democracia dos foragidos da lei
um rugir ecoa pelo meu corpo.
uma sensação não processada, sem quaisquer alterações,
atravessa-me a alma.
sinto-me tão irracional como os primeiros.
sinto-me a ser feito de suposições,
que foram geradas por teorias
que foram geradas por dogmas incertos.
e cismo na minha cisma.
insisto na minha persistência.
duvido das minhas dúvidas que, sendo refutadas por gente igual a mim, não são sequer o que eu sei que são.
são tretas balbuciadas por um ignorante.
são coisas.
se proteste sou decerto um louco,
mas se me calo sou volátil!
vivo num debate constante se hei-de ser barro ou pedra.
se hei-de ser maleável e mal-tratável e suprimível ou ignorado no vosso caminho para um futuro melhor!
de que vale ter livre arbítrio se ninguém me ouve?
sou só mais uma boca protestante.
sou só mais um manifesto com pernas.
sou uma besta sem educação, um perdido sem um papel para pendurar na parede como certificado de inteligência.
sou só uma personagem sem um cupão que diz:
"tem direito a uma opinião válida."
que feliz que eu era, se os nossos senhores doutores me ouvissem!
vestia o meu melhor trapo, com uma laçarote e tudo!,
e lá ia eu, inteiramente e infinitamente sabedor e conhecedor:
um verdadeiro génio da auto-estima, um perito na preservação de mim mesmo, o grão mestre das artes arcaicas da inveja,
o juíz final! o dono do eterno!
seria monoteísta se me adorasse a mim mesmo!
seria panteísta se fosse tudo!
seria agnóstico se fosse e não fosse!
AI o que eu seria se fosse um senhor doutor!
mas não...
isto não é nenhuma era de ouro ou prata ou bronze ou cobre:
são os tempos do pobre, dois zero doze, tempo da falta e época dos roubos.
meu povo, eis o vosso futuro capitalista e liberal,
onde o pobre já não tem sonhos porque os trocou por pão,
onde nos são servidos ideais de igualdade
acompanhados de um prato de discrepância social.
ó meus príncipes, somos os vossos escravos piegas,
que vivem as dores que vocês praguejam
perto do dia em que sobem ao pódio
para parecerem preocupados com o chão que pisam,
com os vossos sapatos de sola imundos e valores, defuntos e corruptos, arrastados e maltratados.
são esses os vossos estudos, as vossas ciências!
incoerências e incongruências;
as artes do ego subliminar e todas as suas magias do oculto;
os dialectos da piedade com um sotaque de crueldade,
um liberalismo confinado,
uma sociedade igualmente discrepante,
a divisão do todo por uma parte apenas,
o fechar de uma cena com a actuação a meio,
despedimentos em massa,
transições, transações, translações, rotações e já se foi outro ano de supremacia dos burgueses da política.
o tempo flui com uma naturalidade incrível e nós permanecemos estagnados.
o templo rui e caí toda a humanidade susceptível e nós vemos fascinados.
como uma boa tragédia, deve ser apreciada!
a nossa nova estratégia de como governar a nossa vida depois de conquistada:
já não somos nada.
hipocrisia-apresentação do homem-gott ist tot-(cego)
"não matarás" , proclama o seguidor,
enquanto limpa as mãos de sangue.
"o suplício dos vossos irmãos é a vossa dor
e quem não o ame,
mestre do ofício da santa religião,
sinta o furor da lâmina do nosso senhor."
"não roubarás" , fala o tutor,
enquanto arruma os pertences de outros.
"a riqueza nada nos diz, mas se todo o ouro for
será mui pouco,
a pobreza de vós, meus filhos,
dá-vos o dom de ''ser inferior'' no reino
do nosso senhor."
"meus filhos,
contemplem a criação do nosso senhor,
o seu ex lubris racional,
dono de livre arbítrio mas a seguir as leis do criador,
amado incondicionalmente mas apenas se bem mandado for!
venham, juntem-se ao culto da sombra do homem defunto.
sejam filhos do vulto, vivam nos escombros do mundo."
"o salvador é a luz, mesmo que dele só reste escuro...
omnisciente de natureza!,
mas necessita de provas de fé.
omnipresente,
mas adorado apenas em locais de culto!"
(será falha minha ser inerte à luz ou culpa das incoerências?)
(ceguei-me por não suportar a criação do homem que o criou.)
tribute to friedrich nietzsche.
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