domingo, 4 de dezembro de 2011

actualidade/sonhar/legião de nenhuns

actualidade

quem dera a mim saber o que eles sabiam
para estarem tão relaxados enquanto se riam
de nós a lutarmos.

somos filho de manias,
que por triste ironia,
tanto ridicularizamos.

e eles diziam-me:
"ou me fazes a cama
ou dormes no chão."
é uma sociedade de iguais
com uma infinidade de senãos.

o preço da vida
é negociável,
o intrínseco valor
é desagradável.
pago por tudo,
até por ser humano,
sou pobre por ter
que suportar tiranos.
será tudo tão racional
numa época de exageros?
a liderança nacional
é uma aglutinação de estafermos,
a discutirem com eufemismos,
a acharem-se querubins.
com inúmeros destinos
já sabemos o nosso fim.

mas eles ainda me dizem:

"ou me fazes a cama
ou dormes no chão."
a gente já sem chama
só espera a revolução.

sonhar

onde está a racionalidade da mente humana?
somos pensamentos repartidos por corpos repartidos pelo mundo repartido por nós,
que somos donos do nosso quintal e de pouco mais.
é por isto que concluo que
a vida é um auto de fé infindável,
com a transcendência como única espectadora:
somos ratos num labirinto,
bactérias num tubo de ensaio,
gente confinada aos limites da mente.
labutamos incessantemente,
como se fossemos a algum lado para lá disto.
só escapamos com sonhos
(e só sonhamos com amor,
e quando o temos nada mais queremos.)
que não retratam realidades.
só fugimos para voltar passado um tempo,
mais sonolentos e velhos que antes,
com mais rugas e com menos tempo.

mas sabe tão bem sonhar.

legião de nenhuns

sou doente,
o meu próprio paciente,
inconscientemente consciente
igualmente indiferente.
totalmente e inutilmente
dono da minha mente.
a confrontar constantemente
os meus males frente a frente.

futilmente fatigado
por enfrentar a canseira
constantemente abandonado
por uma vida de cegueira:
acordo todos os dias
para ver o mundo que não vê:
ninguém se apercebe
que somos crias de um erro.
se somos filhos de deus,
perdemos o gene divino.
somos os seus imortais réus,
o julgamento dos próprios filhos.
pensa ele que somos finitos
quando ninguém sabe como acaba.
só nos ocupamos com os nossos ritos
até para a morte mais macabra.

o fim não é sequer
reconhecido como final.
a transcendência da alma
suprime o real.
na morte somos perfeitos
deixamos o corpo para trás:
o que é corpóreo e defeito
é fraco e fugaz.

já somos todos reis
da nossa união,
impomos as nossas leis
e é tudo em vão.
é inevitável o desejo
de sermos um com nós mesmos,
mas somos preenchidos por dor,
até os mais serenos.
personalidade múltipla
não é desordem:
quem não cultiva loucura
não se chama homem.
se eu fosse só um
era só solidão,
mas sou uma legião de nenhuns
com uma só expressão.

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