um ode ao som
um ode ao som. vou escrever um ode ao som. não vai ser um ode à beleza das teclas do piano, ao contraste do preto com o branco nem ao som quase harmónico que emana. não vai ser um ode ao violino, à delicadeza do braço, à simplicidade do arco e pêlo de cavalo nem ao brilho do verniz. não vai ser um ode à alegria, à tristeza, ao para sempre, ao nunca, a toda a gente nem a ninguém. vai ser um ode ao som. porque a música tem perfeições e imperfeições. ao som ninguém lhe sabe dizer as imperfeições. ninguém lhe sabe dizer se é bonito ou feio. também, se fosse bonito chamavam-lhe música, se fosse feio chamavam-lhe ruído que é bonito aos olhos de mentes transcendentes. desenvolver um culto ao som, seja ele um grito, um choro ao nascer, um silêncio após a pulsação ou o tombo de um morto. adorar o que nunca teve direito a altar, sempre abandonado, deixado para morrer num vale, no rugir do mar, na agonia de um rejeitado, fechado, silenciado mas a ecoar com as lágrimas que caem no chão.
as câmaras nas nuvens
as câmaras nas nuvens,
onde adoram a amplificação
desfazem-se com a chuva
e esculpem o meu caixão.
numa árvore, numa alucinação
induzida p'lo crescimento do barulho.
num barco que flutua p'la interrogação
do que causa nela este marulho.
nada mais que branco, e pedras pesadas
que arrasto comigo, de bengala em punho
até ao vale da morte, que é uma assombração sonhada
que ecoa na minha mente que é só um rascunho,
com uns rabiscos que não são nada nem podem aspirar a ser nada
e um fantasma que diz ser o meu único testemunho
em como estive mesmo aqui, a vaguear por terras afundadas
nos meus olhos fechados e soturnos.
e agradeço a minha dor ao ruído
que já é mais velho que o tempo.
ainda não era deus nascido
e já o ruído tinha um templo.
um monólito que rasgou o chão
e se afirmou, no meio do fumo
como supremo senhor dos que são
senhores de tudo e de todos os túmulos,
que controlam a morte na palma da mão,
como se ela já fosse desprovida de rumo.
controlam fantoches da sua prisão,
sem decência nem prumo.
só temos de dar graças a um senhor por isto:
ao nosso amigo barulho.
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