quantas vezes fechei os olhos de noite
só para os abrir de manhã e ser dia?
(e nada mudar.
mantém-se a mesma monotonia...
podia ter frio.
ou calor.
mas o frio é algo que eu crio,
para criar algum furor.
e o calor...
há quanto tempo não o sinto,
porque sou só eu,
egoísta e navegante
p'los meus mares,
à procura de sei lá eu o quê...)
será que existi?
o tempo andou sem mim.
(e eu sem ele, que o tempo só é bom quando se é velho e se tem tempo para o aproveitar)
andaram todos vocês sem mim.
(e eu continuei a navegar, p'los meus mares...)
nesses tristes momentos
(que são muito mais que momentos)
que passei tão só e capitão da minha nau,
livre de qualquer pensamento
(e se calhar até pensei e não o sei).
mas agora estou em casa,
no meu nada, tão aconchegado
num quarto que sou eu...
num quarto branco, na ausência das cores.
num quarto branco, rodeado de luz.
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
senhoras da biblioteca/pessoa
senhoras da biblioteca
"passas, mas só desta vez!"
dizem elas num tom pomposo,
senhoras de si mesmo
e donas de todos nós (ou pelo menos agem como tal).
a decidir que liberdades cabem a quem,
quando a ninguém deviam caber,
a escrutinar a paciência, a exigir silêncio
quando as próprias bocas parecem não conhecer
tal suplício, que mesmo por momentos, é um castigo extenso.
ao menos eram justas, e praticavam o que pregam!
mas a hipocrisia já as tomou por garantidas
e elas nada fazem, estão tão bem com o mal que não contrariam.
mas quem me dera a mim,
após dar entrada na terra do demo
(que quer haja, quer não haja, é para onde vou)
e ao aproximar-me das portas do meu mundo que alguém fez,
dizerem-me num tom pomposo
"passas, mas só desta vez!"
pessoa
oculto.
escondido em Campos que reflectem a tua angústia,
a tua revolta com a vida que deitaste para o chão
mas isso é outra história,
que o teu outro eu escreveu,
num poema de 4 páginas, que vai para lá do que é
ou o do que podia ser.
e no entanto, é tão palpável como tudo.
que tantas vezes chamaste de nada.
e foste também pastor,
um homem da natureza
que é tão inconstante e abstracta
como o que tu és.
ou eras.
agora és concreto, varrido de mente e d'alma.
nada mais que poeira e ossos
se é que ainda duram
como o que escreveste dura.
e foste também pessoa na rua dos Douradores
onde foste alma e aclamavas o que pensavas
e da tua falta de calma surgiram textos
todos eles no mesmo contexto,
sem nada em comum,
que contam a história do teu pensamento
que só por si é um elemento baseado em memórias
que foram contigo e com o tempo,
para lá da metafísica.
"passas, mas só desta vez!"
dizem elas num tom pomposo,
senhoras de si mesmo
e donas de todos nós (ou pelo menos agem como tal).
a decidir que liberdades cabem a quem,
quando a ninguém deviam caber,
a escrutinar a paciência, a exigir silêncio
quando as próprias bocas parecem não conhecer
tal suplício, que mesmo por momentos, é um castigo extenso.
ao menos eram justas, e praticavam o que pregam!
mas a hipocrisia já as tomou por garantidas
e elas nada fazem, estão tão bem com o mal que não contrariam.
mas quem me dera a mim,
após dar entrada na terra do demo
(que quer haja, quer não haja, é para onde vou)
e ao aproximar-me das portas do meu mundo que alguém fez,
dizerem-me num tom pomposo
"passas, mas só desta vez!"
pessoa
oculto.
escondido em Campos que reflectem a tua angústia,
a tua revolta com a vida que deitaste para o chão
mas isso é outra história,
que o teu outro eu escreveu,
num poema de 4 páginas, que vai para lá do que é
ou o do que podia ser.
e no entanto, é tão palpável como tudo.
que tantas vezes chamaste de nada.
e foste também pastor,
um homem da natureza
que é tão inconstante e abstracta
como o que tu és.
ou eras.
agora és concreto, varrido de mente e d'alma.
nada mais que poeira e ossos
se é que ainda duram
como o que escreveste dura.
e foste também pessoa na rua dos Douradores
onde foste alma e aclamavas o que pensavas
e da tua falta de calma surgiram textos
todos eles no mesmo contexto,
sem nada em comum,
que contam a história do teu pensamento
que só por si é um elemento baseado em memórias
que foram contigo e com o tempo,
para lá da metafísica.
