terça-feira, 18 de outubro de 2011

prosa da paixão

já não há inverno. é uma lenda. agora é só sensações - muitas sensações - desnecessárias. muitos cheiros, muitas cores, muita luz, muitos dissabores, muito tudo, e tudo me atrofia os sentidos. caminho pela rua que vai dar a uma escola onde já andei em tempos. para fugir ao normal, caminho num pedaço de terra, ao lado do passeio, que está à beira de um campo, e mais à frente de uma mata, a ver se encontro um relógio, uma moeda, uma nota de 5 euros, um brinco, um sei lá eu o quê, que sei lá eu quem perdeu. mas nada disso. quanto muito, um ou dois preservativos usados, de algum casal, de alguma paixão de mata. de alguns ou muitos momentos passados, em plena natureza, no íntimo um do outro, a viver o espírito de adolescente delinquente ou de adulto sem juízo.
talvez, quem sabe, foi fruto de algum adultério, de alguma traição, de alguma tragédia familiar. que novelesco, que romanesco! que digno de algum programa de sábado à tarde, que leva as velhas (e novas) cochicheiras a conversas que não acabam sobre o que está mal com a sociedade.
talvez, quem sabe, foi simplesmente fruto de uma noite de prazer carnal, sem roupa mas com a mente vestida e agasalhada, sem partilharem o que torna o ser humano racional.
talvez se arrependam um dia disto. e vão culpar o álcool, o calor do momento, as hormonas agitadas. e vão lamentar o que quer que tenham perdido nessa noite - quer seja virgindade, pureza ou dignidade - para o resto dos tempos.
talvez se orgulhem disto. e vão glorificar esta conquista, ou arquivá-la, junto de todas as outras, num livro preto ou numa mente negra, que não conhece amor.

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