quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

confessionário

mais um dia, mais um tormento...
entrava outro rapaz, era jovem por enquanto
mas era homem no entanto...
sem paz nem alento.
chorava por todos os cantos,
corre para mim e só lhe exclamo:

"tivera eu 6 euros por cada um que vejo chorar estaria eu rico.
mas vivo como ermita por isso ou não vejo dinheiro ou não mo dão..."

ele olha para mim, de faca na mão
"que foi que fizeste meu filho?!"
"matei padre, que quer que lhe diga?"
"pousa isso no chão"
"que não o suje de sangue"
"já está em podridão"
"não é nenhum mangue"
"nem a solo sagrado chega e chamam-lhe igreja...
viu isto mais profanidades às mãos de quem as perdoa
do que os infernos..."

cai a faca no chão, tomba uma vez com o gume e outra com o cabo.
ecoam sons pelo templo.

"quem foi que mataste?"
"quem não mereceu vida"
"ninguém merece e para todos basta"
"mas porque se arrasta a quem não lhe dá devida lida?"
"sabe s. pedro isso e a ele lhe cabem julgamentos"
"e castigos a ninguém cabem, se s. tomé é santo e precisou de ver para acreditar em sacramentos
quem sou eu para acreditar que o paraíso é privado a santos?"
"é a eles que tecemos prantos sem qualquer espanto, portanto se sofreram em vida
para arcarem com tormentos doutros não sei até quanto terá o seu encanto em ser santo;
talvez ser demónio será melhor morte"
"e sem me dizer à mesma quem os condena à sorte"
"eles mesmo, o destino não é de ninguém"
"que faz deus então, se não é a esse ponto forte?"
"deus criou-nos a todos, se quer saber ou não, não sei.
mas a verdade é que nenhum arquitecto governa a obra depois de feita"
"então somos nós quem nos findamos?"
"fomos nós quem redecorou a construção de deus, porque não?
não nos sujeitámos aos sacrifícios dos malefícios da gentileza e pobreza do espírito do homem
para nos descurarmos e deixarmos cada um às mãos de si mesmo"
"então o castigo é nosso de aplicar"
"seria se a morte fosse pena"
"que é então se nem serve para sancionar?"
"só para os niilistas é o fim da sentença;
todos os outros não são egoístas
a cingirem-se a apenas um plano,
todos os deístas ou até mesmo os indecisos
não te podem dizer que a morte é mal algum
quando não deixa de ser algo humano,
perfeitamente bem explicado e conciso,
com princípio, meio e fim sobrepostos num"

"então se morrer agora, deixa tudo às mãos de deus?"
"que ele me ampare se eu por lá cair"
"e sabe que nada acaba por aí?"
"sabe deus e sabem os seus,
mas se algum dia de lá vir,
com a minha trouxa arrumada às costas
e saudades de d'onde vim
é porque era sim castigo e não amor.
e se vivi toda a vida em castidade
para ir lá e sair prejudicado,
antes voltar a mais dias de tormentos,
sabe deus que não é perfeita nenhuma cidade,
mas nem o cúmulo lhe chega aos calcanhares"
"nunca ninguém de lá voltou"

"então ou é benção
ou pena na melhor prisão
que jorrou aos pés do homem:
uma que nem ele controla
e que só a ele assola"




sábado, 15 de dezembro de 2012

física, metafísica e porque não parafísica

ganha raízes, a pequena partícula,
soltando-se cada vez menos,
cada vez mais parte de um corpo rígido,
não é livre como a água mas é gotícula.
é incapaz de experienciar a entropia,
é ser sereno.

cada vez mais se batia e debatia,
sobre a vida viciada que lhe era reservada.
sem virtudes, com uma reação para cada ação,
para cada dádiva uma maldição
e para cada anjo,
nada.

arranha o tecto e tenta rugir,
mas vive no vazio e só a luz viaja,
ainda que não haja quaisquer indícios
dela querer surgir:
sabe deus que p'ró santo ofício o vício é
fugir.

escoa-se em segundos,
materializa-se no instante mais oportuno
e com a aplicação de um só esforço,
não só de sentido oposto
como de maior força,
regredimos.

e puxados para baixo fomos.
a gravidade extrapolou-se
e toda a matéria sucumbiu à sua antítese,
inferno e paraíso como se um só fosse!,
a fera faz o que quer e a vida
sumiu.

sobre o sonho de ser fluído
e sob a condição de ser movimento de todos os outros.
sobre o sonho de ser gás ideal,
de ser desprovido de se juntar a todos
e sob o perpétuo castigo de nunca ser
deformado.

nunca sendo diabo,
sempre imaginando como era ser demónio,
mas não passando de um vulgar lapónio,
passar noites a fim, sem fim e enfim,
por fim
questionar-se:

será que ser senhor de seiscentos e sessenta e seis seres sobrenaturais ou ser esse pandemónio de desassossego sabe tão bem como ser escravo?
ele não saberá, sob o braço austero da cinética.


domingo, 2 de setembro de 2012

trintão solteiro a desesperar às 4 da manhã

olho para o relógio, são 4 da manhã e ainda não preguei olho,
os gatos com o cio miam lá fora e criam uma rotina de gemidos.
foda-se!, ficam com o pito aos saltos e vêm logo aos molhos,
eu que escolho e tento de mulheres estou desprovido.

de 5 em 5 segundos lá está ela. ou de 6 em 6 ou 7 em 7, não sou um relógio atómico,
mas a porra da gata tem mais rotina nuns berros que eu na vida toda.
quase que dá para compassar. miau 2 3 4. miau 2 3 4. a que propósito lógico?
foder-me a cabeça, está meio mundo contra mim e a outra metade que se foda,

também não me quer bem. até os animais se unem contra mim,
assim que se calar a gata os pássaros abrem a grimpa, um pombo caga-me a camisa,
os patos atravessam a estrada quando eu já estiver atrasado para o trabalho, a vida é assim,
2 dias e a fazer direta. o problema é se é uma semana inteira a ficar de remissa.

ir à missa é aborrecido. ir divertir-me é caro. engatar gajas nem se fala,
é como jogar jenga vendado numa montanha russa e já estou destreinado,
da última vez que o fiz o michael jackson era meio branco só, ainda não ando de bengala,
não sou assim tão velho. aliás, ainda mantenho a juvenil semi careca dos amaldiçoados,

a barriga de cerveja que é inexplicavelmente inevitável e um peso nas costas
de olhar o mundo de frente. em vez disso, olho para o chão,
pode ser que encontre um euro ou dois ou um emprego nas docas
com muita maresia, é sempre um sonho, e será sempre uma ainda maior ilusão.

bem, sempre passaram 20 minutos. e surpresa surpresa, não se cala, a porra da gata.
cisma sempre no mesmo, naquela onomatopeia sonante, naquele miau.
sim, "é um belíssimo fenómeno da natureza", mas a verdade é que já farta.
eu até ia lá fora, partia-lhe a boca toda, mas é "crueldade contra o animal".

eu digo-vos o que é crueldade, manter-me acordado até estas santas horas,
em que nem deus quer saber de quem está acordado porque quem está de joelhos não é a rezar.
mas pronto, vão-me dizer que a gaja é uma criatura que deus ama também, e ora,
claro, não tem o bicho a miar-lhe há mais de 30 minutos, quando um gajo só quer descansar.