domingo, 25 de setembro de 2011
cartas em tempo de guerra/bons tempos
cartas em tempo de guerra
de: ele
para: ela
querida ela,
cheguei são e salvo a esta terra maldita
ou talvez não seja assim tão má.
realmente tem um cenário degradado,
a paisagem, ardida e bombeada,
os sonhos de famílias, apagados e esborratados
numa tela já toda pintada,
de negro e tristeza.
espero que isto te chegue,
esta guerra traz-me tantas dúvidas.
estará tanto mal contra a nossa pátria
neste sítio apenas?
será necessário fazermos chover mísseis
e cuspirmos vinte mil balas por segundo
sem qualquer repreensão?
somos assim tão donos do mundo,
que nos esquecemos que todos somos uma nação?
soe isto lamechas ou não,
é tudo o que eu sinto,
e te garanto que não minto.
responde-me mais uma vez,
espero que o meu amor por ti nunca gele.
mas agora...
escrevo sobre o que costumava escrever.
de: ele
para: ela
querida ela,
cheguei são e salvo a esta terra maldita
ou talvez não seja assim tão má.
realmente tem um cenário degradado,
a paisagem, ardida e bombeada,
os sonhos de famílias, apagados e esborratados
numa tela já toda pintada,
de negro e tristeza.
espero que isto te chegue,
do para sempre teu,
ele
de: ela
para: ele
querido ele,
a tua carta chegou-me meu amor,
apesar de riscada pela censura.
não sei como são os cenários...
nem as paisagens...
nem os sonhos de ninguém,
já nem os meus os sei,
agora que partiste.
espero que voltes, ver-te-ei chegar da minha janela
da para sempre tua,
ela
de: ele
para: ela
querida ela,
terei mais cuidado no que digo e no que faço.
nunca pensei ter tanta vontade de não pensar,esta guerra traz-me tantas dúvidas.
estará tanto mal contra a nossa pátria
neste sítio apenas?
será necessário fazermos chover mísseis
e cuspirmos vinte mil balas por segundo
sem qualquer repreensão?
somos assim tão donos do mundo,
que nos esquecemos que todos somos uma nação?
soe isto lamechas ou não,
é tudo o que eu sinto,
e te garanto que não minto.
responde-me mais uma vez,
espero que o meu amor por ti nunca gele.
do para sempre teu,
ele
de: ela
para: ele
querido ele,
a censura comeu-te muitas das palavras,
mas não interessa.
a distância já é demais para mim,
o tempo sem um homem já de mais para mim,
a falta do que nós éramos já é de mais para mim.
encontrei outro homem, não vale a pena escreveres mais.
não posso dizer que não te amo, porque a chama ainda é intensa,
mas já não suporto ouvir mais os teus ais.
a saudade de calor era imensa.
e qualquer crença que eu tinha em amor já se foi.
agora qualquer momento de emoção,
noites de paixão, são o que me alegram o dia.
o meu cheiro agora já está noutra lapela,
da nunca mais tua,
ela
de: ele
para: ela
querida ela,
marcaste-me como nenhuma mulher me marcou.
pensava que o sentimento era mútuo,
que eras uma mulher com classe e cabeça.
mas afinal, como muitas outras não passas de uma puta.
meretriz, rameira, flausina, mulher de infame ofício.
o que é de certo modo uma ofensa a quem vende prazer,
porque tu o dás, de graça, como se fosses uma amostra.
e costumavas ser tão querida...
tão inocente, nada indecente...
não sei que foi que te plantaram na mente,
para te fazeres tão cabra.
que força macabra fez isto à única mulher que amei.
e perdi-a. perdi-te a ti.
e fica triste por saber que ainda me amas,
mas que não fizeste o esforço de te manteres a meu lado.
e se por mim que me amas, não tentas sequer,
quantas mais relações vais espezinhar para obteres o que queres?
ouço do longe os aviões a chegar,
um ataque é iminente, não tenho muito tempo.
se eu morrer agora, o amor ainda não se foi,
mas odeio-te intensamente.
não sou homem de maldições,
mas que a minha morte toda a tua paixão sele!
da morte para sempre tua,
d'ele.
bons tempos
saio pela porta.
tudo igual, tudo se mantém, tudo indiferente a tudo o resto,
a coexistirem em perfeita harmonia.
excepto uma coisa:
um pássaro morto.
que era o pior que me acontecia há muito tempo.
também era o melhor.
o que é algo triste.
antes escrevia sobre amor.
ou dor.
que são palavras tão usadas que já me causam uma certa impressão de ver (e escrever).
