quinta-feira, 22 de setembro de 2011

perdidos 2

eterno

sangue a jorrar pelas paredes
por onde me vigiam olhos mudos
a especar-me, a acusar-me sem falar,
a obrigar-me a enrolar
tudo o que eu sei num feto que nasce do céu
que é o que eu vejo no meu reflexo.

o menos afortunado...

caiem imagens dos teus olhos que foram cegos toda a vida.
cai raiva da tua alma que foi imaculada toda a vida.
cai suor da tua pele que foi limpa toda a vida.
e cai tristeza de ti, como sempre caiu.
e abriu mares frios, que só por si já eram gelados
de muitos outros menos afortunados.

... ignora...

a minha mente ergueu questões às quais nunca respondi.
não por não poder, mas por não querer,
para conservar a minha sanidade
que depende do que muitos chamariam de inocência.
que não passa do mal que ainda não descobri em mim.

... vive!

levantei-me do pedaço de cartão que eu tão amavelmente chamo de cama e enfrentei o mundo. larguei o jornal que me cobria o corpo e tirei pedaços de carvão dos bolsos que já mal tenho e escrevi:"sinto que hoje vai ser um bom dia."

The Little Match Seller

acendi um fósforo e nele vi tudo o que nunca tive.
calor.

Um Segundo

passei por ti e esboçaste um sorriso.
eu sorri de volta.
e em menos de um segundo materializou-se na minha cabeça
um número ridículo de imagens e sensações,
que já não via, nem sentia, nem imaginava sequer
ainda reter tais memórias (serão ilusões?).
e voltou a dor.
naquele segundo voltou todo o ardor
que em tempos de amor senti.
ou se calhar era paixão.
ou talvez não passou de luxúria
e estupidez.
mas senti.

passei por ti e esboçaste um sorriso.
que era mais cinismo que sorriso
que era mais o que tu és que aquilo que costumavas ser.

éter

passaste a vida a colocar troféus em prateleiras
a mostrar sucessos,
a exibir forças,
a realçar poder.
a esconder fraquezas e humilhações,
a omitir rejeições.
a empurrar para debaixo do tapete injúrias e calúnias.
a fingir que és feito da quinta essência.

alice

supernovas cobrem o céu e desfazem-se com o vento
que por sua vez te engana e diz que se chama alice.
e vai contigo atrás do coelho pela toca
mas em vez de maravilhas vês apenas um rapaz a chorar num canto,
com um gato ao colo que diz:

"nada no mundo é mais puro que a tristeza e mais sujo que lágrimas
por isso é que te vejo tão puro e tão sujo ao mesmo tempo
foi a vida que te trouxe paixões íntimas
e tas tirou por capricho próprio para teu lamento.
mas não devias chorar, não passas de uma criança
em que é que o teu choro pode afectar o mundo?"
em nada. mas posso sempre ter alguma esperança
que quem sabe erguem-se os meus queridos do solo imundo
"e aí ficas feliz, pobre criança?"
nunca, porque já fui feito d'um sonho intenso
e para lá voltarei, onde vejo espanha, frança,
tudo volta num sopro de incenso.

dito isto, deitei-me no chão e deixei que me levassem.
já passei tempo demais na realidade
a achar o que não encontrei nos sonhos:
uma ponta de humanidade.
mas nada encontrei
e daqui não saio com saudade
que é uma palavra tão terna que só eu sei
tão inimiga da eternidade...

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