a vida fala-me em enigmas (o estigma do raciocínio).
se matam por amor e por ódio,
porque não matam por apatia?
choram por alegria e por tristeza,
mas nunca p'la existência do nada.
será assim tão deplorável
condenar o nada e adorar a falta de tudo?
podem ter morto,
mas nunca em vão!
envoltos na própria razão
e na loucura do solipsismo.
a fumarem o seu cigarro
(um devaneio de delinquência juvenil,
a viverem a vida boémia,
a serem todos os dias a metáfora ideal para o excesso,
mas mais mundanos que todos nós.)
trancados em casa, com o desespero.
já ninguém sonha...
(os meus sonhos contam épicos
que esqueço quando acordo.
lá, sou um rei pobre e um vagabundo rico.
nas minhas mãos são escritas histórias
e os meus olhos dizem por onde andei.
mas quando acordo sou, apenas.
não há contos nem epopeias,
vivo no limiar do intermédio.
conto eu as minhas histórias.)
sujos e medíocres,
à beira do abismo,
a vaiarem e a cuspirem em cima dos que saltaram,
dos que são tudo o que eles anseiam ser.
e vão para casa, onde limpam as lágrimas às mãos
que só contam lamentos.
(ao menos as minhas nada contam.
não têm histórias para contar.
nem lamentos.
as minhas mãos!, não limparam choros alegres ou tristes,
nem derramaram sangue por amor ou por ódio.
não foram levantadas a ninguém ou acariciadas por amores.
não têm nada a não ser dedos,
que escrevem histórias que não são passado nem futuro meu.)
todos reis da hipocrisia e da banalidade,
num trono de lama,
descalços e feios.
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