domingo, 25 de setembro de 2011

cartas em tempo de guerra/bons tempos

cartas em tempo de guerra

de: ele
para: ela

querida ela,

cheguei são e salvo a esta terra maldita
ou talvez não seja assim tão má.
realmente tem um cenário degradado,
a paisagem, ardida e bombeada,
os sonhos de famílias, apagados e esborratados
numa tela já toda pintada,
de negro e tristeza.
espero que isto te chegue,

do para sempre teu,
ele


de: ela
para: ele

querido ele,

a tua carta chegou-me meu amor,
apesar de riscada pela censura.
não sei como são os cenários...
nem as paisagens... 
nem os sonhos de ninguém,
já nem os meus os sei,
agora que partiste.
espero que voltes, ver-te-ei chegar da minha janela

da para sempre tua,
ela


de: ele
para: ela

querida ela,

terei mais cuidado no que digo e no que faço.
nunca pensei ter tanta vontade de não pensar,
esta guerra traz-me tantas dúvidas.
estará tanto mal contra a nossa pátria
neste sítio apenas?
será necessário fazermos chover mísseis
e cuspirmos vinte mil balas por segundo
sem qualquer repreensão?
somos assim tão donos do mundo,
que nos esquecemos que todos somos uma nação?
soe isto lamechas ou não,
é tudo o que eu sinto,
e te garanto que não minto.
responde-me mais uma vez,
espero que o meu amor por ti nunca gele.

do para sempre teu,
ele


de: ela
para: ele

querido ele,

a censura comeu-te muitas das palavras,
mas não interessa.
a distância já é demais para mim,
o tempo sem um homem já de mais para mim,
a falta do que nós éramos já é de mais para mim.
encontrei outro homem, não vale a pena escreveres mais.
não posso dizer que não te amo, porque a chama ainda é intensa,
mas já não suporto ouvir mais os teus ais.
a saudade de calor era imensa.
e qualquer crença que eu tinha em amor já se foi.
agora qualquer momento de emoção,
noites de paixão, são o que me alegram o dia.
o meu cheiro agora já está noutra lapela,

da nunca mais tua,
ela


de: ele
para: ela

querida ela,

marcaste-me como nenhuma mulher me marcou.
pensava que o sentimento era mútuo,
que eras uma mulher com classe e cabeça.
mas afinal, como muitas outras não passas de uma puta.
meretriz, rameira, flausina, mulher de infame ofício.
o que é de certo modo uma ofensa a quem vende prazer,
porque tu o dás, de graça, como se fosses uma amostra.
e costumavas ser tão querida...
tão inocente, nada indecente...
não sei que foi que te plantaram na mente,
para te fazeres tão cabra.
que força macabra fez isto à única mulher que amei.
e perdi-a. perdi-te a ti.
e fica triste por saber que ainda me amas,
mas que não fizeste o esforço de te manteres a meu lado.
e se por mim que me amas, não tentas sequer,
quantas mais relações vais espezinhar para obteres o que queres?

ouço do longe os aviões a chegar,
um ataque é iminente, não tenho muito tempo.
se eu morrer agora, o amor ainda não se foi,
mas odeio-te intensamente.
não sou homem de maldições, 
mas que a minha morte toda a tua paixão sele!

da morte para sempre tua,
d'ele.


bons tempos

saio pela porta.
tudo igual, tudo se mantém, tudo indiferente a tudo o resto,
a coexistirem em perfeita harmonia.
excepto uma coisa:
um pássaro morto.
que era o pior que me acontecia há muito tempo.
também era o melhor.
o que é algo triste.
antes escrevia sobre amor.
ou dor.
que são palavras tão usadas que já me causam uma certa impressão de ver (e escrever).

mas escrevia também sobre força e fraqueza,
sobre o mais nobre dos homens e sobre o mais reles da pobreza.
sobre o quão a vida me pesava nos ombros e me obrigava a rastejar
e sobre o quão a vida me elevava de escombros e me atirava ao ar.
sobre a partida de todos aqueles com quem partilhei memórias e amei
e sobre a chegada de todos aqueles que me roubaram histórias e odiei.
sobre outros poemas que li e canções que ouvi que me deram inspiração para escrever
e sobre algo que nunca soube bem o que era, que sou eu mesmo, que está lentamente a desaparecer...


mas agora...
escrevo sobre o que costumava escrever.

e sobre um pássaro morto.



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