mas escrevia também sobre força e fraqueza,
sobre o mais nobre dos homens e sobre o mais reles da pobreza.
sobre o quão a vida me pesava nos ombros e me obrigava a rastejar
e sobre o quão a vida me elevava de escombros e me atirava ao ar.
sobre a partida de todos aqueles com quem partilhei memórias e amei
e sobre a chegada de todos aqueles que me roubaram histórias e odiei.
sobre outros poemas que li e canções que ouvi que me deram inspiração para escrever
saio pela porta.
tudo igual, tudo se mantém, tudo indiferente a tudo o resto,
a coexistirem em perfeita harmonia.
excepto uma coisa:
um pássaro morto.
que era o pior que me acontecia há muito tempo.
também era o melhor.
o que é algo triste.
antes escrevia sobre amor.
ou dor.
que são palavras tão usadas que já me causam uma certa impressão de ver (e escrever).
mas escrevia também sobre força e fraqueza,
sobre o mais nobre dos homens e sobre o mais reles da pobreza.
sobre o quão a vida me pesava nos ombros e me obrigava a rastejar
e sobre o quão a vida me elevava de escombros e me atirava ao ar.
sobre a partida de todos aqueles com quem partilhei memórias e amei
e sobre a chegada de todos aqueles que me roubaram histórias e odiei.
sobre outros poemas que li e canções que ouvi que me deram inspiração para escrever
e sobre algo que nunca soube bem o que era, que sou eu mesmo, que está lentamente a desaparecer...
mas agora...
escrevo sobre o que costumava escrever.
e sobre um pássaro morto.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
perdidos 2
eterno
sangue a jorrar pelas paredes
por onde me vigiam olhos mudos
a especar-me, a acusar-me sem falar,
a obrigar-me a enrolar
tudo o que eu sei num feto que nasce do céu
que é o que eu vejo no meu reflexo.
o menos afortunado...
caiem imagens dos teus olhos que foram cegos toda a vida.
cai raiva da tua alma que foi imaculada toda a vida.
cai suor da tua pele que foi limpa toda a vida.
e cai tristeza de ti, como sempre caiu.
e abriu mares frios, que só por si já eram gelados
de muitos outros menos afortunados.
... ignora...
a minha mente ergueu questões às quais nunca respondi.
não por não poder, mas por não querer,
para conservar a minha sanidade
que depende do que muitos chamariam de inocência.
que não passa do mal que ainda não descobri em mim.
... vive!
levantei-me do pedaço de cartão que eu tão amavelmente chamo de cama e enfrentei o mundo. larguei o jornal que me cobria o corpo e tirei pedaços de carvão dos bolsos que já mal tenho e escrevi:"sinto que hoje vai ser um bom dia."
The Little Match Seller
acendi um fósforo e nele vi tudo o que nunca tive.
calor.
Um Segundo
passei por ti e esboçaste um sorriso.
eu sorri de volta.
e em menos de um segundo materializou-se na minha cabeça
um número ridículo de imagens e sensações,
que já não via, nem sentia, nem imaginava sequer
ainda reter tais memórias (serão ilusões?).
e voltou a dor.
naquele segundo voltou todo o ardor
que em tempos de amor senti.
ou se calhar era paixão.
ou talvez não passou de luxúria
e estupidez.
mas senti.
passei por ti e esboçaste um sorriso.
que era mais cinismo que sorriso
que era mais o que tu és que aquilo que costumavas ser.
éter
passaste a vida a colocar troféus em prateleiras
a mostrar sucessos,
a exibir forças,
a realçar poder.
a esconder fraquezas e humilhações,
a omitir rejeições.
a empurrar para debaixo do tapete injúrias e calúnias.
a fingir que és feito da quinta essência.
alice
supernovas cobrem o céu e desfazem-se com o vento
que por sua vez te engana e diz que se chama alice.
e vai contigo atrás do coelho pela toca
mas em vez de maravilhas vês apenas um rapaz a chorar num canto,
com um gato ao colo que diz:
"nada no mundo é mais puro que a tristeza e mais sujo que lágrimas
por isso é que te vejo tão puro e tão sujo ao mesmo tempo
foi a vida que te trouxe paixões íntimas
e tas tirou por capricho próprio para teu lamento.
mas não devias chorar, não passas de uma criança
em que é que o teu choro pode afectar o mundo?"
em nada. mas posso sempre ter alguma esperança
que quem sabe erguem-se os meus queridos do solo imundo
"e aí ficas feliz, pobre criança?"
