no leito da minha sarjeta
chove. choram as minhas lágrimas outros que não conheço
e até as minhas lágrimas choram as lágrimas que não são delas.
já nada me pertence.
é tudo do tempo
e o tempo já esqueceu o que tem.
não me pertenço.
sou filho de nobres, desolado.
feito de lama, na minha sarjeta
onde penduro molduras,
porque nunca fui rapaz de fotografias,
nem tive memórias para fotografar.
morro.
levanta-se o tempo do seu trono e diz-me
"que foi feito dos teus sonhos?
ao menos tinhas algo para ninguém herdar."
mas vendi-os para comprar esperança.
que depois vendi para comprar pão.
que comi sentado no chão da rua onde não vivo.
quem me dera
luz.
os meus dias são luz
e encho os meus pulmões a celebrar o dia glorioso
que me conduz a um futuro com mais gozo.
mel.
quem me dera ser feito de mel
e matar-me no egoísmo a anular-me do mundo
que tenho anotado num papel nos bolsos rotos
do meu casaco de vagabundo.
rei.
era feliz se fosse rei
e não faria nada, como o bom mestre do ócio
que sou e que sempre serei, refastelado de equinócio
a equinócio.
marasmo.
quase estagno com tanto marasmo
e no entanto já andei por todo o mundo e imundo
que por sorte ou azar meu, culmina num pasmo
em que me lembro que não fui a lado nenhum.
tijolo.
duro e feio como um tijolo
que fez uma casa onde vive gente sempre alegre
e eu olho-os no meu desconsolo, a perguntar-me
se a alegria é fruto de uma febre.
anti-pirético.
quem me dera ser anti-pirético
que curasse a febre desta gente e os livrasse da canseira,
que o mundo e eu somos cépticos e olhamos para vocês
com grande inveja da vossa ingénua cegueira.
que nem vêm o mundo como ele é.
Sem comentários:
Enviar um comentário