fomos todos para o mundo,
sempre a descer, é bem fundo!,
dei de caras com a vida
sem saber como é merecida.
midas trocou-a por ouro,
nada que não mate!
outros tristes dedicam-n'ao choro,
um complexo do foro da mente,
"ansiamos resgate!
queremos o que já não temos p'la frente!"
chego a toda a parte,
(ser específico não é a minha arte)
e vejo que ao fundo da rua
uma mulher vende noites de loucura!
ela é filha de um pobre na estrada
ou de um magnata sem caminho!
mostra as mamas por nada
mas se queres tocar já vais ter de pagar,
"sou oferecida e dou carinho,
só quero uns trocos e um lugar para gritar!"
vamos lá, siga no andamento!
um vagabundo olha para mim todo sorridente,
com um pote na mão à espera de milagres
quando ele bem sabe que todo o mel é vinagre.
em tempos se calhar até foi senhor,
ou sempre foi um triste à espera.
só não trabalha pelo seu grande amor:
a preguiça e o pó que o desperta.
"andam todos muito ocupados nesta esfera.
eu não atrapalho e fico parado de mão aberta!"
passa por mim o d. engravatado,
tão atarefado!, a voltar para a família de predicados:
um pai e mãe milionários (ausentes para toda a gente!)
um puto mimado (preso ao cómodo com as próprias correntes!)
embarra contra mim de telefone na mão,
só ele sabe tanto sobre o ofício da pressa!
há-de vir-lhe uma qualquer emoção,
qualquer coisa que o gelo que lhe prende as veias não suporte.
"tenho um forte porte e não faço nada, essa é que é essa.
uma vida carregada de ser carregado, é a minha sorte!"
e aí vem ela, toda lançada, sem qualquer receio.
um movimento de ancas que limpa um passeio inteiro.
um decote que realça o que ela quer ostentar,
umas pernas que mostram que o frio não vai no ar.
é louca que nem um chapeleiro,
a mania come-lhe o discernimento,
para ser diva só lhe falta dinheiro,
isso e uma mente dela que não lhe fazia mal.
"ai minhas lindas o meu único lamento
é que nem sei o que vestir para toda a ocasião social."
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