nunca, porque já fui feito d'um sonho intenso
e para lá voltarei, onde vejo espanha, frança,
tudo volta num sopro de incenso.
dito isto, deitei-me no chão e deixei que me levassem.
já passei tempo demais na realidade
a achar o que não encontrei nos sonhos:
uma ponta de humanidade.
mas nada encontrei
e daqui não saio com saudade
que é uma palavra tão terna que só eu sei
tão inimiga da eternidade...
sangue a jorrar pelas paredes
por onde me vigiam olhos mudos
a especar-me, a acusar-me sem falar,
a obrigar-me a enrolar
tudo o que eu sei num feto que nasce do céu
que é o que eu vejo no meu reflexo.
o menos afortunado...
caiem imagens dos teus olhos que foram cegos toda a vida.
cai raiva da tua alma que foi imaculada toda a vida.
cai suor da tua pele que foi limpa toda a vida.
e cai tristeza de ti, como sempre caiu.
e abriu mares frios, que só por si já eram gelados
de muitos outros menos afortunados.
... ignora...
a minha mente ergueu questões às quais nunca respondi.
não por não poder, mas por não querer,
para conservar a minha sanidade
que depende do que muitos chamariam de inocência.
que não passa do mal que ainda não descobri em mim.
... vive!
levantei-me do pedaço de cartão que eu tão amavelmente chamo de cama e enfrentei o mundo. larguei o jornal que me cobria o corpo e tirei pedaços de carvão dos bolsos que já mal tenho e escrevi:"sinto que hoje vai ser um bom dia."
The Little Match Seller
acendi um fósforo e nele vi tudo o que nunca tive.
calor.
Um Segundo
passei por ti e esboçaste um sorriso.
eu sorri de volta.
e em menos de um segundo materializou-se na minha cabeça
um número ridículo de imagens e sensações,
que já não via, nem sentia, nem imaginava sequer
ainda reter tais memórias (serão ilusões?).
e voltou a dor.
naquele segundo voltou todo o ardor
que em tempos de amor senti.
ou se calhar era paixão.
ou talvez não passou de luxúria
e estupidez.
mas senti.
passei por ti e esboçaste um sorriso.
que era mais cinismo que sorriso
que era mais o que tu és que aquilo que costumavas ser.
éter
passaste a vida a colocar troféus em prateleiras
a mostrar sucessos,
a exibir forças,
a realçar poder.
a esconder fraquezas e humilhações,
a omitir rejeições.
a empurrar para debaixo do tapete injúrias e calúnias.
a fingir que és feito da quinta essência.
alice
supernovas cobrem o céu e desfazem-se com o vento
que por sua vez te engana e diz que se chama alice.
e vai contigo atrás do coelho pela toca
mas em vez de maravilhas vês apenas um rapaz a chorar num canto,
com um gato ao colo que diz:
"nada no mundo é mais puro que a tristeza e mais sujo que lágrimas
por isso é que te vejo tão puro e tão sujo ao mesmo tempo
foi a vida que te trouxe paixões íntimas
e tas tirou por capricho próprio para teu lamento.
mas não devias chorar, não passas de uma criança
em que é que o teu choro pode afectar o mundo?"
em nada. mas posso sempre ter alguma esperança
que quem sabe erguem-se os meus queridos do solo imundo
"e aí ficas feliz, pobre criança?"
nunca, porque já fui feito d'um sonho intenso
e para lá voltarei, onde vejo espanha, frança,
tudo volta num sopro de incenso.
dito isto, deitei-me no chão e deixei que me levassem.
já passei tempo demais na realidade
a achar o que não encontrei nos sonhos:
uma ponta de humanidade.
mas nada encontrei
e daqui não saio com saudade
que é uma palavra tão terna que só eu sei
tão inimiga da eternidade...
retrato do fim
um cheiro nauseabundo.
um cheiro reles a merda, sangue e suor
num beco nos cantos do submundo
com a distinção clara do antes e depois.
à minha direita, com raiva nos olhos
satanás invoca pragas e injúrias ao lado por onde se ergue o sol
por onde desce a mão de deus
para me salvar da minha própria salvação,
dos meus poucos e pequenos apogeus.
e ri-se lúcifer da minha miséria
do meu triste orgulho
que não só é dele como é ele mesmo
e enche o que resta de mim de entulho.
porque os valores de hoje em dia são coisa de gente rica.
e mamon concorda comigo, com a minha sede.
e com a minha fome.
e com a minha sensação de tudo me parecer distante,
por muito intenso que seja o momento.
e não se vai o cheiro a merda, sangue e suor.
porque é o lugar para onde tudo o que morre vem...
num beco nos cantos do submundo.
