados, de algum casal, de alguma paixão de mata. de alguns ou muitos momentos passados, em plena natureza, no íntimo um do outro, a viver o espírito de adolescente delinquente ou de adulto sem juízo.
talvez, quem sabe, foi fruto de algum adultério, de alguma traição, de alguma tragédia familiar. que novelesco, que romanesco! que digno de algum programa de sábado à tarde, que leva as velhas (e novas) cochicheiras a conversas que não acabam sobre o que está mal com a sociedade.
talvez, quem sabe, foi simplesmente fruto de uma noite de prazer carnal, sem roupa mas com a mente vestida e agasalhada, sem partilharem o que torna o ser humano racional.
talvez se arrependam um dia disto. e vão culpar o álcool, o calor do momento, as hormonas agitadas. e vão lamentar o que quer que tenham perdido nessa noite - quer seja virgindade, pureza ou dignidade - para o resto dos tempos.
talvez se orgulhem disto. e vão glorificar esta conquista, ou arquivá-la, junto de todas as outras, num livro preto ou numa mente negra, que não conhece amor.

guerra/ternura

toda uma nação na guerra.
uma geração luta p'la próxima.

uns, por quererem ser mais homens.
outros, por estarem dispostos a deixar de ser para os outros serem.
uns, donos de tabacarias, senhores de mercearias, filhos de pai incógnito e de mãe que não os queria.
outros, mercenários, filhos de generais, gente que teve tudo na vida.

mas na guerra são todos iguais,
é a sobrevivência do mais forte,
mas toda e qualquer morte,
traz dor ao batalhão.
cai um jovem sereno no chão.
de farda vestida,
lê-se no seu colar de latão,
destroçado por uma bala:
"3º esquadrão de infantaria."
o seu corpo pesado, quieto, numa poça de sangue,
é como um chamamento para os amigos soldados,
é um grito de guerra, que multiplica a raiva.
ouvem-se tiros - ainda mais.
o rugir das armas ecoa em campo de batalha,
nada parece tão certo na vida como morrer,
e eles sabem isso.
muitos não vão chegar ao fim do dia, muitos vão perecer.
e só vão ser lembrados numa estátua de um soldado desconhecido,
que nem a geração pela qual lutam sabe quem é.


ternura

mãe, o pai foi embora.
foi para a guerra, que é uma coisa que não percebo,
porque ele sempre me disse que lutávamos numa guerra todos os dias.

mãe, o pai foi embora.
foi para as trincheiras, que é um sítio que não conheço,
mas pelo o que o pai diz não é um lugar onde eu iria.

mãe, o pai foi embora.
foi, mas não queres saber, encharcada em vinha que é mais placebo
que cura para o que vives, ou dizes viver, verdade ou mentira.

mãe, o pai foi embora.
foi e não volta mais, morreu sem direito a enterro.
mas eu vou buscá-lo, vou finalmente fazer algo que há muito queria.

mãe, eu vou embora.
vou para a guerra, para as trincheiras, mas tenho algum medo.
vou para ao pé do pai, mas tu nunca te importaste se eu vivia ou morria.

mãe, eu não volto mais.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

carta de ódio a quem sente e odeia a dor

a suástica presa na tua mente
vida plástica acesa, arde indiferente
criaste a vida, do teu próprio suor,
do ódio levanta-se a tua dor.

rios de lágrimas, tomam o dia
filhos de quem não se queria
erguem monólitos de negra cor
no topo triunfa toda a tua dor.

viveste um manifesto, contra o teu igual.
rogas pragas a deus, a chamar o final
com o teu sofrimento, o teu amor,
com a tua companhia, a tua dor.

o teu testamento, escrito na tua pele
o teu juramento, ecoou pelo céu
"da morte para a vida, da água para o vapor"
da tua sorte tão querida, restou apenas dor.

ainda te lembras quando os portões da tua alma permaneciam inertes?
agora derrubados, foges pisado e destroçado, a aguardar que algo em ti desperte.
acorda a besta, culpaste-nos pela tua ira, suja de putrefacção.
já não é nesta, nem será noutra vida que tiras a outro homem os tempos que virão.

debaixo do chão,
sem ascensão,
não odeias mais, como eu odeio.

sábado, 15 de outubro de 2011

vaguear... (3)

quem diz que um poema tem de ter rimas?
que nos temos de nos prender a palavras
que todos os dias deitamos fora?
quem diz que uma árvore tem de ter folhas verdes?
que não pode vir o outono e levar a vida embora
que nunca foi nossa nem de ninguém?