é que já nem passa muito pela besta, a minha inquietude, agora tenho a cabeça a soar,
é a merda de um jogo, isto! vamos lá pessoal, toca a foder a cabeça às pessoas.
vamos certificar-nos que o gajo que tem de ir trabalhar às 7:30 da manhã não tem hipótese de sonhar.
bem, não é mau de todo, ao menos não me iludo de nada, já que estou nesta habitação toda,

que se resume a uma sala, uma cozinha e uma casa de banho. um t0, para os leigos,
ou para os peritos no assunto, uma casa de quem recebe um salário mínimo.
uma casa de pobre, pronto, digamos assim. se calhar estava melhor em áfrica, lá os felinos não são meigos
mas ao menos estão calados. e a casa não deve diferir muito, isto não abrange conceitos como espaço íntimo,

as paredes parecem papel, a única diferença é que é um cheiro fétido a merda que não se pode.
felizmente, eu, jorge daniel andrade cunha, sou um moço resistente às adversidades que me foram servidas
e aprendi a cooperar com todas as dificuldades da vida que me proporcionei, mais que queixa isto é uma ode
à minha força de vontade em superar o meu hábito estranho de usar vocabulário eloquente e linguagem de má vida.

felizmente, eu sou assim, uso palavras que não sei o que querem dizer na esperança de parecer um emérito,
que acabei de ver no dicionário, uma pessoa que sabe muita merda, pois bem,
melhor descrição não se enquadra, e acho que não é de mais ninguém este tão meu mérito!
só da pena ver que o mundo não sabe este filho que tem.

"cala-te, caralho", berra o vizinho. já te calavas ó porco.
"toc toc toc", ecoa no chão onde vive a teresa rebelo,
uma moça por quem já estou pelos cabelos e não é pouco,
mas pronto, já é demais a queixa pelo meu ruído, nunca fui cidadão modelo.

podiam era mandar calar a porra do gato.
isso é que era.


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

torre de babel, histórias

empilha tijolos de barro, faz uma torre e de lá de cima
vê os outros lutarem como se fossem ratos,
atira mais um pedaço de queijo, atira um para cada um
e a luta assim segue para que um fique com todos.

já chega de diversão.

põe ratoeiras por tudo o que tens.
dispõe de meios para controlar os roedores.
apercebe-te que são inúteis,
ergue-te e despede-te deles para correres atrás deles por serem a única coisa que ainda te restava.

eles não voltam.

abandona tudo, embala criancinhas no teu colo,
sussurra-lhes que tinhas tudo.
apercebe-te que não tens consolo,
só um sonho mudo
que deixou de dar música há séculos.

cai água do tecto.

está tudo em ruínas, tens a torre mais humana de todas:
a desfazer-se, sem pilares nem fundações.
concentra-te mais um bocado no pingar e ouve as
criancinhas que afinal não tens a chorar,
são alucinações que passaram,
histórias de infância que criaste, porque a tua infância não foi traumática,
foi apenas.

já nada resta.

quem tem o que tu tinhas?
quem te tirou o teu confortável nada e te deu uma torre de babel?,
com um quarto no topo e lances de escadas que simbolizam cada um
todos os anos que passaste a ser fel e mais fel
e merda e mais merda.

soa mal dizer asneiras.

soa mal contares histórias de quem eras.
são deprimentes e maçadoras,
é como ouvir falar um gato do seu tempo de fera
e olha só as horas!,
já é tempo de partir,
contas os teus contos noutra altura,
deixei a a cama por fazer e os miúdos estão para vir,
sabes como é ou então não,
o que interessa é que nós nos havemos de ver por aí.

vejo-te de novo e olho para baixo para evitar histórias desinteressantes.

assobio, já que é um clássico cinematográfico de "não, não estou aqui."
e lá vão as notas, embaladas.
passam por ti e queres lá tua saber, tens mais que fazer!,
tens que recordar as histórias inventadas.

uma por uma, elas vêm, tu vê-las e apagam-se como velas.

são coisas.
são histórias.


domingo, 26 de agosto de 2012

soldado desconhecido

dá-se a alvorada, prepara-se o pelotão para partir,
somos mais que 30 filhos da mãe a levantar o acampamento
é na terra do sol nascente, é o maior dia da minha vida
e se esperam a história de um herói vos desiludo e lamento.

éramos todos sem sustento nem alento nem rumo.
tínhamos nada mais que um ponto de  chegada
passam árvores e passa tudo e ao longe vemos fumo.
"é ali" grita o capitão, "é tudo ou não é nada!"

de granada em mão vamos forte em direção aos cabrões
voam 61 milímetros de metal e fogo grego e eis a revolta:
nada perto da fogueira, nada mais que vestígios das explosões
grita o homem do comando "vem aí a reviravolta!"

flanquearam-nos desprevenidos e só os vejo a vir.
eu no meio pego na arma e atiro a quem não for dos meus
vejo um dos meus camaradas a arrastar-se e a cair,
cai-lhe a chapa do pescoço, que será feito dos seus?

"pelotão 24" ainda me lembro, "esteves, o soldado".
fez o treino comigo e agora só o vejo do outro lado,
tudo às mãos destes terroristas ou lutadores da liberdade,
conforme o lado onde está o financiador da guerra sentado.

rápido se foram, éramos mais e mais fortes,
deles caíram 20, dos nossos caíram nove.

ergam estátuas, esqueçam nomes, eles foram para nós sermos
cantem por eles que eles foram fortes pelo povo menino
e quando quiserem saber porque não vivemos em ermos,
olhem para a estátua do soldado desconhecido.

domingo, 19 de agosto de 2012

portugal

dos montes hermínios às planícies além do tejo eu te vejo,
com todos os teus relevos e contornos, a erguer a bandeira.
por além, pelas ilhas e continente, d'onde sempre britou desejo
de ser mais, grita ainda contente a tua nação solteira.

por mares d'antes nunca navegados fizeste travessia
e defrontaste deuses e mouros, monstros e tormentas,
apenas para te ergueres no final como qualquer povo merecia,
se tivesse passado pelo que tu passaste, com a glória que alentas.

fomentaste fome por mais e a tua gente só te seguiu e te auxiliou,
mal fez quem nunca olhou o céu e soube que o reflexo foi dos nossos avós.
de lingote em mão e pena na outra soubeste sempre valer teu ouro
que nunca fizeste por ter sem merecer e dedicas ainda a nós.

com quantas adversidades te defrontaste, por tragédias gregas passaste
mas nunca ficaste pior que os seguidores de zeus, pois tens luta  nas veias
e quantas tramas enfrentaste, embustes que descartaste, vindos de todas as castas
e raças, sei e sabe todo o meu ser e todos os teus que ardem que nem mil candeias.

