ela (2)
outono, ouro a cobrir as árvores e ela não aparece. ainda me lembro do dia em que a perdi... frio, céu coberto de nuvens, em pleno agosto... nem uma risca de sol se via. um escuro tremendo cobria toda a cidade. as pessoas, aos encontrões, com cachecóis pesados e casacos compridos não se falavam. a olharem para a frente ou para o chão, sem cruzarem olhares nem palavras nem almas. nenhum deles pertencia a ninguém, mas tinham alguém para quem voltar e não sabiam o quão bom era. ela, de mão dada a mim sorriu-me pela última vez nesse dia e éramos os únicos que eram só um no meio de todos.
ainda me lembro.
viu uma cara que reconheceu, perseguiu-a e pouco mais me lembro. desapareceu. passaram dias. semanas. meses. nada. continuo sem ninguém em casa para quando volto. continuo sem ninguém que chore por mim quando for. continuo, sem ninguém na multidão, para sermos um. agora sou uma alma, sem trocar sorrisos, nem olhares com ninguém. a comer numa mesa pequena, encostada a uma parede na cozinha, com uma cadeira do outro lado, à espera dela. pratos acumulam-se durante vários dias para chegar um dia em que os parto por acidente, por raiva ou por solidão. ouço, deitado num sofá que tenho desde que me lembro, os carros a passarem, as pessoas a caminhar, aos encontrões, com rumo próprio, sem rumo comum. todas diferentes, todas elas almas.
...
nunca fui um gajo muito dado a pequenos amores
e todos os grandes que tive cabiam-me na palma da mão.
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