pois, nem nós resistimos ao frio,
e somos tão fortes, tão resistentes,  tão aquém
de todas as forças e tão acima de todas as fraquezas,
a existir o nosso próprio meio termo:
nem muito vivo, nem muito morto.
nem muito são, nem muito enfermo,
nem no paraíso, nem no horto,
onde morreu quem deu fé,
como se tivesse chegado a viver,
feito de pão e vinho,
que é tão mundano que é sacrilégio,
como qualquer caminho
já apagado do chão por ser tão pisado.


mas foi heresia criada pelo homem,
tal como foi o cerne de tudo imortal
criado por quem já morreu,
e adorado por quem existe no erro ou benção
de quem o trouxe, quem sabe um deus
ou algo tão perto do chão,
como nós.


"Há homens que já nascem póstumos."
Nietzsche

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

as milhas da vida

erguido da bruma,
fez brilhar o dourado no escuro,
numa espécie de azul.

fez muitas milhas,
viveu muitas vidas,
enquanto explorava um mundo
que existia no caos,
calmo e bruto,
produto do momento,
e em 78 rotações por minuto.

nascido num mundo dentro do novo mundo,
de latão em punho.
sons teus a acompanhar-me em noites de solidão,
a deixar silêncios, por breves segundos,
para o ar ser livre também onde a desordem reina.

ó príncipe da escuridão,
pouca alegria se via em ti,
apesar de deitares toda a dor fora com sopros,
uns mais fortes, outros mais graves.
uns que jingavam no próprio som,
outros que choravam,
num berro alto que mal se ouvia,
no meio da tua fama triste,
p'la dor que era tua e dos teus irmãos.


(dedicado ao Miles Davis, 1926 - 1991)

domingo, 9 de outubro de 2011

ego

feio, fútil, fatigado.
fechado no meu próprio fim.
no meio caixão,
confinado às minhas crenças,
calado e quieto.
aquilo que sempre quis mas nunca me foi dado.
sedento por água num qualquer deserto
com um lago a meu lado.
a congelar no evareste
quando ardem em mim mil sóis
cada um mais quente que o seu adjacente,
num círculo em volta de mim.
são eles paixões que sofri, neguei, vivi.
sofri por estupidez,
p'lo meu egoísmo.
neguei por timidez,
por ser eu mesmo.
vivi uma de cada vez,
sozinho no meu solipsismo,
só e abandonado.
só e rodeado de quem me quer bem,
alvo do meu próprio enxovalho.
cansado de dizer a mim mesmo
que sou um idiota e sei-o.
e digo isto com muito orgulho.
aliás, até releio:
sou um idiota e sei-o.
por me por à frente do mundo.

afinal, quem precisa de amigos
quando me tenho a mim?
excêntrico, egoísta, egocêntrico e algo masoquista
por querer o que não posso ter,
sem ânsia de esconder o desejo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

ela (2), ...

ela (2)

    outono, ouro a cobrir as árvores e ela não aparece. ainda me lembro do dia em que a perdi... frio, céu coberto de nuvens, em pleno agosto... nem uma risca de sol se via. um escuro tremendo cobria toda a cidade. as pessoas, aos encontrões, com cachecóis pesados e casacos compridos não se falavam. a olharem para a frente ou para o chão, sem cruzarem olhares nem palavras nem almas. nenhum deles pertencia a ninguém, mas tinham alguém para quem voltar e não sabiam o quão bom era. ela, de mão dada a mim sorriu-me pela última vez nesse dia e éramos os únicos que eram só um no meio de todos.
     ainda me lembro.
     viu uma cara que reconheceu, perseguiu-a e pouco mais me lembro. desapareceu. passaram dias. semanas. meses. nada. continuo sem ninguém em casa para quando volto. continuo sem ninguém que chore por mim quando for. continuo, sem ninguém na multidão, para sermos um. agora sou uma alma, sem trocar sorrisos, nem olhares com ninguém. a comer numa mesa pequena, encostada a uma parede na cozinha, com uma cadeira do outro lado, à espera dela. pratos acumulam-se durante vários dias para chegar um dia em que os parto por acidente, por raiva ou por solidão. ouço, deitado num sofá que tenho desde que me lembro, os carros a passarem, as pessoas a caminhar, aos encontrões, com rumo próprio, sem rumo comum. todas diferentes, todas elas almas.

