as duas olham e são olhadas
enquanto ambas vivem numa peça de fruta
que bem podia ser uma peça de nada.
uma pequena e redonda maçã,
reluzente como numa pintura,
envernizada e toda esburacada pelos inquilinos
que não encontrando a porta, se deixam levar pela loucura
e fazem uma artesanal e muitas mais pois ser um
já não é levado a bem neste mundo.
fala a lagarta:
"sabes, fui já dragão e arrastado
por todo o universo, nunca soube o que perdi
por ser tudo em todo o lado e fui enfadado,
realmente aborrecido sem saber o que vi
nem a ligar ao tempo que passou e que se criou na minha ausência do mundo,
fui anéis de saturno, e luas de júpiter, gelo em plutão e no fundo do sol fui ferro e níquel teoricamente,
fui um número na cintura de asteróides e os pilares da criação que já não são,
andrómeda, grupo local, via láctea, verdadeiros espetáculos de luz e panóplias de estrelas,
fui modas, fodas, rodas, codas, bodas de amor e todas elas por momentos apenas.
fui as penas numa ave,
vai chave numa porta,
a aorta de um sistema circulatório,
oratório de uma igreja,
a inveja de alguém melhor,
o pior de quem quer que seja."
a rapariga acena e sorri.
volta a especar e a ser olhada.
por um pouco pensou em falar
mas rápido lhe passou, controlada
como era
e como sempre foi.
a lagarta fala:
"sabes, fui micróbio, e levado pelo vento,
algo mais pequeno que tudo o que viste
e no entanto eu e os meus irmãos cobrimos todo o mundo.
falámos uns pelos outros, em uníssono, sobre tudo o que existe
e contaram-me histórias... ó, as histórias!
david e golias em confronto e o triunfo do pequeno sobre o gigante!
pena que agora o campo onde lutam os colossos contra o homem
não tenha pedras nem o homem fisgas, mas amarram-se os elefantes
com as poucas cordas que ainda se têm, apesar de não ser muito
sempre é o necessário, dizem que as pessoas se vão aguentando ainda assim.
e quantos contos me contaram, coisas dignas de serem cantadas,
coisas sobre aquiles e o seu calcanhar, sobre explorar fraquezas e afins.
mas quase não me recordo de tudo o que aprendi quando era pequeno, sempre soube bem aprender coisas,
agora recordar é que é não vai nada bem...
mas agora sou lagarta, sou forte, como maçã e bebo água,
sou o sonho molhado de um nutricionista, creio eu que tudo o que da terra vem
faz bem ao corpo e à mente e a minha mente já viajou muito,
tem muito que se nutrir, já pensei em ser lagarta de livros mas dizem que essas não vivem muito bem,
comer coisas artificais não faz bem a ninguém...
e tu de onde vens?
por que nome te tomas?"
a rapariga fala:
"venho de algures porque toda a gente vem e tenho um nome como toda a gente tem,
como é normal. o governo tirou-me a casa e tenho de habitar em algum lado,
como a maçã tem uma boa relação de qualidade/preço/estética/saúde pensei ser a melhor escolha.
e assim foi. sou uma rapariga bem educada, com maneiras à maneira e espero que venha o meu soldado,
de chumbo não que faz mal, de borracha também não que no calor do momento derrete,
talvez de carne e osso como eu, sempre tínhamos algo em comum que é o que se quer nas relações.
e também não podia ter uma pistola com baioneta, quero educar filhos com um homem que se compromete
e não use facas, isso faz um mal desgraçado à saúde e a maçã que o saiba, que lhe tira a pele e lhe corta a carne
por capricho ou necessidade de outro alguém, mesmo sem ela fazer mal a ninguém."
a lagarta olha, sai da maçã,
tira um cigarro, acende o isqueiro,
deita fora o cigarro, fuma o isqueiro,
acende-se a si mesma e mete dó à rapariga
que só queria uma amiga.
a rapariga pega na carta de suicídio, que lê:
"ser lagarta e viver com uma rapariga é aborrecido, rápido me enfado. vou encarnar outra vez e pode ser que nos vejamos por aí."
a rapariga sai ao mundo, livra-se da proteção, encontra o soldado que é feito do mesmo que ela e vive feliz,
sem ninguém a incomodar.
quem sabe se encontra a lagarta mais tarde para ir tomar um café ou um brunch ou coisa mais moderna.
quem sabe o que vem aí ao virar da esquina.
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