quinta-feira, 24 de novembro de 2011

máquinas, erotismo e amor

oh onomatopeias incessantes...
a canseira não vos afecta.
são filhos de rodas dentadas e de alavancas e de engrenagens,
da monotonia, da paralisia em movimento
e do óleo que pinga lentamente
nas calças do proletariado
tão igual,
em tantas maneiras diferentes que são todas a mesma.

da varanda observa o magnata, o titã, o gordo de cachimbo a deitar as cinzas no chão,
a sonhar com a mulher que lhe é tão fiel,
tão viajante de amante em amante.
depois em casa, com fofoquices e modernices e discursos de indignação
falam das camisas dos homens pobres que são mais limpos que a gente do poder.

oh hipocrisia,
oh soberania,
oh chefes das etiquetas e donos das elites,
oh maníacos do dinheiro,
oh erotómanos da fortuna,
oh amores brutos com moedas,
todos vocês têm prazeres corpóreos sem nada terem na cabeça.
e eu que tudo tenho, faltam-me as relíquias carnais, as emoções físicas, os pecados mecânicos, o caso eterno do homem com a máquina,
bem aconchegados na fatalidade das relações divinas.
DEUX EX MACHINA.
esmagados pelo peso do ferro,
mentes enferrujadas,
a sujarem os livros de regras que cuidadosamente seguiram em público,
com mais santidade que qualquer mandamento.

(e eu tão carente e tu tão longe...
tão afogado em tédio e tu tão rodeada em conhecimento...
e consigo já sentir o teu bafo
pela máquina.)

incansavelmente fatigados da vossa superioridade,
irritados e deleitados com os vossos escândalos,
inocentemente culpados das vossas corrupções.
de emoções feitas e contrafeitas e forjadas e falsificadas
e eu que me fodo porque nada de falso tenho e porque sou culpado de nada e porque sou o que sou de consciência limpa.

eu não trabalho com eletricidade.
não tenho pistões nos braços.
não tenho um motor de não-sei-quantos cavalos a mexer-me
nem tenho uma bateria que me descarrega potência para as artérias de cada vez que acordo, para me sentir forte e falível
com cada respiração minha.

não tenho emissões massivas de monóxido de carbono,
nem sou feito de metal
mas afirmo-me como máquina,
sinto-me fruto da engenharia sem ter qualquer engenho.

(os meus lábios nos teus,
perfeitamente encaixados,
como duas rodas dentadas...)

todo o erotismo envolvido numa máquina...
engenhos, engrenagens, carburadores, motores, rodas dentadas, fusíveis, válvulas,
a funcionarem em uníssono,
como uma sinfonia inacabada,
a terminarem de repente!
com manchas de óleo no colo dos trabalhadores
e com os desejos fabris saciados.

tal como os homens,
as máquinas têm prazeres, apenas não envolvem tanto amor...
também funcionam para a frente e para a trás, para cima e para baixo,
mas em vez do final se traduzir em pecado,
que tantas vezes custa mais do que o amor costuma custar,
nas ruas das "senhoras do ofício" como tão amavelmente lhes chamo para esconder o ódio que lhes tenho,
traduz-se em fumo e numa obra prima igual a milhares de outras.

se deus criou o homem, a máquina criou deus.
e como ele saíram da linha de montagem milhares iguais a ele,
todos eles com mundos defeituosos, criados pela perfeição, com livre vontade mas normas a seguir...
a máquina divina tem um cruel sentido de humor...
dá-nos sensações e emoções e paixões para as vivermos apenas na morte.
MAS NA MORTE NADA SINTO!