venha os mares mais brutos, os rugidos mais altos, as ondas com pior fama
que nós seremos ainda mais rudes, falaremos para a lua e navegaremos nos céus!,
porque só é grande a sombra de quem se atira para a frente da chama,
só é opulento o legado de quem se arrisca ao destino oculto por um véu.

e sigamos o astrolábio, por este rio acima e façam-se trocas com deus,
que quanto maior a tua fortuna maior será a sua honra em terras tuas,
porque se a fé cega fosse força não se ouviria falar em atlas, apenas filhos teus,
a levarem o mundo cego, como se fosse já velho, pelas tuas ilustres ruas.

e quantas travessias por lá foram feitas, quantas rezas pudeste testemunhar,
quanto crime por lá viste, de quantos heróis foste pai, só tu sabes,
só tu quiseste apadrinhar uma nação que começou com o filho a reclamar
à mãe o que era dele, e a partir daí se gerou e fez forte e fizeste o que melhor fazes:

ergueste-te pátria de vencedores
sociedades de escritores
e colectiva de fundadores,
todos por ti, luso poder,
todos por ti, luso erguer.


sábado, 11 de agosto de 2012

a travessia pelo deserto

um calor sórdido e tórrido preenche quase todo o espaço que tenho para pensar deixando apenas uma vontade louca de mijar.
caminho mais um pouco, mijo na areia e como é muita a falta de água é quase opaco e pesa mais que as minhas pernas,
espancando o chão,
furando a areia pouco e esgotando toda e qualquer água que eu ainda tenho no corpo.
caminho mais um pouco, vejo um arbusto onde tento descansar um pouco e não virar louco, não, por enquanto não serei maluco,
ainda tenho tanta sanidade e insanidade positiva que não posso deixar que isto aconteça.
descanso um pouco e começo a delirar:
é tudo de bom a dançar à minha frente e atirarem-me calhaus para a frente, a fazer um muro que tantas vezes construí.
danço com eles um pouco e o cansaço começa a desaparecer, faço jus à minha demência e atiro-me para o chão e rezo como nunca rezei,
a todos os deuses, aumentando assim os casos favoráveis, aumentando a probabilidade, aumentando a minha chance de salvamento, aumentando o tempo que passo sem me preocupar com a minha morte iminente.
rebolo um pouco e levanto-me de uma só vez, erguendo-me finalmente.
olho à volta e tudo de bom se foi, ficou só areia e dunas e calor e ar a tremer e dilatado.
caminho mais um pouco e vejo água, tento mergulhar e resulta apenas numa espécie de tentativa de auto-enterro precoce.
magoo as costas um pouco e levanto-me.
caminho mais um pouco e começo já a esquecer os meus problemas e relembrar soluções a outros problemas que agora não me interessam e que vou esquecer se e quando sair daqui.
arrasto-me um pouco, finalmente dou uso aos braços já que as pernas me parecem inúteis e o são a esta hora.
arrasto-me mais um pouco para dar por mim de braços cansados e deixar-me quase para morrer.
tenho a cara enterrada na areia e o corpo inteiramente desidratado.
vêm-me umas segundas forças e levanto-me.
caminho mais um pouco, levanto os pés, marcho em direção ao que penso ser a saída, finalmente percebo como se sentem quem não tem rumo na vida.
finalmente percebo como me sinto, finalmente uma metáfora torna-se tão ridiculamente real que nem opções para rumo tenho.
verifico se há placas no deserto. verifico que já não penso concretamente em coisas que valham a pena. verifico que para qualquer teoria política resultar toda a gente tem de pensar igual. verifico que uma abismal maioria não pensa e que torna quase tudo impossível.
caio no chão. levanto-me. caio no chão. levanto-me. finalmente percebo aquela música brasileira que toda a gente cantava.
caminho mais um pouco e vejo um abutre ao longe.
deve ter água, ninguém vive sem água. tal como ninguém vive sem internet. se calhar têm disso. ou então não, não há postes com cabos por aqui.
aproximo-me mais um pouco e vejo que ele pousou ao pé de um animal tombado. não tenho ideia do que é, por isso pergunto-lhe.
não me responde. se calhar as boas maneiras não chegam a estas paragens.
um pouco mais à frente vejo um oásis. e que belo oásis, tudo muito digno de reclames. água, uns arbustos, umas palmeiras, uma gaja a tomar banho, afinal não, era um monte de calhaus, mas não me podem acusar de ter pouca imaginação.
vou logo a correr, desta vez não mergulho porque gato escaldado de água fria tem medo, apesar de os gatos já não serem muito fãs de água, só se lambem os porcos.
acelero o passo e molho o pé.
molhado.
finalmente.
mergulho a cabeça e bebo e bebo mais e bebo ainda mais e paro lá um pouco por baixo da palmeira.
olho para o céu. está a começar a escurecer. vai esfriar. o calor vai ser frio. se calhar não devia ter atirado metade das roupas para o chão há umas horas.
só me arrependo das coisas depois de as fazer. se me arrepende-se antes dava mais jeito. devia começar a fazer isso. viver sem erros.
se calhar não seria assim tão bom, tinha menos histórias para contar.
"então como é que foi a tua vida, alguma história gira?"
não, sem erros nem nada que se pareça.
tudo muito aborrecido.
vou dormir enquanto posso, enquanto a temperatura é amena.
boa noite. amanhã é dia novo. amanhã dia novo é. é amanhã dia novo.
tudo rigorosamente igual, só se altera o ser.


quinta-feira, 2 de agosto de 2012

a lagarta da reencarnação mental e a rapariga na maçã

a lagarta e a rapariga especam-se.
as duas olham e são olhadas
enquanto ambas vivem numa peça de fruta
que bem podia ser uma peça de nada.

uma pequena e redonda maçã,
reluzente como numa pintura,
envernizada e toda esburacada pelos inquilinos
que não encontrando a porta, se deixam levar pela loucura
e fazem uma artesanal e muitas mais pois ser um
já não é levado a bem neste mundo.

fala a lagarta:

"sabes, fui já dragão e arrastado
por todo o universo, nunca soube o que perdi
por ser tudo em todo o lado e fui enfadado,
realmente aborrecido sem saber o que vi
nem a ligar ao tempo que passou e que se criou na minha ausência do mundo,
fui anéis de saturno, e luas de júpiter, gelo em plutão e no fundo do sol fui ferro e níquel teoricamente,
fui um número na cintura de asteróides e os pilares da criação que já não são,
andrómeda, grupo local, via láctea, verdadeiros espetáculos de luz e panóplias de estrelas,
fui modas, fodas, rodas, codas, bodas de amor e todas elas por momentos apenas.
fui as penas numa ave,
vai chave numa porta,
a aorta de um sistema circulatório,
oratório de uma igreja,
a inveja de alguém melhor,
o pior de quem quer que seja."

a rapariga acena e sorri.
volta a especar e a ser olhada.
por um pouco pensou em falar
mas rápido lhe passou, controlada
como era
e como sempre foi.

a lagarta fala:

"sabes, fui micróbio, e levado pelo vento,
algo mais pequeno que tudo o que viste
e no entanto eu e os meus irmãos cobrimos todo o mundo.
falámos uns pelos outros, em uníssono, sobre tudo o que existe
e contaram-me histórias... ó, as histórias!
david e golias em confronto e o triunfo do pequeno sobre o gigante!
pena que agora o campo onde lutam os colossos contra o homem
não tenha pedras nem o homem fisgas, mas amarram-se os elefantes
com as poucas cordas que ainda se têm, apesar de não ser muito
sempre é o necessário, dizem que as pessoas se vão aguentando ainda assim.
e quantos contos me contaram, coisas dignas de serem cantadas,
coisas sobre aquiles e o seu calcanhar, sobre explorar fraquezas e afins.
mas quase não me recordo de tudo o que aprendi quando era pequeno, sempre soube bem aprender coisas,
agora recordar é que é não vai nada bem...
mas agora sou lagarta, sou forte, como maçã e bebo água,
sou o sonho molhado de um nutricionista, creio eu que tudo o que da terra vem
faz bem ao corpo e à mente e a minha mente já viajou muito,
tem muito que se nutrir, já pensei em ser lagarta de livros mas dizem que essas não vivem muito bem,
comer coisas artificais não faz bem a ninguém...
e tu de onde vens?
por que nome te tomas?"

a rapariga fala:

"venho de algures porque toda a gente vem e tenho um nome como toda a gente tem,
como é normal. o governo tirou-me a casa e tenho de habitar em algum lado,
como a maçã tem uma boa relação de qualidade/preço/estética/saúde pensei ser a melhor escolha.
e assim foi. sou uma rapariga bem educada, com maneiras à maneira e espero que venha o meu soldado,
de chumbo não que faz mal, de borracha também não que no calor do momento derrete,
talvez de carne e osso como eu, sempre tínhamos algo em comum que é o que se quer nas relações.
e também não podia ter uma pistola com baioneta, quero educar filhos com um homem que se compromete
e não use facas, isso faz um mal desgraçado à saúde e a maçã que o saiba, que lhe tira a pele e lhe corta a carne
por capricho ou necessidade de outro alguém, mesmo sem ela fazer mal a ninguém."

a lagarta olha, sai da maçã,
tira um cigarro, acende o isqueiro,
deita fora o cigarro, fuma o isqueiro,
acende-se a si mesma e mete dó à rapariga
que só queria uma amiga.

a rapariga pega na carta de suicídio, que lê:

"ser lagarta e viver com uma rapariga é aborrecido, rápido me enfado. vou encarnar outra vez e pode ser que nos vejamos por aí."

a rapariga sai ao mundo, livra-se da proteção, encontra o soldado que é feito do mesmo que ela e vive feliz,
sem ninguém a incomodar.
quem sabe se encontra a lagarta mais tarde para ir tomar um café ou um brunch ou coisa mais moderna.
quem sabe o que vem aí ao virar da esquina.


sábado, 28 de julho de 2012

ode a tudo, ódio a nada/relato

ode a tudo, ódio a nada

não sei a quem dar mais mérito:
se ao homem ou a deus,
se a quem imaginou algo maior que ele
ou àquilo que criou algo com o pensamento maior que o seu.


será a ignorância o tributo humano a tudo o que é maior?
será a ciência o símbolo de decadência filosófica?
será a crise de valores humana devido ao ganho da consciência?
será travável uma consciência já arcaica e histórica
e mais velha que tudo na vida?

já deus era consciente antes de ser criado.
já as pedras das pirâmides existiam antes de serem sarcófagos.
já havia electricidade antes de tesla
já havia lâmpadas antes de edison
já havia relatividade antes de einstein
já havia radiação antes de curie
já havia mente antes de freud
já havia rock n' roll antes de elvis
já havia igualdade antes de marx
já havia revolução antes de abril
já houve massacres antes leopoldo II
já houve ressurreições antes de cristo
já não havia nada antes dos buracos negros.
já houve tudo antes das estrelas de neutrões.

nada se cria. nada se perde. tudo se transforma,
todo o mundo em metamorfose.


relato

ler um livro
sentir-me inculto por não perceber referências
comprar mais livros
não ler nenhum
usar um livro para balançar a cadeira que tem a perna manca
usar um livro para ensopar o que entornei no chão
usar um livro como pisa papéis para o pouco que escrevo
usar outro livro para balançar a cadeira porque o outro era muito grosso
trazer livros do sótão para os ler um dia
aperceber-me que não os hei-de ler tão cedo
virar-me para os filmes
ver um ou dois que me recomendaram por dia
sentir que não estou a atingir o meu potencial
ser triste e rejeitado por mim mesmo
ouvir música que me relaxe
ouvir música que me exalte
ouvir música que já não ouvia há séculos e sentir-me nostálgico
ouvir música que nunca tinha ouvido e sentir-me arrependido
aproveitar ao máximo os meus ouvidos enquanto os tenho
voltar ao quarto
voltar a ver os livros todos empilhados numa prateleira
"como será viver assim?
será que vale a pena viver sequer sem ter espaço?"
esquecer-me que há gente a viver assim
viver num quarto com dezasseis metros quadrados ou assim
sentir-me importante
sentir-me rico
sentir que tendo o que tenho sou um gota de gasolina no oceano
sentir que tenho amigos no meio disto tudo
saber que tudo é nada
viver para ter mais um bocado de nada
sentir-me intelectual por tirar tantas conclusões
pegar num livro
começar a ler
"parece interessante"
aborreço-me
deito-me
não ter que fazer
estar rodeado de tarefas e passatempos
pegar numa bola e atirar à parede
encher-me d'uma alegria infantil
simples
forte
cheia.

cheia de nada.


segunda-feira, 2 de julho de 2012

hipocrisia (crise de valores)/jovens apenas

hipocrisia (crise de valores)

pesa-te a utopia do primeiro mundo nos ombros,
arqueias as costas, corcunda da capela clandestina de las vegas,
e dás-te ao luxo de reduzir tudo a escombros,
até a torre!, enquanto vês às voltas as cabras cegas
todas atrás deste mundo perfeito em que já vivem,
viva o capitalismo!, viva o che guevara que ironicamente
está estampado em todas camisolas. todos querem
criar polémica e criticar toda a gente!
"vamos usar um revolucionista comunista
em t-shirts baratas", não vejo melhor maneira
de honrar senhor marx que escreveu meia dúzia de papéis e é sócio da conquista
e dono de tanta cabeça que para não ser como a próxima pegou na primeira
teoria que viu que ninguém gostava e adoptou,
viva a controversia, viva o conformismo que todos seguem religiosamente,
a política já faz parte do mundo da moda, sei lá o que sou
ou se estou nos gostos de toda a gente!
ou sou vermelho ou azul ou verde ou roxo ou anil ou #E0FFFF,
tanta merda que para aqui há, já estou cheio, mais que cheio,
a transbordar por todo o lado de cores, sou uma mescla,
uma palete bem elaborada de todas as sensações do seio do mundo,
quem serei eu?, quem serás tu, que apesar de apenas ligeiramente diferente
eu insisto em colocar a seguir a mim, porque o egoísmo é tão meu companheiro!.
tenho tanto o meu ego em conta que pouco sou consciente...
e no fim de contas se calhar é isso que sou, o inconsciente derradeiro,
o símbolo mundial do homem, o gajo vitruviano,
perfeito e simétrico em todos os sentidos, como ninguém o é!
e ícone representante de toda o ser humano,
que ridículos que conseguimos ser!,
todos atrás de alguém que aprendeu a ler mapas com quem já estava perdido,
pelo deserto a dentro, à procura de uma miragem, que já era melhor que nada!,
a sermos constantemente (e orgulhosamente) vencidos
e face ao menor triunfo a paixão da vitória revela-se e esfregamos os derrotados na merda mal-fadada
que é a derrota, a nossa vida querida e apaixonante e submissiva
para uns manipansos que todos criticam mas ninguém opõe!,
onde andas tu, meu caríssimo shiva?
onde residem as tuas destruições e reconstruções?
é que nós somos nada mais que mestres da hipocrisia,
e todos nós no topo da hierarquia!
a rondar os póstumos corpos
que nem abutres para ficar com os destroços.

