bestas
amores e dores
bestas,
são os meus amores e as minhas dores que não me deixam.
sempre a ser acossado diariamente pelo meu ódio às coisas
e pela minha paixão à emoção,
moldada num tabu.
quem me diz que o equilíbrio é bom se só na morte o terei?
enquanto vivo, deixam-me ser desequilibrado e ridículo.
bestas 2
bestas do governo
"senhor cínico, tem genuinidade à mostra!"
"ah, erro meu.
que terrível que era ter a confiança das gentes.
sentiam-se em segurança e com segurança não precisam de política!
agora reina a fragilidade.
ninguém confia nos democratas,
todos querem um líder, mas no meio de tanta cara de pau não se encontra um ponta de humano."
"somos todos bestas e felizes com isso."
"e temos tudo.
temos o mundo,
temos fatos que nos tapam as mentiras
e grandes barrigas que não nos deixam ver os nossos sapatos,
engraxados pelo rapaz da praça que tão ridículos achamos,
brilhantes e a realçar o escuro que vai dentro de nós.
o frio das nossas palavras quentes chega para congelar o inferno!"
"e eles não congelam nem nos põe termo!"
"vivem congelados em fogo."
"à espera que chegue o fim
para dizerem que triunfaram sobre os tiranos
sem sequer erguerem armas."
vida
pus as mãos no fogo
e ardi.
pus paixão em jogo
só porque sim.
o demagogo ditou a lei.
qu'eu me queimo
só porque sei
que não temo.
pus o pé na água
que é parte de mim.
só tenho fé na mágoa,
foi tudo o que vivi.
questionas o que faço,
só porque o faço.
o meu pensamento escasso
só reina no espaço.
pus a mente no ar
e nada mais senti.
restou-me pensar
e agora não nasci.
o pantomima fala
o dialecto da vida
mas a sua voz rebaixada
não diz nada, dorida.
pus-me debaixo da terra
porque nada tive
o céu não é para quem erra
nem para quem vive.
de juras erguidas em vão.
de curtas despedidas a quem me tirou o coração.
de heresias a deuses que não o são.
eu sou feito dos restos dos que virão.
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