não sei a quem dar mais mérito:
se ao homem ou a deus,
se a quem imaginou algo maior que ele
ou àquilo que criou algo com o pensamento maior que o seu.
será a ignorância o tributo humano a tudo o que é maior?
será a ciência o símbolo de decadência filosófica?
será a crise de valores humana devido ao ganho da consciência?
será travável uma consciência já arcaica e histórica
e mais velha que tudo na vida?
já deus era consciente antes de ser criado.
já as pedras das pirâmides existiam antes de serem sarcófagos.
já havia electricidade antes de tesla
já havia lâmpadas antes de edison
já havia relatividade antes de einstein
já havia radiação antes de curie
já havia mente antes de freud
já havia rock n' roll antes de elvis
já havia igualdade antes de marx
já havia revolução antes de abril
já houve massacres antes leopoldo II
já houve ressurreições antes de cristo
já não havia nada antes dos buracos negros.
já houve tudo antes das estrelas de neutrões.
nada se cria. nada se perde. tudo se transforma,
todo o mundo em metamorfose.
relato
ler um livro
sentir-me inculto por não perceber referências
comprar mais livros
não ler nenhum
usar um livro para balançar a cadeira que tem a perna manca
usar um livro para ensopar o que entornei no chão
usar um livro como pisa papéis para o pouco que escrevo
usar outro livro para balançar a cadeira porque o outro era muito grosso
trazer livros do sótão para os ler um dia
aperceber-me que não os hei-de ler tão cedo
virar-me para os filmes
ver um ou dois que me recomendaram por dia
sentir que não estou a atingir o meu potencial
ser triste e rejeitado por mim mesmo
ouvir música que me relaxe
ouvir música que me exalte
ouvir música que já não ouvia há séculos e sentir-me nostálgico
ouvir música que nunca tinha ouvido e sentir-me arrependido
aproveitar ao máximo os meus ouvidos enquanto os tenho
voltar ao quarto
voltar a ver os livros todos empilhados numa prateleira
"como será viver assim?
será que vale a pena viver sequer sem ter espaço?"
esquecer-me que há gente a viver assim
viver num quarto com dezasseis metros quadrados ou assim
sentir-me importante
sentir-me rico
sentir que tendo o que tenho sou um gota de gasolina no oceano
sentir que tenho amigos no meio disto tudo
saber que tudo é nada
viver para ter mais um bocado de nada
sentir-me intelectual por tirar tantas conclusões
pegar num livro
começar a ler
"parece interessante"
aborreço-me
deito-me
não ter que fazer
estar rodeado de tarefas e passatempos
pegar numa bola e atirar à parede
encher-me d'uma alegria infantil
simples
forte
cheia.
cheia de nada.