quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

anel/rei/feiticeiro/anão e elfo/dio/balada

anel

castigaram-te o peito.

o peso de um anel tombou-te o corpo.

o verde que conhecias já ignoras,
só o ouro te conduz e guia pelo escuro,
até ao fogo.

enfrentaste bestas aladas,
fugiste de bestas feitas de lama e lava,
cobertas de ferro e escuridão.

todas elas mais imperfeitas que nós homens,
todas elas mais imponentes que nós monstros.

vinte anéis e apenas um para os governar a todos.
por baixo do céu,
nas câmaras rochosas,
a quem foi destinada a morte
e a quem é feito de escuridão,
um anel para os governar a todos.

rei


num manejo imaculado da espada
mandaste muitos para a morte.
e para tua sorte
caíste para o fim e voltaste
para fazer chover sobre os teus inimigos
nada que não a raiva que eles te deram.

feiticeiro


de cinzento te vestias, mas nunca mais.
agora és branco como a luz que conduzes
nas trevas.

anão e elfo


um machado e trinta metros de determinação
é o que usas como arma.


um arco e nada mais.

em eterna competição,
ambos vencedores.

dio

ajoelhas-te sobre o chão que pisas e sujas
e dedicas rezas a quem não te ouve.

balada

ouço um tiro no escuro,
é sempre bom para dançar.
uma balada feita só de barulho
é o som do mundo a rodar.

será que ninguém ouve
a escuridão que só eu vejo?
ninguém será o que sou,
estou preso no meu desejo.

todo o mundo num segundo,
não passa de um ponto final.
o fim comprimido no fundo da frase,
o conteúdo não é mais fulcral.

somos todos parte de uma balada,
e quem nos escreveu foi quem nos amou.
somos um ajuntamento de peças inacabadas,
um comício de tudo o que foi
e que não nos define mais.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

o americano/adão e eva/tanto

o americano

oh grande herói.
foste tu que nos deste tudo
sem pedir nada.

o teu corpo penetrado por balas mancha o chão dos teus inimigos.

os teus, já fundo no mundo
em putrefacção
choram por ti.

confessaste os pequenos males que te pesavam.

levaste o teu isqueiro.

estavas em paz.
e assim continuarás.

adão e eva


somos feitos de peças soltas
mas onde está a nossa dor?
está espalhada por umas e por outras
manchas sujas, das quais só sobra vapor.

foi tudo ao ar, nada mais resta
e este é tão nocivo como a nossa voz.
a minha civilização é esta
e nem repulsa sinto por nós.

somos todos os primeiros a ser como somos
mesmo sendo cópias do que pensamos ser.
vivemos na boca do lobo
e ignoramos o que nos está a acontecer.

somos comidos, digeridos, dissolvidos por enzimas,
vomitados, castigados e atirados para os fogos magistrais
o que nos resta da mente não é o que fica ao de cima
mas sim o que nos torna exactamente iguais.

somos todos tão vestidos,
tão politicamente correctos,
tão pensativamente desmedidos,
tão mentalmente incertos.
qualquer passo para a inovação
atrasa a nossa mentalidade,
estamos presos ao chão
e a culpa é da nossa enfermidade:

a nossa criatividade é delimitada pelo que os outros pensam...

e eles sofrem do mesmo.

tanto

uma despedida despida de qualquer receio,
nua e para sempre efémera.
presa num momento.
o que temos em mente é o que somos
e nunca o que era.

só a gente se veste tanto.

um orgasmo residente no futuro.
um organismo sozinho e distante.
nada nos resta.
apenas nos tapa a vergonha um manto.

só a gente complica tanto.

o céu coberto de tormentos
torna o sol  numa miragem.
é tudo claro quando não sonho
e reduzo a minha mente a uma imagem.

só a gente se obscura tanto.

será que somos só memórias numa vagem?
uma viagem na margem de um rio
intrinsecamente viajado e conectado por pontes de água
que me lembram que os meus neurónios
só me servem de castigo.

só a gente se lembra tanto.
só a gente se analisa tanto,
como se a introspeção trouxesse respostas.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

menor que três

olho para trás.
só vejo caminhos.
uma teia de impulsos que nos trouxe até nós,
sinapses seguidas do que resta de momentos,
tão quentes de recordar e tão inconcebivelmente impossíveis de esquecer...

foi fruto do nosso amor o meu furor em viver,
tão longe em tempos e tão perto agora,
neste momento que durará para sempre,
embalado no equilíbrio do cosmos, em perfeita harmonia.

somos, na fabulosa sinfonia do que somos e seremos, serenos com tudo.


o nosso próprio abrigo.
fogo um do outro.

domingo, 4 de dezembro de 2011

actualidade/sonhar/legião de nenhuns

actualidade

quem dera a mim saber o que eles sabiam
para estarem tão relaxados enquanto se riam
de nós a lutarmos.

somos filho de manias,
que por triste ironia,
tanto ridicularizamos.

e eles diziam-me:
"ou me fazes a cama
ou dormes no chão."
é uma sociedade de iguais
com uma infinidade de senãos.

o preço da vida
é negociável,
o intrínseco valor
é desagradável.
pago por tudo,
até por ser humano,
sou pobre por ter
que suportar tiranos.
será tudo tão racional
numa época de exageros?
a liderança nacional
é uma aglutinação de estafermos,
a discutirem com eufemismos,
a acharem-se querubins.
com inúmeros destinos
já sabemos o nosso fim.

mas eles ainda me dizem:

"ou me fazes a cama
ou dormes no chão."
a gente já sem chama
só espera a revolução.

sonhar

onde está a racionalidade da mente humana?
somos pensamentos repartidos por corpos repartidos pelo mundo repartido por nós,
que somos donos do nosso quintal e de pouco mais.
é por isto que concluo que
a vida é um auto de fé infindável,
com a transcendência como única espectadora:
somos ratos num labirinto,
bactérias num tubo de ensaio,
gente confinada aos limites da mente.
labutamos incessantemente,
como se fossemos a algum lado para lá disto.
só escapamos com sonhos
(e só sonhamos com amor,
e quando o temos nada mais queremos.)
que não retratam realidades.
só fugimos para voltar passado um tempo,
mais sonolentos e velhos que antes,
com mais rugas e com menos tempo.

mas sabe tão bem sonhar.

legião de nenhuns

sou doente,
o meu próprio paciente,
inconscientemente consciente
igualmente indiferente.
totalmente e inutilmente
dono da minha mente.
a confrontar constantemente
os meus males frente a frente.

futilmente fatigado
por enfrentar a canseira
constantemente abandonado
por uma vida de cegueira:
acordo todos os dias
para ver o mundo que não vê:
ninguém se apercebe
que somos crias de um erro.
se somos filhos de deus,
perdemos o gene divino.
somos os seus imortais réus,
o julgamento dos próprios filhos.
pensa ele que somos finitos
quando ninguém sabe como acaba.
só nos ocupamos com os nossos ritos
até para a morte mais macabra.

o fim não é sequer
reconhecido como final.
a transcendência da alma
suprime o real.
na morte somos perfeitos
deixamos o corpo para trás:
o que é corpóreo e defeito
é fraco e fugaz.

já somos todos reis
da nossa união,
impomos as nossas leis
e é tudo em vão.
é inevitável o desejo
de sermos um com nós mesmos,
mas somos preenchidos por dor,
até os mais serenos.
personalidade múltipla
não é desordem:
quem não cultiva loucura
não se chama homem.
se eu fosse só um
era só solidão,
mas sou uma legião de nenhuns
com uma só expressão.