(dedicated to Collin de Plancy)
um cheiro reles a merda, sangue e suor
num beco nos cantos do submundo
com a distinção clara do antes e depois.
à minha direita, com raiva nos olhos
satanás invoca pragas e injúrias ao lado por onde se ergue o sol
por onde desce a mão de deus
para me salvar da minha própria salvação,
dos meus poucos e pequenos apogeus.
e ri-se lúcifer da minha miséria
do meu triste orgulho
que não só é dele como é ele mesmo
e enche o que resta de mim de entulho.
porque os valores de hoje em dia são coisa de gente rica.
e mamon concorda comigo, com a minha sede.
e com a minha fome.
e com a minha sensação de tudo me parecer distante,
por muito intenso que seja o momento.
e não se vai o cheiro a merda, sangue e suor.
porque é o lugar para onde tudo o que morre vem...
num beco nos cantos do submundo.
(dedicated to Collin de Plancy)
bala
pela manhã, levaste uma bala no bolso,
igual a todas as outras que eu e tu já vimos.
a única coisa palpável que tinhas em toda a tua vida.
que não fosses tu mesmo, que já não era certo p'la tua idade.
era a bala que restava,
que não tinha sido disparada,
por mero arrependimento de todas as outras
que tinham furado paredes.
e crânios.
e a bala lembra-te os teus erros
e impede-te de os fazeres de novo.
agora que é
a solidão tua única companhia
a esquizofrenia a tua única razão
as incertezas como os teus juramentos
o silêncio a tua fala
e uma folha em branco como o resumo da tua vida
que já foi tão amachucada que não resta nada dela.
e a tua bala como a tua ajuda.
igual a todas as outras que eu e tu já vimos.
a única coisa palpável que tinhas em toda a tua vida.
que não fosses tu mesmo, que já não era certo p'la tua idade.
era a bala que restava,
que não tinha sido disparada,
por mero arrependimento de todas as outras
que tinham furado paredes.
e crânios.
e a bala lembra-te os teus erros
e impede-te de os fazeres de novo.
agora que é
a solidão tua única companhia
a esquizofrenia a tua única razão
as incertezas como os teus juramentos
o silêncio a tua fala
e uma folha em branco como o resumo da tua vida
que já foi tão amachucada que não resta nada dela.
e a tua bala como a tua ajuda.
vaguear...
sou rude, vulgar, banal, incoerente, previsível, hipócrita.
sou demente, para mente, com muito amor de mente.
sou contra a democracia, contra a monarquia, e contra a anarquia
sou contra a opressão e contra a liberdade de expressão
sou contra a modernização.
sou contra a evolução.
apoio fortemente o progresso,
insisto na vitória do regresso ao bom velho,
que nunca mais o vi desde que me perdi
a mim e ao meu retrato de quando era eu o bom velho
que se tornou uma palavra feia p'las bocas que a disseram.
sou demente, para mente, com muito amor de mente.
sou contra a democracia, contra a monarquia, e contra a anarquia
sou contra a opressão e contra a liberdade de expressão
sou contra a modernização.
sou contra a evolução.
apoio fortemente o progresso,
insisto na vitória do regresso ao bom velho,
que nunca mais o vi desde que me perdi
a mim e ao meu retrato de quando era eu o bom velho
que se tornou uma palavra feia p'las bocas que a disseram.
poema de amor (está fraco)
não és nada mais que mel (ou pelo menos eras)
que me adoça os sonhos noite após noite
a tornar tolerável o escuro, vez após vez.
no entanto não passas de fel (e digo fel p'la beleza literária, se não chamar-te-ia de merda)
que me perpetua a realidade
até mais mais não
a nós os três.
eu, tu e o meu outro eu (que não passa de notas de autor entre parênteses)
que fala por entre o que eu digo
(como se fosse besta racional)
(como se soubesse o que dizia)
(como se soubesse que era eu quem manda no outro eu)
e acho que começo a gostar de ti mais do que era suposto
dos teus olhos
da tua boca
(da imagem que eu tenho de ti)
dos teus (mas mais dos meus) sonhos
(porque nunca soube dos teus sonhos)
(do que a minha mente fez com que tu parecesses)
e dou-te um poema de amor porque te acho perfeita em tudo.
(porque te acho perfeita em tudo o que fiz de ti)
(isso, e nada mais.)
não dedicado a ninguém em especial, um desabafo apenas.
