segunda-feira, 14 de novembro de 2011

monólogo do filho do espaço

o filho do espaço veio à terra e disse:
"são meus os vossos sonhos, esperanças e ilusões.
todos vocês, a mim imundos e submissos
a procrastinarem o que vós mesmos sois.
vi-vos morrer às vossas próprias mãos
à espera de um milagre que não veio
a levantar lamúrias do chão
e a pregá-las ao céu, se já não estiver cheio
de lamentos que não cabem na mente de ninguém.
que choros são esses que me mandam a mim?
pensam vocês, soberanos da soberania qu'eu sou alguém
que vos embala nas noites de tormento sem fim?
fazem de mim um recurso.
a desculparem os vossos erros comigo.
a agradecerem-me em tempos de triunfo.
e eu, o vosso único abrigo,
a vossa dosagem de benzodiazepinas psicológicas,
o vosso ansiolítico mental.
tomados de forma imódica
administrados via espiritual.
sou o conjugar das vossas acções.
sou uma besta de emoções desmedidas,
expulso dum universo de corrupções
com treze eternidades para curar as feridas
de séculos passadas a dar socos no chão,
o que criei e não consigo destruir,
para me aperceber que cerrei os punhos em vão.
para encontrar no que eu próprio construí
em templos e frases suspensas que não proferi
onde sou verbo, substantivo e fonética das palavras.
uma história que eu próprio escrevi, de quando quis
ser mais do que as lágrimas que chorava.
sou a chuva que vos traz o romance.
sou o sol que vos traz o amor.
sou um filme intenso do óbvio e do suspense
e uma pornografia carregada de suor.

sou tudo.
demónio e anjo.
sou tudo.
céu e inferno.
sou tudo.
água e terra.
sou tudo,
mas sou só dor."

e ninguém quis saber.

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