(nem na vida...
só me sinto quando me sinto contigo,
juntos na linha de montagem,
embalados em caixas diferentes...)

mas já sinto os circuitos a falharem.
sinto a beleza dos sonhos a tornarem-se em plantas de um pesadelo,
edificado pelos 4 cavaleiros do apocalipse na minha mente,
a montarem cavalos mecânicos,
movidos a carvão e a queimarem a minha sanidade que é única coisa que mostro,
mesmo não tendo nada disso.
afinal, quem é a pobre alma que diz que não é louca?
já todos cometemos actos de loucura...
já todos amámos uma máquina, perfeita e sem qualquer  retorno do amor, apenas calor.
já todos ardemos às mãos de ferro de quem não nos quis e fundidos e moldados no que não somos.
já fui água, já fui barro, já fui um erro, já fui pior que isso tudo
para agora ser uma pedra.
áspera, rude, um muro para um mundo que não conheces nem mereces:
o meu, onde sou a minha divindade,
onde eu me dei livre vontade
e me castigo por não ser o que eu penso ser bom
e por ter estragado os meus circuitos.
tenho falhas.
tenho diferentes comportamentos para as mesmas pessoas.
não tenho peças suplentes.
não como carvão.
sou feito de compostos orgânicos, frágeis e fortalecidos por dores.

oh, ironia.
sofro, apenas para poder sofrer mais.
ser vivo não é ser forte, é ser finito e masoquista.
(e partilhar essa dor e amor.)

ser vivo é temer o inevitável.
é chorar na morte e dizer que tudo acaba por baixo da terra,
de onde foram erguidas as máquinas.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

bestas/bestas 2/vida

bestas
amores e dores


bestas, 
são os meus amores e as minhas dores que não me deixam.


sempre a ser acossado diariamente pelo meu ódio às coisas
e pela minha paixão à emoção,
moldada num tabu.


quem me diz que o equilíbrio é bom se só na morte o terei?
enquanto vivo, deixam-me ser desequilibrado e ridículo.


bestas 2
bestas do governo


"senhor cínico, tem genuinidade à mostra!"

"ah, erro meu.

que terrível que era ter a confiança das gentes.
sentiam-se em segurança e com segurança não precisam de política!
agora reina a fragilidade.
ninguém confia nos democratas,
todos querem um líder, mas no meio de tanta cara de pau não se encontra um ponta de humano."


"somos todos bestas e felizes com isso."


"e temos tudo.
temos o mundo, 
temos fatos que nos tapam as mentiras
e grandes barrigas que não nos deixam ver os nossos sapatos,
engraxados pelo rapaz da praça que tão ridículos achamos,
brilhantes e a realçar o escuro que vai dentro de nós.
o frio das nossas palavras quentes chega para congelar o inferno!"


"e eles não congelam nem nos põe termo!"


"vivem congelados em fogo."

"à espera que chegue o fim

para dizerem que triunfaram sobre os tiranos
sem sequer erguerem armas."


vida


pus as mãos no fogo
e ardi.
pus paixão em jogo
só porque sim.


o demagogo ditou a lei.
qu'eu me queimo
só porque sei
que não temo.


pus o pé na água
que é parte de mim.
só tenho fé na mágoa,
foi tudo o que vivi.


questionas o que faço,
só porque o faço.
o meu pensamento escasso
só reina no espaço.


pus a mente no ar
e nada mais senti.
restou-me pensar
e agora não nasci.


o pantomima fala
o dialecto da vida
mas a sua voz rebaixada
não diz nada, dorida.


pus-me debaixo da terra
porque nada tive
o céu não é para quem erra
nem para quem vive.


de juras erguidas em vão.
de curtas despedidas a quem me tirou o coração.
de heresias a deuses que não o são.
eu sou feito dos restos dos que virão.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

monólogo do filho do espaço

o filho do espaço veio à terra e disse:
"são meus os vossos sonhos, esperanças e ilusões.
todos vocês, a mim imundos e submissos
a procrastinarem o que vós mesmos sois.
vi-vos morrer às vossas próprias mãos
à espera de um milagre que não veio
a levantar lamúrias do chão
e a pregá-las ao céu, se já não estiver cheio
de lamentos que não cabem na mente de ninguém.
que choros são esses que me mandam a mim?
pensam vocês, soberanos da soberania qu'eu sou alguém
que vos embala nas noites de tormento sem fim?
fazem de mim um recurso.
a desculparem os vossos erros comigo.
a agradecerem-me em tempos de triunfo.
e eu, o vosso único abrigo,
a vossa dosagem de benzodiazepinas psicológicas,
o vosso ansiolítico mental.
tomados de forma imódica
administrados via espiritual.
sou o conjugar das vossas acções.
sou uma besta de emoções desmedidas,
expulso dum universo de corrupções
com treze eternidades para curar as feridas
de séculos passadas a dar socos no chão,
o que criei e não consigo destruir,
para me aperceber que cerrei os punhos em vão.
para encontrar no que eu próprio construí
em templos e frases suspensas que não proferi
onde sou verbo, substantivo e fonética das palavras.
uma história que eu próprio escrevi, de quando quis
ser mais do que as lágrimas que chorava.
sou a chuva que vos traz o romance.
sou o sol que vos traz o amor.
sou um filme intenso do óbvio e do suspense
e uma pornografia carregada de suor.