(digo eu.)
que me adoça os sonhos noite após noite
a tornar tolerável o escuro, vez após vez.
no entanto não passas de fel (e digo fel p'la beleza literária, se não chamar-te-ia de merda)
que me perpetua a realidade
até mais mais não
a nós os três.
eu, tu e o meu outro eu (que não passa de notas de autor entre parênteses)
que fala por entre o que eu digo
(como se fosse besta racional)
(como se soubesse o que dizia)
(como se soubesse que era eu quem manda no outro eu)
e acho que começo a gostar de ti mais do que era suposto
dos teus olhos
da tua boca
(da imagem que eu tenho de ti)
dos teus (mas mais dos meus) sonhos
(porque nunca soube dos teus sonhos)
(do que a minha mente fez com que tu parecesses)
e dou-te um poema de amor porque te acho perfeita em tudo.
(porque te acho perfeita em tudo o que fiz de ti)
(isso, e nada mais.)
não dedicado a ninguém em especial, um desabafo apenas.
(digo eu.)
lamentos do pobre velho
quem és tu jovem cara, cheia de dor?
meu filho? pois já nem te reconheço, com cara diferente.
e bem sei que notas diferenças na tua cara, chamas-me a mim velho
mas o que a idade me fez a mim a má vida te fez a ti.
e se bem que já não tenho a melhor das memórias.
nem o melhor da minha visão.
nem o melhor de mim mesmo.
mas te garanto meu filho, que não eduquei nenhum cabrão,
nenhum homem que mereça menosprezo p'las más escolhas que tomou.
e no entanto tenho-te em tão boa estima.
em tão alto pedestal, ao lado dos grandes senhores desta família.
como os teu pais.
que ou por azar ou por acaso já não estão cá.
e ficas aqui tu a ouvir os meus ais.
qu'eles foram antes de tu saberes o que era essa tua vida má.
mas vá vai-te lá embora, que eu m'entretenho aqui com este espelho.
a ver que já nem a mim me reconheço
a ver que sou só eu aqui comigo
a ver como o tempo me lavou a cara de beleza.
a minha sorte é que já nem sei o que isso é.
meu filho? pois já nem te reconheço, com cara diferente.
e bem sei que notas diferenças na tua cara, chamas-me a mim velho
mas o que a idade me fez a mim a má vida te fez a ti.
e se bem que já não tenho a melhor das memórias.
nem o melhor da minha visão.
nem o melhor de mim mesmo.
mas te garanto meu filho, que não eduquei nenhum cabrão,
nenhum homem que mereça menosprezo p'las más escolhas que tomou.
e no entanto tenho-te em tão boa estima.
em tão alto pedestal, ao lado dos grandes senhores desta família.
como os teu pais.
que ou por azar ou por acaso já não estão cá.
e ficas aqui tu a ouvir os meus ais.
qu'eles foram antes de tu saberes o que era essa tua vida má.
mas vá vai-te lá embora, que eu m'entretenho aqui com este espelho.
a ver que já nem a mim me reconheço
a ver que sou só eu aqui comigo
a ver como o tempo me lavou a cara de beleza.
a minha sorte é que já nem sei o que isso é.
eu venho de outro tempo
uma vida inteira a ser cuidadoso
para chegarem vocês e causarem o meu enterro.
uma vida inteira e já sou idoso
para fazerem do que eu fiz um completo degredo.
já de olhos desfeitos, vejo-vos a vocês
a mutilarem-se uns aos outros
cabeças em espinhos, cobertas de sangue
os vivos liderados p'los mortos.
uma esfera de ossos que se levanta do chão
enclausura-me como minha recompensa
foram vidas tiradas nos bons velhos tempos
em que razão era violência!
ensina-me a respirar
qu'esta falta d'ar já não é do meu tempo
tudo erguido do mar
e agora voltamos p'ra lá, trevas erguem-se do vento.
eu já não percebo nada.
para chegarem vocês e causarem o meu enterro.
uma vida inteira e já sou idoso
para fazerem do que eu fiz um completo degredo.
já de olhos desfeitos, vejo-vos a vocês
a mutilarem-se uns aos outros
cabeças em espinhos, cobertas de sangue
os vivos liderados p'los mortos.
uma esfera de ossos que se levanta do chão
enclausura-me como minha recompensa
foram vidas tiradas nos bons velhos tempos
em que razão era violência!
ensina-me a respirar
qu'esta falta d'ar já não é do meu tempo
tudo erguido do mar
e agora voltamos p'ra lá, trevas erguem-se do vento.
eu já não percebo nada.
perdidos
mente coberta
eu toldo o meu discernimento por opção própria.
deixo de poder distinguir, tudo me parece certo, até o mais ridículo e absurdo.
parece-me a mim perfeitamente lógico chover. Em Agosto.
afinal, se vivo num mundo em que se matam por prazeres (e achamos isto perfeitamente normal), porque é que havia de achar irracional algo tão trivial como a natureza?
guerra
o trovão ecoa pela rua, lembrando os tempos de guerra.
mas era difererente na altura, primeiro ouviamos o barulho dos aviões.
e só depois um clarão.