...

nunca fui um gajo muito dado a pequenos amores
e todos os grandes que tive cabiam-me na palma da mão.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

realidades passageiras, passos esquecidos

realidades passageiras, passos esquecidos
sonhos de vida e mágoa
arrastados, como eu perdidos,
com fado incerto e choro na alma.


tudo passado, sem acabar,
dor que perdura p'los cantos do meu lamento
que é redondo, pintada pelo meu choramingar
em tons de sépia, branco e cinzento,
como um quadro já gasto e esbatido
que já não se vê o que é nem o que sinto.


mas cá viajo e caminho.
por estradas que eu fiz com as mãos
abandonado e sozinho
para chegar a sítios seguros e sãos.
feitos por mim e erguidos por nós
tão juntos agora no escuro
sem sabermos que estamos na foz
da nossa vida, a desaguarmos para o mundo.


sem nada em nós que nos faça flutuar.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

pobre esquizóide.

materializaste-te num sonho teu
fora do corpo, o vagabundo
chama-te doente e irmão de prometeu
atlas, portador do teu mundo.

não conhece o teu mal
nem o teu bem,
nem ninguém que conheça alguém
que saiba o fruto da tua fome,
do deserto d'onde vens,
pobre esquizóide.

mas fizeste de ti mesmo soturno
algo assombroso, filho do fogo
já puseste os pés nos anéis de saturno
e o vadio chamou-te louco.

não sabe quem te fez mal
nem sabe se és alguém
mas tu és rei filho de nenhuma mãe,
que a única que sabe o que te consome
que é feito das ilusões que tens,
pobre esquizóide.

mas és descendente de outros tempos
e dono de sítios que são o teu legado
que são feitos de momentos
em que te tens mantido sozinho e fechado.

e é esse o teu mal
enterrado à espera que te salvem
mas quem deixa um epitáfio para trás,
para quem te dizia apenas "some"
sabemos que ninguém te salvará,
pobre esquizóide.

domingo, 2 de outubro de 2011

vaguear... (2)

o sangue que não derramei,
continua nas minhas veias e artérias...
adormecido,
exausto,
dormente.
a aguardar o momento em que se vê livre de mim
e da minha dor, que só é dor de quem não sabe o que sente.

as lágrimas que não derramei,
continuam nos meus olhos e sonhos....
gastas,
evaporadas,
secas.
a esperar outras dores que as libertem
sem saber que nem eu vou saber quando as sinto.

os passos que não dei,
mantêm-me longe de tudo e de todos...
não porque não pude,
não porque não os soube dar,
apenas por os ter seguido o caminho errado.

em vez de caminhar para o que queria caminhei para o conforto,
que apesar de ser algo que sempre quis
sempre o tive.
em vez de caminhar para o que seria fiquei aqui quedo e morto,
que foi algo que sempre temi
e sempre me perseguiu.
caminhei para o que já tinha, abandonei o meu respeito todo.

nunca assim me vi,
nunca mais me quero ver.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

existi (?)

quantas vezes fechei os olhos de noite
só para os abrir de manhã e ser dia?

(e nada mudar.
mantém-se a mesma monotonia...
podia ter frio.
ou calor.
mas o frio é algo que eu crio,
para criar algum furor.
e o calor...
há quanto tempo não o sinto,
porque sou só eu,
egoísta e navegante
p'los meus mares,
à procura de sei lá eu o quê...)


será que existi?
o tempo andou sem mim.
(e eu sem ele, que o tempo só é bom quando se é velho e se tem tempo para o aproveitar)
andaram todos vocês sem mim.
(e eu continuei a navegar, p'los meus mares...)
nesses tristes momentos
(que são muito mais que momentos)
que passei tão só e capitão da minha nau,
livre de qualquer pensamento
(e se calhar até pensei e não o sei).


mas agora estou em casa,
no meu nada, tão aconchegado
num quarto que sou eu...
num quarto branco, na ausência das cores.
num quarto branco, rodeado de luz.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

senhoras da biblioteca/pessoa

senhoras da biblioteca


"passas, mas só desta vez!"
dizem elas num tom pomposo,
senhoras de si mesmo
e donas de todos nós (ou pelo menos agem como tal).
a decidir que liberdades cabem a quem,
quando a ninguém deviam caber,
a escrutinar a paciência, a exigir silêncio
quando as próprias bocas parecem não conhecer
tal suplício, que mesmo por momentos, é um castigo extenso.


ao menos eram justas, e praticavam o que pregam!