todos nós demagogos, a agradar os outros para nos agradarmos a nós!

jovens apenas

erguemos do fundo.
nunca fomos senão poeira.
energia condensada, como dizem os físicos.
somos a mais, como diriam os mais críticos.
somos a subida, a beira do precipício e toda a queda,
o colosso e o escravo que o ergueu,
o boémio e o filisteu,
a estátua da liberdade e o muro de berlim,
para os livres e para os oprimidos!,
o convento de mafra e o taj mahal,
para a vida e para a morte!,
as favelas do brazil e petra da jordânia,
erguidos do nada e feitos da montanha!,
o cristo rei e o templo de diana,
ao único deus e a um dos muitos!,
somos tudo! somos todos os tudos que alguma vez foram concebidos!
adão e eva e o pré-câmbrico!
somos as casas que erguemos nas asas dos abutres,
rumo ao fim, à nossa necrofagia.
onde vamos pertencer ao resto do mundo,
finalmente!, depois da opressão de mentes mais velhas
a juventude fará finalmente parte do globo,
dos vermes, dos artrópodes, dos macrófagos, dos detritívoros, dos saprófagos!
venham eles, vamos pertencer à ralé da natureza, à escumalha!
a nossa opinião vai ser digerida por quem é menos que nós
e só aí seremos úteis para algo.
seremos creditados de opiniões incoerentes se fugirmos à maioria
e daqui a uns anos seremos os srs. conformistas, o membro nº 7 mil milhões e tal do rebanho.
mas chega de críticas, afinal quem somos nós?
somos os senhores da inconsistência,
somos 20 disposições diferentes para 20 pessoas iguais,
somos velhos demais para sermos crianças,
somos novos demais para sermos adultos,
somos gigantes cheios de energia, no nosso auge físico e intelectual,
e no entanto, quem somos nós?
somos jovens apenas, meus senhores,
jovens apenas.


quinta-feira, 21 de junho de 2012

a vida

tudo começa quando nos fazem abrigos nas asas das gaivotas
e logo nos deixam à mercê do vento e ao sabor da maresia.
nunca ninguém sabe porquê mas todos nós damos tantas voltas...
saboreamos a vida, toda ela!, celebramos iras!
passamos que nem hidras, mais cabeças mas menos testas 
e quem nos culpa?, alguém que não seja como nós!,
mas quem, que não seja ninguém?, um povo de festas, 
de grande alarido e ergamos a nossa voz! 
avante irmãos, face à nossa perdição!
é tudo para nós, sejam escutados!
está tudo nas nossas mãos, filhos,
agarrem o que vos for dado!
será tarde p'ra sarilhos 
e pobres já no fundo,
rendidos de tudo.
caos taciturno
e paz, só.
de todos
nós.


"O homem é mortal por seus temores e imortal pelos seus desejos"
-Pitágoras

quinta-feira, 31 de maio de 2012

reunião

sentam-se todos, uns d'outros tempos e outros dos d'agora.
e depois, a cruzarem o pensamento, mandando-o para fora,
vivem tempos de outrora.

que destes tempos que se correm já nada se aproveita,
estão todos à espera que d. sebastião esteja à espreita
mas nem de longe vê-lo!, vivem todos num pesadelo
onde são todos alguém e ninguém conhece um sonho que seja.

"eu uma vez conheci um."
"eu soube doutro que ninguém conheceu."
"em fiz parte d'um em comum
com todos os outros mas não era nada meu.
era uma ilusão num ecrã.
era um espetáculo de amanhã..."

e nenhum se lembra de nada,
sofrem de amnésia.
com tudo de mão beijada
e agora na miséria.

"eu ainda me lembro de a levar a jantar fora!
havia tanto para toda a gente...
mas já me falha tudo da memória,
quem sabe se as vendi por pão quente
e meia dúzia de tostões para atestar o carro
que tive de vender para pagar um telhado
que agora nem os meus filhos dão valor, ingratos!,
mas não os culpo, dei-lhes tudo mas nada que valesse lhes foi dado,
o tempo que passei a ser doutor
não passei a ser pai e que remédio o deles se não guardar rancor..."

todos tiraram ficha para a fila da dos degenerados.
de ilustres vitrais sobram apenas cacos.
foram boas decorações, mas para pilares são fracos,
não se constrói uma sociedade a partir pedaços.


quarta-feira, 23 de maio de 2012

o templo, o dragão, o rico e o convidado

o que ronda sobre nós,
sobre as asas do albatroz.
caiu forte no chão:
ergue-se o dragão no meio do panteão.

"que criatura é esta?
levanta garras e sopra fogo,
quer tirar o pouco que nos resta, certamente."
"matemo-la logo!"
"silêncio que ela nos vê!
não sabemos do que é capaz,
nem sequer se lê - que besta ignorante que será."
"nem sei porque a deixamos viver. aliás, sempre que respira queima-nos as cortinas!
só despesas qu'esta besta nos vai trazer."
"queixas e queixas e demais queixas!
é o que dá vir de família fina,
tens convidados e logo os deixas sair!"
"se eu algum dia convidava um monstro sem disciplina!?
aparece sem avisar ninguém e sem bater à porta
e logo me queima a tapeçaria!"
"a besta aqui és tu! és rico mas compraste as maneiras tortas,
no mínimo davas-lhe um chá, parece abalado, veio de grande travessia!"
"vou espetar-lhe uma espada!"
"nem cortar queijo sabes, tens quem corte por ti!"
"para além de estares contra mim és presença mal-criada!"
"pois que de más maneiras percebes tu por mim."
"olha o monstro a fugir!"
"deixa ir, já não é empecilho!"
"muito burocracia, é sempre assim!"
"já seguiu o seu trilho."