sou tudo.
demónio e anjo.
sou tudo.
céu e inferno.
sou tudo.
água e terra.
sou tudo,
mas sou só dor."

e ninguém quis saber.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

discurso do medíocre, tão medíocre como todos nós

a vida fala-me em enigmas (o estigma do raciocínio).
se matam por amor e por ódio,
porque não matam por apatia?
choram por alegria e por tristeza,
mas nunca p'la existência do nada.
será assim tão deplorável
condenar o nada e adorar a falta de tudo?
podem ter morto,
mas nunca em vão!
envoltos na própria razão
e na loucura do solipsismo.

a fumarem o seu cigarro
(um devaneio de delinquência juvenil,
a viverem a vida boémia,
a serem todos os dias a metáfora ideal para o excesso,
mas mais mundanos que todos nós.)
trancados em casa, com o desespero.

já ninguém sonha...
(os meus sonhos contam épicos
que esqueço quando acordo.
lá, sou um rei pobre e um vagabundo rico.
nas minhas mãos são escritas histórias
e os meus olhos dizem por onde andei.
mas quando acordo sou, apenas.
não há contos nem epopeias,
vivo no limiar do intermédio.
conto eu as minhas histórias.)

sujos e medíocres,
à beira do abismo,
a vaiarem e a cuspirem em cima dos que saltaram,
dos que são tudo o que eles anseiam ser.

e vão para casa, onde limpam as lágrimas às mãos
que só contam lamentos.
(ao menos as minhas nada contam.
não têm histórias para contar.
nem lamentos.
as minhas mãos!, não limparam choros alegres ou tristes,
nem derramaram sangue por amor ou por ódio.
não foram levantadas a ninguém ou acariciadas por amores.
não têm nada a não ser dedos,
que escrevem histórias que não são passado nem futuro meu.)

todos reis da hipocrisia e da banalidade,
num trono de lama,
descalços e feios.

sábado, 5 de novembro de 2011

canto do altruísta

a que foi que me reduzi para vos ver tão altos?
será que todo o tempo em que vos vi crescer
eu fiquei igual?
ainda visto as mesmas roupas e calço os mesmos sapatos
que eram de quem me viu nascer.

mas acho que é meu o mal.

passei tempo a dar-vos cor
só para me ver a preto e branco.
esculpi-vos em ouro
para ser eu feito de lama
encostado a um canto.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

o amor é uma expressão feita para quem sonha/os vivos cumprimentam os mortos

o amor é uma expressão feita para quem sonha

o amor é uma expressão feita para quem sonha,
mas eu tenho vergonha de sonhar
e medo de dormir,
porque não quero acordar para o mundo.

(hei-de queimar com o gelo
por não saber ser dois.)

o frio é filho do inferno,
jaz no coração dos homens que não sentem
e no ventre das mulheres que os amam.

as crianças, com a mente em fogo,
olham os velhos livres de amor
e rodeados de paixão.
aprendem que as palavras são um jogo para a mente
um fantoche para o demagogo
e um tabu  para o que sente.

os vivos cumprimentam os mortos

os vivos cumprimentam os mortos,
saudosamente, de luto latente,
a relembrarem os tempos em que pediram um cigarro emprestado e nunca o devolveram.
apenas deitaram as beatas para o chão,
para onde olham agora com a escassez das memórias.

(paira no ar um cheiro a sal e pólen, das lágrimas e das flores.)

a pedra branca dos monumentos,
já suja de terra,
é limpa por choros e volta a dar cor aos póstumos,
 que são rostos, nomes ou números.
que já só permanecem na memória dos filhos que não nasceram
e do amigo que tantas vezes lhe acendeu o cigarro.