mas a hipocrisia já as tomou por garantidas
e elas nada fazem, estão tão bem com o mal que não contrariam.
mas quem me dera a mim,
após dar entrada na terra do demo
(que quer haja, quer não haja, é para onde vou)
e ao aproximar-me das portas do meu mundo que alguém fez,
dizerem-me num tom pomposo
"passas, mas só desta vez!"


pessoa


oculto.
escondido em Campos que reflectem a tua angústia,
a tua revolta com a vida que deitaste para o chão
mas isso é outra história,
que o teu outro eu escreveu,
num poema de 4 páginas, que vai para lá do que é
ou o do que podia ser.
e no entanto, é tão palpável como tudo.
que tantas vezes chamaste de nada.


e foste também pastor,
um homem da natureza
que é tão inconstante e abstracta
como o que tu és.
ou eras.
agora és concreto, varrido de mente e d'alma.
nada mais que poeira e ossos
se é que ainda duram
como o que escreveste dura.


e foste também pessoa na rua dos Douradores
onde foste alma e aclamavas o que pensavas
e da tua falta de calma surgiram textos
todos eles no mesmo contexto,
sem nada em comum,
que contam a história do teu pensamento
que só por si é um elemento baseado em memórias
que foram contigo e com o tempo,
para lá da metafísica.





domingo, 25 de setembro de 2011

cartas em tempo de guerra/bons tempos

cartas em tempo de guerra

de: ele
para: ela

querida ela,

cheguei são e salvo a esta terra maldita
ou talvez não seja assim tão má.
realmente tem um cenário degradado,
a paisagem, ardida e bombeada,
os sonhos de famílias, apagados e esborratados
numa tela já toda pintada,
de negro e tristeza.
espero que isto te chegue,

do para sempre teu,
ele


de: ela
para: ele

querido ele,

a tua carta chegou-me meu amor,
apesar de riscada pela censura.
não sei como são os cenários...
nem as paisagens... 
nem os sonhos de ninguém,
já nem os meus os sei,
agora que partiste.
espero que voltes, ver-te-ei chegar da minha janela

da para sempre tua,
ela


de: ele
para: ela

querida ela,

terei mais cuidado no que digo e no que faço.
nunca pensei ter tanta vontade de não pensar,
esta guerra traz-me tantas dúvidas.
estará tanto mal contra a nossa pátria
neste sítio apenas?
será necessário fazermos chover mísseis
e cuspirmos vinte mil balas por segundo
sem qualquer repreensão?
somos assim tão donos do mundo,
que nos esquecemos que todos somos uma nação?
soe isto lamechas ou não,
é tudo o que eu sinto,
e te garanto que não minto.
responde-me mais uma vez,
espero que o meu amor por ti nunca gele.

do para sempre teu,
ele


de: ela
para: ele

querido ele,

a censura comeu-te muitas das palavras,
mas não interessa.
a distância já é demais para mim,
o tempo sem um homem já de mais para mim,
a falta do que nós éramos já é de mais para mim.
encontrei outro homem, não vale a pena escreveres mais.
não posso dizer que não te amo, porque a chama ainda é intensa,
mas já não suporto ouvir mais os teus ais.
a saudade de calor era imensa.
e qualquer crença que eu tinha em amor já se foi.
agora qualquer momento de emoção,
noites de paixão, são o que me alegram o dia.
o meu cheiro agora já está noutra lapela,

da nunca mais tua,
ela


de: ele
para: ela

querida ela,

marcaste-me como nenhuma mulher me marcou.
pensava que o sentimento era mútuo,
que eras uma mulher com classe e cabeça.
mas afinal, como muitas outras não passas de uma puta.
meretriz, rameira, flausina, mulher de infame ofício.
o que é de certo modo uma ofensa a quem vende prazer,
porque tu o dás, de graça, como se fosses uma amostra.
e costumavas ser tão querida...
tão inocente, nada indecente...
não sei que foi que te plantaram na mente,
para te fazeres tão cabra.
que força macabra fez isto à única mulher que amei.
e perdi-a. perdi-te a ti.
e fica triste por saber que ainda me amas,
mas que não fizeste o esforço de te manteres a meu lado.
e se por mim que me amas, não tentas sequer,
quantas mais relações vais espezinhar para obteres o que queres?

ouço do longe os aviões a chegar,
um ataque é iminente, não tenho muito tempo.
se eu morrer agora, o amor ainda não se foi,
mas odeio-te intensamente.
não sou homem de maldições, 
mas que a minha morte toda a tua paixão sele!

da morte para sempre tua,
d'ele.