"fiquemos e apreciemos a vida sem mais preocupações."


se adão e eva foram os primeiros,
os de escamas foram pioneiros.
eu não sei de nada.
se há um inferno lá no fundo,
é atlas que segura o mundo.
quem sabe mais que nada?
se foi prometeu que nos deu o fogo,
sirineu ajudou o "nosso senhor".
histórias, só histórias.
se é neptuno que comanda os mares,
a vossa guerra é filha de ares.
quem não sabe histórias?

somos prisioneiros da divagação.

ser iluminado é ser demente.
eu só sei que o meu pensamento
ecoa na minha mente.

não foi vontade divina
que me pôs 5 dedos na mão.
o meu povo caminha com a evolução.

se o teu povo foi pelo deserto,
gigantes de gelo foram algo concreto.
eu só sei o que se vê.
se é preciso subornar o homem cão,
a medusa faz-te em pedra com uma visão.
quem não sabe o que se vê?
se um homem fez doze trabalhos,
a proteção do mal são cruzes e alhos.
é cego quem não quer pensar.
se a tua gula é de belzebu,
se sombra na caverna é o que se vê no escuro.
quem não quer pensar?

somos albergadores da divagação.
somos o fruto da evolução.


quarta-feira, 9 de maio de 2012

um copo (procissão)

e vai ao centro e bota a baixo,
e celebra e afoga dores.
é o ritual no qual me encaixo,
venham também, meus senhores.

sigam o rasto e o cheiro a animais
e vão p'la sombra que arde a lua!
ou então sou eu que vejo a mais
no rio onde o reflexo flutua.

é uma vida de espelhos,
parece tudo tão real.
vou a pegar num copo
e cai tudo ao chão.
vamos ao fundo de joelhos
até ao altar real.
tenho direito a um voto para cada decisão.
e deito tudo a perder, que ia eu ganhar?
sou pobre a ser pobre e só de vos olhar
vejo que na miséria, sou senhor e vocês
aí altas, empilhados em merda, estão à minha mercê.

e vem um cheiro fétido
a sémen e suor.
de manhã é tudo angélico
mas agora não é hora
de pensar no que aí vem,
porque não vem porra nenhuma;
expectativas?, quem não as tem?
só não as levanto por coisa alguma.

"vem aí o riquinho,
de charuto na mão
ainda é um menino
e já vai nesta procissão!"


celebramos a vida e a morte,
bebemos um pouco de cada um!
e com alguma sorte
não entornamos nenhum.
seja o copo de madeira
ou o cálice de ouro.
o qu'interessa é que dê pr'á bebedeira,
o qu'interessa é que não seja pouco.
nascemos na miséria, morremos na valeta,
mijamos pelas ruas, chocamos canecas!
o que vai pelo meia é a vida e já só a vejo aos pedaços.
juntem-se a mim nesta lida, sentem-se neste regaço!

no fundo do copo
vejo tudo distorcido
mas pouso-o e o que olho
é apenas o mundo partido!

já caí tantas vezes
que já conheço o chão.
vocês olham-me de pé,
sem conhecerem o que são:

nada mais que calçada, um pedaço de nada.
a viveram na ignorância porque a vossa ganância
é só pela quantidade e nunca pela qualidade.
antes 20 anos livre que 70 cativo no que os outros querem de mim.


domingo, 22 de abril de 2012

o capitão ao mar

ó mar, os teus dias já foram.
fechaste as tuas águas a quem te deu nome!
de ti já só ondas britam,
os filhos de quem te criou passam fome...

somos do mesmo sangue,
da mesma carne, do mesmo espírito
e mandas contra nós as tuas falanges,
só por seres prolongamento do infinito!

céu do céu. da terra, um véu
que tapa as nossas imperfeições.
de tantos homens um mausoléu,
de tantos que se somem, nem visões.

eu, um saco de pele e ossos,
um empecilho, um conceito.
dono e posse de um culto de devotos
que conhece apenas um sujeito:

o mar nosso, o mar de todos!,
repleto de vida e para onde venho morrer.
o grande colosso, o pai do êxodo!,
infinito pr'ós sonhos que vêm aqui ser.

o problema é que os deixamos todos por terra...
o meu sonho de ser capitão ficou n'aldeia
e volto ainda hoje, para junto da serra
onde sonho navegar p'lo irmão da areia.

mas agora que sou o que queria ser
só quero viajar pelas ruas que nem vagabundo.
nada brota daqui, este mar mo fez ver

segunda-feira, 16 de abril de 2012

a passear pelo fundo na superfície

fomos todos para o mundo,
sempre a descer, é bem fundo!,
dei de caras com a vida
sem saber como é merecida.
midas trocou-a por ouro,
nada que não mate!
outros tristes dedicam-n'ao choro,
um complexo do foro da mente,
"ansiamos resgate!
queremos o que já não temos p'la frente!"

chego a toda a parte,
(ser específico não é a minha arte)
e vejo que ao fundo da rua
uma mulher vende noites de loucura!
ela é filha de um pobre na estrada
ou de um magnata sem caminho!
mostra as mamas por nada
mas se queres tocar já vais ter de pagar,
"sou oferecida e dou carinho,
só quero uns trocos e um lugar para gritar!"

vamos lá, siga no andamento!
um vagabundo olha para mim todo sorridente,
com um pote na mão à espera de milagres
quando ele bem sabe que todo o mel é vinagre.
em tempos se calhar até foi senhor,
ou sempre foi um triste à espera.
só não trabalha pelo seu grande amor:
a preguiça e o pó que o desperta.
"andam todos muito ocupados nesta esfera.
eu não atrapalho e fico parado de mão aberta!"

passa por mim o d. engravatado,
tão atarefado!, a voltar para a família de predicados:
um pai e mãe milionários (ausentes para toda a gente!)
um puto mimado (preso ao cómodo com as próprias correntes!)
embarra contra mim de telefone na mão,
só ele sabe tanto sobre o ofício da pressa!
há-de vir-lhe uma qualquer emoção,
qualquer coisa que o gelo que lhe prende as veias não suporte.
"tenho um forte porte e não faço nada, essa é que é essa.
uma vida carregada de ser carregado, é a minha sorte!"

e aí vem ela, toda lançada, sem qualquer receio.
um movimento de ancas que limpa um passeio inteiro.
um decote que realça o que ela quer ostentar,
umas pernas que mostram que o frio não vai no ar.
é louca que nem um chapeleiro,
a mania come-lhe o discernimento,
para ser diva só lhe falta dinheiro,
isso e uma mente dela que não lhe fazia mal.
"ai minhas lindas o meu único lamento
é que nem sei o que vestir para toda a ocasião social."

terça-feira, 20 de março de 2012

simplicidade (complexo humano)

se o tempo é só uma noção, um conceito do homem,
também o é o espaço.
o próprio homem é a sua noção de espaço e tempo.
é assim que sabemos quem somos.

o homem, no lugar, com idade,
que foge fugazmente para onde? nem ele sabe,
corre em frente (ou em conceito de frente), a razão a mim não me cabe,
só sei que onde ele há-de finar, finarei eu, que sou também uma noção de espaço e de lugar.

qu'este suplício acabe!,
e me dê asas de uma qualquer ave,
para ser mais espaço sem que a vida me vaze
deste escaço saco, que já vazio,
sempre teve mais vivências que eu,
só por não ser apenas uma noção e por ser oriundo do seio da terra.