é tudo o que me lembro.
para lá do para lá do para lá (etc.)
sofro de impaciência crónica.
um minuto demora uma hora a passar quando tenho de esperar.
e ainda assim espero que não passe
porque são os únicos momentos que me dedico a pensar no que haverá para lá da metafísica.
excepção que confirma a regra
por vezes um cliché é a coisa mais impossível de prever.
(excepto em filmes. isso é uma merda)
argumento circular
estou molhado.
faz frio.
quero fogo.
dá-me lume.
estou a arder.
preciso de água.
estou molhado.
faz frio.
voltinhas
toda a gente sabe como acabamos.
poeira. como tudo começou.
luz (erro)
para aqueles que nunca tiveram um momento de força, sou opulento
para aqueles que nunca conheceram fraqueza sou miserável.
para aqueles que nunca olharam ninguém de cima sou um titã
para aqueles que nunca tiveram superiores sou miserável.
para aqueles cujas leis os impediram de viver, sou livre
para aqueles que não se prendem às regras sou miserável.
para aqueles que venderam a mente sei o etéreo
para aqueles que nos controlam sou miserável.
para aqueles que nunca me viram não sou ninguém
para aqueles que nunca me querem ver não existo.
mas ainda bem, porque não sei o que sou.
para além de miserável.
luz (salvação)
vou mudar então.
vou livrar-me do que me prende ao chão e à miséria,
prender-me ao céu com tempos e eras
que nunca vi como alvo de amizade.
ou ódio.
afinal, ao dizer adeus à miséria dei os bons dias à loucura.
despedi-me de tudo a que este mundo me segura.
para vos ver pequenos e miseráveis.
eu toldo o meu discernimento por opção própria.
deixo de poder distinguir, tudo me parece certo, até o mais ridículo e absurdo.
parece-me a mim perfeitamente lógico chover. Em Agosto.
afinal, se vivo num mundo em que se matam por prazeres (e achamos isto perfeitamente normal), porque é que havia de achar irracional algo tão trivial como a natureza?
guerra
o trovão ecoa pela rua, lembrando os tempos de guerra.
mas era difererente na altura, primeiro ouviamos o barulho dos aviões.
e só depois um clarão.
é tudo o que me lembro.
para lá do para lá do para lá (etc.)
sofro de impaciência crónica.
um minuto demora uma hora a passar quando tenho de esperar.
e ainda assim espero que não passe
porque são os únicos momentos que me dedico a pensar no que haverá para lá da metafísica.
excepção que confirma a regra
por vezes um cliché é a coisa mais impossível de prever.
(excepto em filmes. isso é uma merda)
argumento circular
estou molhado.
faz frio.
quero fogo.
dá-me lume.
estou a arder.
preciso de água.
estou molhado.
faz frio.
voltinhas
toda a gente sabe como acabamos.
poeira. como tudo começou.
luz (erro)
para aqueles que nunca tiveram um momento de força, sou opulento
para aqueles que nunca conheceram fraqueza sou miserável.
para aqueles que nunca olharam ninguém de cima sou um titã
para aqueles que nunca tiveram superiores sou miserável.
para aqueles cujas leis os impediram de viver, sou livre
para aqueles que não se prendem às regras sou miserável.
para aqueles que venderam a mente sei o etéreo
para aqueles que nos controlam sou miserável.
para aqueles que nunca me viram não sou ninguém
para aqueles que nunca me querem ver não existo.
mas ainda bem, porque não sei o que sou.
para além de miserável.
luz (salvação)
vou mudar então.
vou livrar-me do que me prende ao chão e à miséria,
prender-me ao céu com tempos e eras
que nunca vi como alvo de amizade.
ou ódio.
afinal, ao dizer adeus à miséria dei os bons dias à loucura.
despedi-me de tudo a que este mundo me segura.
para vos ver pequenos e miseráveis.
diálogo
"e se o cadáver não estiver mesmo morto?"