bons tempos

saio pela porta.
tudo igual, tudo se mantém, tudo indiferente a tudo o resto,
a coexistirem em perfeita harmonia.
excepto uma coisa:
um pássaro morto.
que era o pior que me acontecia há muito tempo.
também era o melhor.
o que é algo triste.
antes escrevia sobre amor.
ou dor.
que são palavras tão usadas que já me causam uma certa impressão de ver (e escrever).

mas escrevia também sobre força e fraqueza,
sobre o mais nobre dos homens e sobre o mais reles da pobreza.
sobre o quão a vida me pesava nos ombros e me obrigava a rastejar
e sobre o quão a vida me elevava de escombros e me atirava ao ar.
sobre a partida de todos aqueles com quem partilhei memórias e amei
e sobre a chegada de todos aqueles que me roubaram histórias e odiei.
sobre outros poemas que li e canções que ouvi que me deram inspiração para escrever
e sobre algo que nunca soube bem o que era, que sou eu mesmo, que está lentamente a desaparecer...


mas agora...
escrevo sobre o que costumava escrever.

e sobre um pássaro morto.



quinta-feira, 22 de setembro de 2011

perdidos 2

eterno

sangue a jorrar pelas paredes
por onde me vigiam olhos mudos
a especar-me, a acusar-me sem falar,
a obrigar-me a enrolar
tudo o que eu sei num feto que nasce do céu
que é o que eu vejo no meu reflexo.

o menos afortunado...

caiem imagens dos teus olhos que foram cegos toda a vida.
cai raiva da tua alma que foi imaculada toda a vida.
cai suor da tua pele que foi limpa toda a vida.
e cai tristeza de ti, como sempre caiu.
e abriu mares frios, que só por si já eram gelados
de muitos outros menos afortunados.

... ignora...

a minha mente ergueu questões às quais nunca respondi.
não por não poder, mas por não querer,
para conservar a minha sanidade
que depende do que muitos chamariam de inocência.
que não passa do mal que ainda não descobri em mim.

... vive!

levantei-me do pedaço de cartão que eu tão amavelmente chamo de cama e enfrentei o mundo. larguei o jornal que me cobria o corpo e tirei pedaços de carvão dos bolsos que já mal tenho e escrevi:"sinto que hoje vai ser um bom dia."

The Little Match Seller

acendi um fósforo e nele vi tudo o que nunca tive.
calor.

Um Segundo

passei por ti e esboçaste um sorriso.
eu sorri de volta.
e em menos de um segundo materializou-se na minha cabeça
um número ridículo de imagens e sensações,
que já não via, nem sentia, nem imaginava sequer
ainda reter tais memórias (serão ilusões?).
e voltou a dor.
naquele segundo voltou todo o ardor
que em tempos de amor senti.
ou se calhar era paixão.
ou talvez não passou de luxúria
e estupidez.
mas senti.

passei por ti e esboçaste um sorriso.
que era mais cinismo que sorriso
que era mais o que tu és que aquilo que costumavas ser.

éter

passaste a vida a colocar troféus em prateleiras
a mostrar sucessos,
a exibir forças,
a realçar poder.
a esconder fraquezas e humilhações,
a omitir rejeições.
a empurrar para debaixo do tapete injúrias e calúnias.
a fingir que és feito da quinta essência.

alice

supernovas cobrem o céu e desfazem-se com o vento
que por sua vez te engana e diz que se chama alice.
e vai contigo atrás do coelho pela toca
mas em vez de maravilhas vês apenas um rapaz a chorar num canto,
com um gato ao colo que diz:

"nada no mundo é mais puro que a tristeza e mais sujo que lágrimas
por isso é que te vejo tão puro e tão sujo ao mesmo tempo
foi a vida que te trouxe paixões íntimas
e tas tirou por capricho próprio para teu lamento.
mas não devias chorar, não passas de uma criança
em que é que o teu choro pode afectar o mundo?"
em nada. mas posso sempre ter alguma esperança
que quem sabe erguem-se os meus queridos do solo imundo
"e aí ficas feliz, pobre criança?"
nunca, porque já fui feito d'um sonho intenso
e para lá voltarei, onde vejo espanha, frança,
tudo volta num sopro de incenso.

dito isto, deitei-me no chão e deixei que me levassem.
já passei tempo demais na realidade
a achar o que não encontrei nos sonhos:
uma ponta de humanidade.
mas nada encontrei
e daqui não saio com saudade
que é uma palavra tão terna que só eu sei
tão inimiga da eternidade...