sábado, 28 de julho de 2012

ode a tudo, ódio a nada/relato

ode a tudo, ódio a nada

não sei a quem dar mais mérito:
se ao homem ou a deus,
se a quem imaginou algo maior que ele
ou àquilo que criou algo com o pensamento maior que o seu.


será a ignorância o tributo humano a tudo o que é maior?
será a ciência o símbolo de decadência filosófica?
será a crise de valores humana devido ao ganho da consciência?
será travável uma consciência já arcaica e histórica
e mais velha que tudo na vida?

já deus era consciente antes de ser criado.
já as pedras das pirâmides existiam antes de serem sarcófagos.
já havia electricidade antes de tesla
já havia lâmpadas antes de edison
já havia relatividade antes de einstein
já havia radiação antes de curie
já havia mente antes de freud
já havia rock n' roll antes de elvis
já havia igualdade antes de marx
já havia revolução antes de abril
já houve massacres antes leopoldo II
já houve ressurreições antes de cristo
já não havia nada antes dos buracos negros.
já houve tudo antes das estrelas de neutrões.

nada se cria. nada se perde. tudo se transforma,
todo o mundo em metamorfose.


relato

ler um livro
sentir-me inculto por não perceber referências
comprar mais livros
não ler nenhum
usar um livro para balançar a cadeira que tem a perna manca
usar um livro para ensopar o que entornei no chão
usar um livro como pisa papéis para o pouco que escrevo
usar outro livro para balançar a cadeira porque o outro era muito grosso
trazer livros do sótão para os ler um dia
aperceber-me que não os hei-de ler tão cedo
virar-me para os filmes
ver um ou dois que me recomendaram por dia
sentir que não estou a atingir o meu potencial
ser triste e rejeitado por mim mesmo
ouvir música que me relaxe
ouvir música que me exalte
ouvir música que já não ouvia há séculos e sentir-me nostálgico
ouvir música que nunca tinha ouvido e sentir-me arrependido
aproveitar ao máximo os meus ouvidos enquanto os tenho
voltar ao quarto
voltar a ver os livros todos empilhados numa prateleira
"como será viver assim?
será que vale a pena viver sequer sem ter espaço?"
esquecer-me que há gente a viver assim
viver num quarto com dezasseis metros quadrados ou assim
sentir-me importante
sentir-me rico
sentir que tendo o que tenho sou um gota de gasolina no oceano
sentir que tenho amigos no meio disto tudo
saber que tudo é nada
viver para ter mais um bocado de nada
sentir-me intelectual por tirar tantas conclusões
pegar num livro
começar a ler
"parece interessante"
aborreço-me
deito-me
não ter que fazer
estar rodeado de tarefas e passatempos
pegar numa bola e atirar à parede
encher-me d'uma alegria infantil
simples
forte
cheia.

cheia de nada.


segunda-feira, 2 de julho de 2012

hipocrisia (crise de valores)/jovens apenas

hipocrisia (crise de valores)

pesa-te a utopia do primeiro mundo nos ombros,
arqueias as costas, corcunda da capela clandestina de las vegas,
e dás-te ao luxo de reduzir tudo a escombros,
até a torre!, enquanto vês às voltas as cabras cegas
todas atrás deste mundo perfeito em que já vivem,
viva o capitalismo!, viva o che guevara que ironicamente
está estampado em todas camisolas. todos querem
criar polémica e criticar toda a gente!
"vamos usar um revolucionista comunista
em t-shirts baratas", não vejo melhor maneira
de honrar senhor marx que escreveu meia dúzia de papéis e é sócio da conquista
e dono de tanta cabeça que para não ser como a próxima pegou na primeira
teoria que viu que ninguém gostava e adoptou,
viva a controversia, viva o conformismo que todos seguem religiosamente,
a política já faz parte do mundo da moda, sei lá o que sou
ou se estou nos gostos de toda a gente!
ou sou vermelho ou azul ou verde ou roxo ou anil ou #E0FFFF,
tanta merda que para aqui há, já estou cheio, mais que cheio,
a transbordar por todo o lado de cores, sou uma mescla,
uma palete bem elaborada de todas as sensações do seio do mundo,
quem serei eu?, quem serás tu, que apesar de apenas ligeiramente diferente
eu insisto em colocar a seguir a mim, porque o egoísmo é tão meu companheiro!.
tenho tanto o meu ego em conta que pouco sou consciente...
e no fim de contas se calhar é isso que sou, o inconsciente derradeiro,
o símbolo mundial do homem, o gajo vitruviano,
perfeito e simétrico em todos os sentidos, como ninguém o é!
e ícone representante de toda o ser humano,
que ridículos que conseguimos ser!,
todos atrás de alguém que aprendeu a ler mapas com quem já estava perdido,
pelo deserto a dentro, à procura de uma miragem, que já era melhor que nada!,
a sermos constantemente (e orgulhosamente) vencidos
e face ao menor triunfo a paixão da vitória revela-se e esfregamos os derrotados na merda mal-fadada
que é a derrota, a nossa vida querida e apaixonante e submissiva
para uns manipansos que todos criticam mas ninguém opõe!,
onde andas tu, meu caríssimo shiva?
onde residem as tuas destruições e reconstruções?
é que nós somos nada mais que mestres da hipocrisia,
e todos nós no topo da hierarquia!
a rondar os póstumos corpos
que nem abutres para ficar com os destroços.

todos nós demagogos, a agradar os outros para nos agradarmos a nós!

jovens apenas

erguemos do fundo.
nunca fomos senão poeira.
energia condensada, como dizem os físicos.
somos a mais, como diriam os mais críticos.
somos a subida, a beira do precipício e toda a queda,
o colosso e o escravo que o ergueu,
o boémio e o filisteu,
a estátua da liberdade e o muro de berlim,
para os livres e para os oprimidos!,
o convento de mafra e o taj mahal,
para a vida e para a morte!,
as favelas do brazil e petra da jordânia,
erguidos do nada e feitos da montanha!,
o cristo rei e o templo de diana,
ao único deus e a um dos muitos!,
somos tudo! somos todos os tudos que alguma vez foram concebidos!
adão e eva e o pré-câmbrico!
somos as casas que erguemos nas asas dos abutres,
rumo ao fim, à nossa necrofagia.
onde vamos pertencer ao resto do mundo,
finalmente!, depois da opressão de mentes mais velhas
a juventude fará finalmente parte do globo,
dos vermes, dos artrópodes, dos macrófagos, dos detritívoros, dos saprófagos!
venham eles, vamos pertencer à ralé da natureza, à escumalha!
a nossa opinião vai ser digerida por quem é menos que nós
e só aí seremos úteis para algo.
seremos creditados de opiniões incoerentes se fugirmos à maioria
e daqui a uns anos seremos os srs. conformistas, o membro nº 7 mil milhões e tal do rebanho.
mas chega de críticas, afinal quem somos nós?
somos os senhores da inconsistência,
somos 20 disposições diferentes para 20 pessoas iguais,
somos velhos demais para sermos crianças,
somos novos demais para sermos adultos,
somos gigantes cheios de energia, no nosso auge físico e intelectual,
e no entanto, quem somos nós?
somos jovens apenas, meus senhores,
jovens apenas.