quarta-feira, 29 de agosto de 2012

torre de babel, histórias

empilha tijolos de barro, faz uma torre e de lá de cima
vê os outros lutarem como se fossem ratos,
atira mais um pedaço de queijo, atira um para cada um
e a luta assim segue para que um fique com todos.

já chega de diversão.

põe ratoeiras por tudo o que tens.
dispõe de meios para controlar os roedores.
apercebe-te que são inúteis,
ergue-te e despede-te deles para correres atrás deles por serem a única coisa que ainda te restava.

eles não voltam.

abandona tudo, embala criancinhas no teu colo,
sussurra-lhes que tinhas tudo.
apercebe-te que não tens consolo,
só um sonho mudo
que deixou de dar música há séculos.

cai água do tecto.

está tudo em ruínas, tens a torre mais humana de todas:
a desfazer-se, sem pilares nem fundações.
concentra-te mais um bocado no pingar e ouve as
criancinhas que afinal não tens a chorar,
são alucinações que passaram,
histórias de infância que criaste, porque a tua infância não foi traumática,
foi apenas.

já nada resta.

quem tem o que tu tinhas?
quem te tirou o teu confortável nada e te deu uma torre de babel?,
com um quarto no topo e lances de escadas que simbolizam cada um
todos os anos que passaste a ser fel e mais fel
e merda e mais merda.

soa mal dizer asneiras.

soa mal contares histórias de quem eras.
são deprimentes e maçadoras,
é como ouvir falar um gato do seu tempo de fera
e olha só as horas!,
já é tempo de partir,
contas os teus contos noutra altura,
deixei a a cama por fazer e os miúdos estão para vir,
sabes como é ou então não,
o que interessa é que nós nos havemos de ver por aí.

vejo-te de novo e olho para baixo para evitar histórias desinteressantes.

assobio, já que é um clássico cinematográfico de "não, não estou aqui."
e lá vão as notas, embaladas.
passam por ti e queres lá tua saber, tens mais que fazer!,
tens que recordar as histórias inventadas.

uma por uma, elas vêm, tu vê-las e apagam-se como velas.

são coisas.
são histórias.


domingo, 26 de agosto de 2012

soldado desconhecido

dá-se a alvorada, prepara-se o pelotão para partir,
somos mais que 30 filhos da mãe a levantar o acampamento
é na terra do sol nascente, é o maior dia da minha vida
e se esperam a história de um herói vos desiludo e lamento.

éramos todos sem sustento nem alento nem rumo.
tínhamos nada mais que um ponto de  chegada
passam árvores e passa tudo e ao longe vemos fumo.
"é ali" grita o capitão, "é tudo ou não é nada!"

de granada em mão vamos forte em direção aos cabrões
voam 61 milímetros de metal e fogo grego e eis a revolta:
nada perto da fogueira, nada mais que vestígios das explosões
grita o homem do comando "vem aí a reviravolta!"

flanquearam-nos desprevenidos e só os vejo a vir.
eu no meio pego na arma e atiro a quem não for dos meus
vejo um dos meus camaradas a arrastar-se e a cair,
cai-lhe a chapa do pescoço, que será feito dos seus?

"pelotão 24" ainda me lembro, "esteves, o soldado".
fez o treino comigo e agora só o vejo do outro lado,
tudo às mãos destes terroristas ou lutadores da liberdade,
conforme o lado onde está o financiador da guerra sentado.

rápido se foram, éramos mais e mais fortes,
deles caíram 20, dos nossos caíram nove.

ergam estátuas, esqueçam nomes, eles foram para nós sermos
cantem por eles que eles foram fortes pelo povo menino
e quando quiserem saber porque não vivemos em ermos,
olhem para a estátua do soldado desconhecido.

domingo, 19 de agosto de 2012

portugal

dos montes hermínios às planícies além do tejo eu te vejo,
com todos os teus relevos e contornos, a erguer a bandeira.
por além, pelas ilhas e continente, d'onde sempre britou desejo
de ser mais, grita ainda contente a tua nação solteira.

por mares d'antes nunca navegados fizeste travessia
e defrontaste deuses e mouros, monstros e tormentas,
apenas para te ergueres no final como qualquer povo merecia,
se tivesse passado pelo que tu passaste, com a glória que alentas.

fomentaste fome por mais e a tua gente só te seguiu e te auxiliou,
mal fez quem nunca olhou o céu e soube que o reflexo foi dos nossos avós.
de lingote em mão e pena na outra soubeste sempre valer teu ouro
que nunca fizeste por ter sem merecer e dedicas ainda a nós.

com quantas adversidades te defrontaste, por tragédias gregas passaste
mas nunca ficaste pior que os seguidores de zeus, pois tens luta  nas veias
e quantas tramas enfrentaste, embustes que descartaste, vindos de todas as castas
e raças, sei e sabe todo o meu ser e todos os teus que ardem que nem mil candeias.