como é homem é fantástico!,
saído da terra, como tudo o resto,
mas superior a todos e a si mesmo!


quarta-feira, 14 de março de 2012

democracia dos foragidos da lei/hipocrisia-apresentação do homem-gott ist tot-(cego)

democracia dos foragidos da lei

um rugir ecoa pelo meu corpo.
uma sensação não processada, sem quaisquer alterações,
atravessa-me a alma.
sinto-me tão irracional como os primeiros.
sinto-me a ser feito de suposições,
que foram geradas por teorias
que foram geradas por dogmas incertos.

e cismo na minha cisma.
insisto na minha persistência.
duvido das minhas dúvidas que, sendo refutadas por gente igual a mim, não são sequer o que eu sei que são.
são tretas balbuciadas por um ignorante.
são coisas.

se proteste sou decerto um louco,
mas se me calo sou volátil!

vivo num debate constante se hei-de ser barro ou pedra.
se hei-de ser maleável e mal-tratável e suprimível ou ignorado no vosso caminho para um futuro melhor!
de que vale ter livre arbítrio se ninguém me ouve?
sou só mais uma boca protestante.
sou só mais um manifesto com pernas.
sou uma besta sem educação, um perdido sem um papel para pendurar na parede como certificado de inteligência.
sou só uma personagem sem um cupão que diz:
"tem direito a uma opinião válida."
que feliz que eu era, se os nossos senhores doutores me ouvissem!
vestia o meu melhor trapo, com uma laçarote e tudo!,
e lá ia eu, inteiramente e infinitamente sabedor e conhecedor:
um verdadeiro génio da auto-estima, um perito na preservação de mim mesmo, o grão mestre das artes arcaicas da inveja,
o juíz final! o dono do eterno!
seria monoteísta se me adorasse a mim mesmo!
seria panteísta se fosse tudo!
seria agnóstico se fosse e não fosse!

AI o que eu seria se fosse um senhor doutor!
mas não...
isto não é nenhuma era de ouro ou prata ou bronze ou cobre:
são os tempos do pobre, dois zero doze, tempo da falta e época dos roubos.
meu povo, eis o vosso futuro capitalista e liberal, 
onde o pobre já não tem sonhos porque os trocou por pão,
onde nos são servidos ideais de igualdade
acompanhados de um prato de discrepância social.

ó meus príncipes, somos os vossos escravos piegas,
que vivem as dores que vocês praguejam
perto do dia em que sobem ao pódio
para parecerem preocupados com o chão que pisam,
com os vossos sapatos de sola imundos e valores, defuntos e corruptos, arrastados e maltratados.

são esses os vossos estudos, as vossas ciências!
incoerências e incongruências;
as artes do ego subliminar e todas as suas magias do oculto;
os dialectos da piedade com um sotaque de crueldade,

um liberalismo confinado,
uma sociedade igualmente discrepante,
a divisão do todo por uma parte apenas,
o fechar de uma cena com a actuação a meio,
despedimentos em massa,
transições, transações, translações, rotações e já se foi outro ano de supremacia dos burgueses da política.

o tempo flui com uma naturalidade incrível e nós permanecemos estagnados.
o templo rui e caí toda a humanidade susceptível e nós vemos fascinados.
como uma boa tragédia, deve ser apreciada!
a nossa nova estratégia de como governar a nossa vida depois de conquistada:
já não somos nada.

hipocrisia-apresentação do homem-gott ist tot-(cego)

"não matarás", proclama o seguidor,
enquanto limpa as mãos de sangue.
"o suplício dos vossos irmãos é a vossa dor
e quem não o ame,
mestre do ofício da santa religião,
sinta o furor da lâmina do nosso senhor."

"não roubarás", fala o tutor,
enquanto arruma os pertences de outros.
"a riqueza nada nos diz, mas se todo o ouro for
será mui pouco,
a pobreza de vós, meus filhos,
dá-vos o dom de ''ser inferior'' no reino
do nosso senhor."

"meus filhos,
contemplem a criação do nosso senhor,
o seu ex lubris racional,
dono de livre arbítrio mas a seguir as leis do criador,
amado incondicionalmente mas apenas se bem mandado for!
venham, juntem-se ao culto da sombra do homem defunto.
sejam filhos do vulto, vivam nos escombros do mundo."

"o salvador é a luz, mesmo que dele só reste escuro...
omnisciente de natureza!,
mas necessita de provas de fé.
omnipresente,
mas adorado apenas em locais de culto!"

(será falha minha ser inerte à luz ou culpa das incoerências?)

(ceguei-me por não suportar a criação do homem que o criou.)


tribute to friedrich nietzsche.




quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

o racional do irracional

como posso ser sem ti?
como posso quantificar quem sou sem ter a única constante em todo o meu sentimentalismo racional?

se fosse dois mais dois têm a liberdade de serem quatro,
também nós temos a liberdade de ser apenas um,
ignorando toda a separação possível que infinidades negativas e positivas possam oferecer.

o chão faz tanto parte do nosso mundo
como eu faço do dele: somos apenas suporte um do outro.
mas o teu mundo e o meu,
os nossos diagramas de venn coincidem na perfeição,
revelando um sonho que apenas nós vemos,
longe do palpável e racional.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

política de neo-regressão

olá sol,
olá inverno gelado mas acima de tudo febril,
olá raiar por entre as nuvens de fumo,
olá neblina omnipresente,
olá nébula omnipotente de pensamentos, peças, partes de um todo que por sua vez é parte de um todo.

ouçam-me todos, neste comício pela loucura,
neste comício pelo prazer,
neste hospício para todos nós que pensamos para lá do que se vê e do que há,
nós somos sonhadores no próprio som,
cada nota musical que se propaga por nós é um nó que nos desaperta a mente cada vez,
abraçando todas as noções controversas e as moções imersas numa sincronia em harmonia completa.
nós somos um omniverso.
não, dois. três. mas apenas um de cada vez, propagados um no outro como quando se atira uma pedra para a água
e se vê ondas dentro de ondas,
colidindo com tudo à volta.
nós somos fotografias, monografias, poligrafias, caligrafias e ignorancías que nem se sabem escrever direito.
nós somos uma tabacaria, onde só se vendem sorrisos e fantasias. não, na verdade é um sítio de ócio e pecado. não, na verdade vendemos metafísica,
cuidadosamente enrolada numa mortalha de transcendência,
pronto a fumar e a atingir o nirvana com 3 leves prestações.
nós somos provas concretas da nossa existência, somos pensamentos divididos em momentos divididos em 7 desenvolvimentos: nascer, viver 5 vezes e morrer
muitas vezes para deixar bem claro que cessamos de existir em nós mesmos.
nós somos anáforas. somos repetições. somos eco-eco-eco-eco. somos repetições. eco


somos os jovens que não nasceram.
somos os que já morreram.
somos feitos de gente que (já) não está cá (ainda).

no entanto, somos incrivelmente físicos. niilistas de alma fervente.
presos por correntes às nossas máquinas feitas de deus.
(corpo feito de pensamento.)
solipsistas extremos, rodeados de pensamentos de outros.
(um único rodeado por nada.)
somos dementes e cientes da nossa sanidade mental.
(santidade da ignorância que tudo sabe.)

