os gatos com o cio miam lá fora e criam uma rotina de gemidos.
foda-se!, ficam com o pito aos saltos e vêm logo aos molhos,
eu que escolho e tento de mulheres estou desprovido.
de 5 em 5 segundos lá está ela. ou de 6 em 6 ou 7 em 7, não sou um relógio atómico,
mas a porra da gata tem mais rotina nuns berros que eu na vida toda.
quase que dá para compassar. miau 2 3 4. miau 2 3 4. a que propósito lógico?
foder-me a cabeça, está meio mundo contra mim e a outra metade que se foda,
também não me quer bem. até os animais se unem contra mim,
assim que se calar a gata os pássaros abrem a grimpa, um pombo caga-me a camisa,
os patos atravessam a estrada quando eu já estiver atrasado para o trabalho, a vida é assim,
2 dias e a fazer direta. o problema é se é uma semana inteira a ficar de remissa.
ir à missa é aborrecido. ir divertir-me é caro. engatar gajas nem se fala,
é como jogar jenga vendado numa montanha russa e já estou destreinado,
da última vez que o fiz o michael jackson era meio branco só, ainda não ando de bengala,
não sou assim tão velho. aliás, ainda mantenho a juvenil semi careca dos amaldiçoados,
a barriga de cerveja que é inexplicavelmente inevitável e um peso nas costas
de olhar o mundo de frente. em vez disso, olho para o chão,
pode ser que encontre um euro ou dois ou um emprego nas docas
com muita maresia, é sempre um sonho, e será sempre uma ainda maior ilusão.
bem, sempre passaram 20 minutos. e surpresa surpresa, não se cala, a porra da gata.
cisma sempre no mesmo, naquela onomatopeia sonante, naquele miau.
sim, "é um belíssimo fenómeno da natureza", mas a verdade é que já farta.
eu até ia lá fora, partia-lhe a boca toda, mas é "crueldade contra o animal".
eu digo-vos o que é crueldade, manter-me acordado até estas santas horas,
em que nem deus quer saber de quem está acordado porque quem está de joelhos não é a rezar.
mas pronto, vão-me dizer que a gaja é uma criatura que deus ama também, e ora,
claro, não tem o bicho a miar-lhe há mais de 30 minutos, quando um gajo só quer descansar.
é que já nem passa muito pela besta, a minha inquietude, agora tenho a cabeça a soar,
é a merda de um jogo, isto! vamos lá pessoal, toca a foder a cabeça às pessoas.
vamos certificar-nos que o gajo que tem de ir trabalhar às 7:30 da manhã não tem hipótese de sonhar.
bem, não é mau de todo, ao menos não me iludo de nada, já que estou nesta habitação toda,
que se resume a uma sala, uma cozinha e uma casa de banho. um t0, para os leigos,
ou para os peritos no assunto, uma casa de quem recebe um salário mínimo.
uma casa de pobre, pronto, digamos assim. se calhar estava melhor em áfrica, lá os felinos não são meigos
mas ao menos estão calados. e a casa não deve diferir muito, isto não abrange conceitos como espaço íntimo,
as paredes parecem papel, a única diferença é que é um cheiro fétido a merda que não se pode.
felizmente, eu, jorge daniel andrade cunha, sou um moço resistente às adversidades que me foram servidas
e aprendi a cooperar com todas as dificuldades da vida que me proporcionei, mais que queixa isto é uma ode
à minha força de vontade em superar o meu hábito estranho de usar vocabulário eloquente e linguagem de má vida.
felizmente, eu sou assim, uso palavras que não sei o que querem dizer na esperança de parecer um emérito,
que acabei de ver no dicionário, uma pessoa que sabe muita merda, pois bem,
melhor descrição não se enquadra, e acho que não é de mais ninguém este tão meu mérito!
só da pena ver que o mundo não sabe este filho que tem.
"cala-te, caralho", berra o vizinho. já te calavas ó porco.
"toc toc toc", ecoa no chão onde vive a teresa rebelo,
uma moça por quem já estou pelos cabelos e não é pouco,
mas pronto, já é demais a queixa pelo meu ruído, nunca fui cidadão modelo.
podiam era mandar calar a porra do gato.
isso é que era.
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