venha os mares mais brutos, os rugidos mais altos, as ondas com pior fama
que nós seremos ainda mais rudes, falaremos para a lua e navegaremos nos céus!,
porque só é grande a sombra de quem se atira para a frente da chama,
só é opulento o legado de quem se arrisca ao destino oculto por um véu.

e sigamos o astrolábio, por este rio acima e façam-se trocas com deus,
que quanto maior a tua fortuna maior será a sua honra em terras tuas,
porque se a fé cega fosse força não se ouviria falar em atlas, apenas filhos teus,
a levarem o mundo cego, como se fosse já velho, pelas tuas ilustres ruas.

e quantas travessias por lá foram feitas, quantas rezas pudeste testemunhar,
quanto crime por lá viste, de quantos heróis foste pai, só tu sabes,
só tu quiseste apadrinhar uma nação que começou com o filho a reclamar
à mãe o que era dele, e a partir daí se gerou e fez forte e fizeste o que melhor fazes:

ergueste-te pátria de vencedores
sociedades de escritores
e colectiva de fundadores,
todos por ti, luso poder,
todos por ti, luso erguer.


sábado, 11 de agosto de 2012

a travessia pelo deserto

um calor sórdido e tórrido preenche quase todo o espaço que tenho para pensar deixando apenas uma vontade louca de mijar.
caminho mais um pouco, mijo na areia e como é muita a falta de água é quase opaco e pesa mais que as minhas pernas,
espancando o chão,
furando a areia pouco e esgotando toda e qualquer água que eu ainda tenho no corpo.
caminho mais um pouco, vejo um arbusto onde tento descansar um pouco e não virar louco, não, por enquanto não serei maluco,
ainda tenho tanta sanidade e insanidade positiva que não posso deixar que isto aconteça.
descanso um pouco e começo a delirar:
é tudo de bom a dançar à minha frente e atirarem-me calhaus para a frente, a fazer um muro que tantas vezes construí.
danço com eles um pouco e o cansaço começa a desaparecer, faço jus à minha demência e atiro-me para o chão e rezo como nunca rezei,
a todos os deuses, aumentando assim os casos favoráveis, aumentando a probabilidade, aumentando a minha chance de salvamento, aumentando o tempo que passo sem me preocupar com a minha morte iminente.
rebolo um pouco e levanto-me de uma só vez, erguendo-me finalmente.
olho à volta e tudo de bom se foi, ficou só areia e dunas e calor e ar a tremer e dilatado.
caminho mais um pouco e vejo água, tento mergulhar e resulta apenas numa espécie de tentativa de auto-enterro precoce.
magoo as costas um pouco e levanto-me.
caminho mais um pouco e começo já a esquecer os meus problemas e relembrar soluções a outros problemas que agora não me interessam e que vou esquecer se e quando sair daqui.
arrasto-me um pouco, finalmente dou uso aos braços já que as pernas me parecem inúteis e o são a esta hora.
arrasto-me mais um pouco para dar por mim de braços cansados e deixar-me quase para morrer.
tenho a cara enterrada na areia e o corpo inteiramente desidratado.
vêm-me umas segundas forças e levanto-me.
caminho mais um pouco, levanto os pés, marcho em direção ao que penso ser a saída, finalmente percebo como se sentem quem não tem rumo na vida.
finalmente percebo como me sinto, finalmente uma metáfora torna-se tão ridiculamente real que nem opções para rumo tenho.
verifico se há placas no deserto. verifico que já não penso concretamente em coisas que valham a pena. verifico que para qualquer teoria política resultar toda a gente tem de pensar igual. verifico que uma abismal maioria não pensa e que torna quase tudo impossível.
caio no chão. levanto-me. caio no chão. levanto-me. finalmente percebo aquela música brasileira que toda a gente cantava.
caminho mais um pouco e vejo um abutre ao longe.
deve ter água, ninguém vive sem água. tal como ninguém vive sem internet. se calhar têm disso. ou então não, não há postes com cabos por aqui.
aproximo-me mais um pouco e vejo que ele pousou ao pé de um animal tombado. não tenho ideia do que é, por isso pergunto-lhe.
não me responde. se calhar as boas maneiras não chegam a estas paragens.
um pouco mais à frente vejo um oásis. e que belo oásis, tudo muito digno de reclames. água, uns arbustos, umas palmeiras, uma gaja a tomar banho, afinal não, era um monte de calhaus, mas não me podem acusar de ter pouca imaginação.
vou logo a correr, desta vez não mergulho porque gato escaldado de água fria tem medo, apesar de os gatos já não serem muito fãs de água, só se lambem os porcos.
acelero o passo e molho o pé.
molhado.
finalmente.
mergulho a cabeça e bebo e bebo mais e bebo ainda mais e paro lá um pouco por baixo da palmeira.
olho para o céu. está a começar a escurecer. vai esfriar. o calor vai ser frio. se calhar não devia ter atirado metade das roupas para o chão há umas horas.
só me arrependo das coisas depois de as fazer. se me arrepende-se antes dava mais jeito. devia começar a fazer isso. viver sem erros.
se calhar não seria assim tão bom, tinha menos histórias para contar.
"então como é que foi a tua vida, alguma história gira?"
não, sem erros nem nada que se pareça.
tudo muito aborrecido.
vou dormir enquanto posso, enquanto a temperatura é amena.
boa noite. amanhã é dia novo. amanhã dia novo é. é amanhã dia novo.
tudo rigorosamente igual, só se altera o ser.