(toc. toc. toc.)
era impensável após tanto veneno inalado.
era impensável após tanta dor infligida no corpo do pobre homem.
(toc. toc. toc.)
"e se vos disser que ele já viveu assim de boa vontade?"
rídiculo, ninguém com bom senso se faria passar por fumos que nos consomem
o pouco de humano que nos resta.
(toc. toc. toc.)
"aliás, e se vos disser que todos nós, apesar de deliberadamente o fizemos viver assim inconscientemente?"
absurdo. pura e simplesmente absurdo.
"mentes enclausuradas. cegos a dizerem-te que o mundo que viram é errado e tu fazes-te passar por surdo."
(toc. toc. toc.)
(toc. toc. toc.)
era impensável após tanto veneno inalado.
era impensável após tanta dor infligida no corpo do pobre homem.
(toc. toc. toc.)
"e se vos disser que ele já viveu assim de boa vontade?"
rídiculo, ninguém com bom senso se faria passar por fumos que nos consomem
o pouco de humano que nos resta.
(toc. toc. toc.)
"aliás, e se vos disser que todos nós, apesar de deliberadamente o fizemos viver assim inconscientemente?"
absurdo. pura e simplesmente absurdo.
"mentes enclausuradas. cegos a dizerem-te que o mundo que viram é errado e tu fazes-te passar por surdo."
(toc. toc. toc.)
fim do mundo
eu não sei se o mundo vai acabar
e eu nunca fui de rezas, não
disseram que os bons dias iam chegar
mas fizeram-me esperar em vão...
e deito-me ao chão
a afogar-me nos meus pesadelos, que eram sonhos dantes... mas agora
são memórias passadas escondidas no próprio tempo
e nunca mais as vi. e já é hora.
(do fim do mundo. )
e já se entrenha em mim o que eu quis afastar
a dor na minha voz diz-me porque o fiz
mas não sei porque a agonia me está a chamar
tudo culpa desta vida, meretriz.
e desfaz-me com garras que me fazem sentir
aleijado com a vida a chamar por mim
e eu sem saber o que está a vir
vou desistir, já não aguento... com o mundo a chegar ao fim.
(nunca soube que era esta a hora.
mas agora...)
e eu nunca fui de rezas, não
disseram que os bons dias iam chegar
mas fizeram-me esperar em vão...
e deito-me ao chão
a afogar-me nos meus pesadelos, que eram sonhos dantes... mas agora
são memórias passadas escondidas no próprio tempo
e nunca mais as vi. e já é hora.
(do fim do mundo. )
e já se entrenha em mim o que eu quis afastar
a dor na minha voz diz-me porque o fiz
mas não sei porque a agonia me está a chamar
tudo culpa desta vida, meretriz.
e desfaz-me com garras que me fazem sentir
aleijado com a vida a chamar por mim
e eu sem saber o que está a vir
vou desistir, já não aguento... com o mundo a chegar ao fim.
(nunca soube que era esta a hora.
mas agora...)
as mãos de lucía
as mãos do poeta escrevem
escrevem mais do que ele próprio pensa
as mãos do poeta falam por toda a gente
e choram mais que ninguém.
(mas porque choram?)
nunca nenhuma alma lhes limpou as lágrimas
e é por isso que choram, porque nunca ninguém as salvou de se afogarem quando era preciso
e agora choram porque a memória não as deixa esquecer isso.
as mãos do músico tocam
gentilmente e bruscamente, no mesmo acto apaixonado
e param porque ouvem as mãos do poeta a chorar
a lacrimejar mais que ninguém e mais que todos.
(mas porque choram?)
as mãos do músico continuam a tocar, com esperança de não ouvir mais choros.
afinal, música triste só foi escrita quando ninguém sorria
e não se quer pôr ninguém triste com algo feito p'las mãos de Lucía.
escrevem mais do que ele próprio pensa
as mãos do poeta falam por toda a gente
e choram mais que ninguém.
(mas porque choram?)
nunca nenhuma alma lhes limpou as lágrimas
e é por isso que choram, porque nunca ninguém as salvou de se afogarem quando era preciso
e agora choram porque a memória não as deixa esquecer isso.
as mãos do músico tocam
gentilmente e bruscamente, no mesmo acto apaixonado
e param porque ouvem as mãos do poeta a chorar
a lacrimejar mais que ninguém e mais que todos.
(mas porque choram?)
as mãos do músico continuam a tocar, com esperança de não ouvir mais choros.
afinal, música triste só foi escrita quando ninguém sorria
e não se quer pôr ninguém triste com algo feito p'las mãos de Lucía.
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