somos o trigo separado do joio.
somos um cereal killer.
somos um tipo de humor tão rasca que é reservado às mais altas elites, onde reinam a estupidez e a incoerência.
nós, os reles, a ralé, os rascas, os rudimentares, os ridículos, tão mais sentidos nas artes e nos contrastes que as altas sociedades ignoram e:
1º pintam quadros
2º todos pimpões e janotas e fofitos e com umas molduras todas bonitas de uma marca de burguesinhos.
3º só falta pendurarem os quadros sobre a cabeça do povo e dizerem que nos compreendem,
E VOILÀ!
a receita perfeita e cuidadosamente melhorada e adaptada ao longo dos éons para o típico discurso de "não se preocupem, já estabelecemos controlo.",
enquanto o s.s. portugal continua em rota contra o gigantesco fim do mundo plano, que se enquadra tão perfeitamente nas mentalidades das gentes felizes com a situação.

mas felizmente, existimos nós, não é?
a mó de baixo, o moinho que mói as próprias palavras e ideais e sorri à espera de um mundo melhor,
que encomendámos aos senhores que fazem um mundo melhor
só para não nos causar estorvo.

somos nós com muito medo da revolução.
com medo da regressão para o mundo mecânico.
mas ainda mais medo da evolução para um mundo humano, instável e tenebroso.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

samurai/o néscio/dicotomia: eloquência e mais não sei o quê: carta

samurai


"p'la força do sol nascente
desembainha da tua espada
e faz das tuas vítimas 
o teu legado.
que a tua honra prolifere
pelos campos de batalha
e se tiveres de cair,
cai, sabendo que a cor que causaste ao teu adversário
é o prazer da tua morte."


é este o meu hino,
a minha sina.
a maldição com a qual foi abençoado.
ver pais e filhos a tombar a meu lado em guerra,
a geradora de descendentes orfãos e de ascendências desgostosas.


mãe, fui para a guerra para ser homem
mas vim de lá derrotado e de rastos...


como posso ter honra ainda?


voltar da guerra perdida
não passa de cobardia...
condeno-me ao exílio
por ter vergonha de morrer
e medo do que sou:
cavaleiro andante parado na minha desolação,
um isolamento do mundo encarcerado em mim mesmo.
o mundo conheceu-me forte e guerreiro
e nunca mais me viu.
oculto vivo,
em morte.


o néscio


o néscio.
tão boémio,
detentor da sua glória ignóbil e suja,
orgulhoso e envergonhado, perseguido por um passado que ainda o é,
mancha eterna no próprio pensamento,
seguidor cego de um glorioso culto oculto.


o filesteu.
prometeu do nosso tempo
que nos prometeu o fogo dos antigos,
anciões inimigos para nosso bem,
manipansos omniscientes sem noção do mundo,
só concentrados em salvar-nos do fundo
enquanto nos privam da mente que nos deram.




todo o bem do mundo de nada vale quando negamos quem nunca nos deu provas de presença.


dicotomia: eloquência e mais não sei o quê: carta


queridos reis,


com são com vossos luxos?
com os vossos fluxos sanguíneos perfeitos e rosados,
com as numerosas mentes que sonham por vocês
apenas sendo ignoradas?


do povo vim e por cá continuo.
sou parte da tua corte de baixo nível,
da tua sorte azarada,
da tua hipérbole por um mundo melhor (para sua excelência)
e de uma venda para mim.


tudo promessas, tudo em vão, eh.


e eu, o burro a puxar carroças d'oiro,
o cabrão a levar ao colo quem pode voar,
o velho a abrir janelas para a sala cheia de luz!


GRANDE IDIOTA! 


eu, cavaleiro eterno na minha mula,
vos saúdo!,
ó imperadores do opulento reino de merda.


eu sonhador interno e sofredor externo,
sei de todo o mal da pátria e amo-a incondicionalmente.
sei dos escândalos, dos vândalos, das enchentes de corrupção e das sedes por dinheiro.
sei dos patrocínios ocultos, das festas de chá de menino rico, dos patrimónios sujos e da sobreestima dos vossos fatos.
soube das armas e barões assinalados e sei de todas as ruas e estradas mal sinalizadas.
sei de tudo o que valeu pena, não sendo a alma pequena, podendo a alma caber-me na cova de um dente.
sei de todas as mentiras, repetidas e re-repetidas até se tornarem verdade,
sei das vossas auto-condenações, que vos convenceram que ninguém mais o faria.
sei que o vosso discurso nada vos importa, apenas a vossa imagem distorcida.
sei do crédito que rege o vosso mundo que nos tira credibilidade e que ainda nos dá crenças!
sei da vossa vaidade a quem chamam fama.
sei dos vossos apetites de grandeza e da vossa barriga já tão grande que não vê os pequenos.


eu vos saúdo!, e a toda a vossa genialidade e a todos os que ainda acreditam em vocês!
afinal, tanta ingenuidade é motivo de festejo!
qualquer excesso que haja hoje é bom!
muitos bobos, muitos idiotas, muitos promessas, muito ócio, muitos motivos para não ter fé, muitos vivos para pouca terra.
muitos muitos para muitos poucos.


srs. reis,
eu me despeço e vos saúdo,


com um muito saudoso "ide-vos foder",

o patriota. 


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

o velho e o jovem racional

que ciências contas tu, filho?
eu se me sento, sinto o chão frio.

mas tu dizes-me que é só uma transmissão de energia...

então e as memórias?, são o único que me resta!
e é a única coisa que me aquece.
vais-me dizer que os sonhos são também transmissões de energia?

vais-me falar em racionalizações quando tudo o que eu quero é lembrar?
só me faltava a mim ouvir-te dizer que tudo o que vivi foram factos.
TE GARANTO!, que nunca factos me assombrariam.
só erros.
mensagens ocultas do meu subconsciente que gritam comigo,
com vozes agudas e profundas.

e, meu filho, nem eu, nem tu conhecemos erros que são factos, pois não?

quantas vezes me recosto e penso no que amei e que ignoro...
recordo-me das vidas que vivi,
desta cara sem barba, sem metade dos dentes, (como tenho agora!)
mas tão feliz.
tão ignorante,
mas tão feliz.


sábado, 21 de janeiro de 2012

pour vous

perdoa-me ausências.
perdoa-me grandes faltas,
humilhações e noitadas,
meios do dia em vão.
perdoa-me desculpas esfarrapadas...


e por muita admiração que te dedique,
há sempre a ilusão a dar lugar à desilusão,
por isso te dedico o meu perdão,
cuidadosamente embrulhado em confiança machucada.


e dou-te todo o meu amor,
a ti, um culminar de tudo o que eu amo e amarei,
de tão singela natureza.
como todas as partículas do universo presas num copo de água,
tudo de bom no mundo enclausurado num corpo,
harmonioso e simétrico.


e eu sei que não sou rapaz de magistrais afectos
e não sei bem o que é suposto fazer,
por isso escrevo isto para ti.