quinta-feira, 2 de agosto de 2012

a lagarta da reencarnação mental e a rapariga na maçã

a lagarta e a rapariga especam-se.
as duas olham e são olhadas
enquanto ambas vivem numa peça de fruta
que bem podia ser uma peça de nada.

uma pequena e redonda maçã,
reluzente como numa pintura,
envernizada e toda esburacada pelos inquilinos
que não encontrando a porta, se deixam levar pela loucura
e fazem uma artesanal e muitas mais pois ser um
já não é levado a bem neste mundo.

fala a lagarta:

"sabes, fui já dragão e arrastado
por todo o universo, nunca soube o que perdi
por ser tudo em todo o lado e fui enfadado,
realmente aborrecido sem saber o que vi
nem a ligar ao tempo que passou e que se criou na minha ausência do mundo,
fui anéis de saturno, e luas de júpiter, gelo em plutão e no fundo do sol fui ferro e níquel teoricamente,
fui um número na cintura de asteróides e os pilares da criação que já não são,
andrómeda, grupo local, via láctea, verdadeiros espetáculos de luz e panóplias de estrelas,
fui modas, fodas, rodas, codas, bodas de amor e todas elas por momentos apenas.
fui as penas numa ave,
vai chave numa porta,
a aorta de um sistema circulatório,
oratório de uma igreja,
a inveja de alguém melhor,
o pior de quem quer que seja."

a rapariga acena e sorri.
volta a especar e a ser olhada.
por um pouco pensou em falar
mas rápido lhe passou, controlada
como era
e como sempre foi.

a lagarta fala:

"sabes, fui micróbio, e levado pelo vento,
algo mais pequeno que tudo o que viste
e no entanto eu e os meus irmãos cobrimos todo o mundo.
falámos uns pelos outros, em uníssono, sobre tudo o que existe
e contaram-me histórias... ó, as histórias!
david e golias em confronto e o triunfo do pequeno sobre o gigante!
pena que agora o campo onde lutam os colossos contra o homem
não tenha pedras nem o homem fisgas, mas amarram-se os elefantes
com as poucas cordas que ainda se têm, apesar de não ser muito
sempre é o necessário, dizem que as pessoas se vão aguentando ainda assim.
e quantos contos me contaram, coisas dignas de serem cantadas,
coisas sobre aquiles e o seu calcanhar, sobre explorar fraquezas e afins.
mas quase não me recordo de tudo o que aprendi quando era pequeno, sempre soube bem aprender coisas,
agora recordar é que é não vai nada bem...
mas agora sou lagarta, sou forte, como maçã e bebo água,
sou o sonho molhado de um nutricionista, creio eu que tudo o que da terra vem
faz bem ao corpo e à mente e a minha mente já viajou muito,
tem muito que se nutrir, já pensei em ser lagarta de livros mas dizem que essas não vivem muito bem,
comer coisas artificais não faz bem a ninguém...
e tu de onde vens?
por que nome te tomas?"

a rapariga fala:

"venho de algures porque toda a gente vem e tenho um nome como toda a gente tem,
como é normal. o governo tirou-me a casa e tenho de habitar em algum lado,
como a maçã tem uma boa relação de qualidade/preço/estética/saúde pensei ser a melhor escolha.
e assim foi. sou uma rapariga bem educada, com maneiras à maneira e espero que venha o meu soldado,
de chumbo não que faz mal, de borracha também não que no calor do momento derrete,
talvez de carne e osso como eu, sempre tínhamos algo em comum que é o que se quer nas relações.
e também não podia ter uma pistola com baioneta, quero educar filhos com um homem que se compromete
e não use facas, isso faz um mal desgraçado à saúde e a maçã que o saiba, que lhe tira a pele e lhe corta a carne
por capricho ou necessidade de outro alguém, mesmo sem ela fazer mal a ninguém."

a lagarta olha, sai da maçã,
tira um cigarro, acende o isqueiro,
deita fora o cigarro, fuma o isqueiro,
acende-se a si mesma e mete dó à rapariga
que só queria uma amiga.

a rapariga pega na carta de suicídio, que lê:

"ser lagarta e viver com uma rapariga é aborrecido, rápido me enfado. vou encarnar outra vez e pode ser que nos vejamos por aí."

a rapariga sai ao mundo, livra-se da proteção, encontra o soldado que é feito do mesmo que ela e vive feliz,
sem ninguém a incomodar.
quem sabe se encontra a lagarta mais tarde para ir tomar um café ou um brunch ou coisa mais moderna.
quem sabe o que vem aí ao virar da esquina.