sábado, 11 de agosto de 2012

a travessia pelo deserto

um calor sórdido e tórrido preenche quase todo o espaço que tenho para pensar deixando apenas uma vontade louca de mijar.
caminho mais um pouco, mijo na areia e como é muita a falta de água é quase opaco e pesa mais que as minhas pernas,
espancando o chão,
furando a areia pouco e esgotando toda e qualquer água que eu ainda tenho no corpo.
caminho mais um pouco, vejo um arbusto onde tento descansar um pouco e não virar louco, não, por enquanto não serei maluco,
ainda tenho tanta sanidade e insanidade positiva que não posso deixar que isto aconteça.
descanso um pouco e começo a delirar:
é tudo de bom a dançar à minha frente e atirarem-me calhaus para a frente, a fazer um muro que tantas vezes construí.
danço com eles um pouco e o cansaço começa a desaparecer, faço jus à minha demência e atiro-me para o chão e rezo como nunca rezei,
a todos os deuses, aumentando assim os casos favoráveis, aumentando a probabilidade, aumentando a minha chance de salvamento, aumentando o tempo que passo sem me preocupar com a minha morte iminente.
rebolo um pouco e levanto-me de uma só vez, erguendo-me finalmente.
olho à volta e tudo de bom se foi, ficou só areia e dunas e calor e ar a tremer e dilatado.
caminho mais um pouco e vejo água, tento mergulhar e resulta apenas numa espécie de tentativa de auto-enterro precoce.
magoo as costas um pouco e levanto-me.
caminho mais um pouco e começo já a esquecer os meus problemas e relembrar soluções a outros problemas que agora não me interessam e que vou esquecer se e quando sair daqui.
arrasto-me um pouco, finalmente dou uso aos braços já que as pernas me parecem inúteis e o são a esta hora.
arrasto-me mais um pouco para dar por mim de braços cansados e deixar-me quase para morrer.
tenho a cara enterrada na areia e o corpo inteiramente desidratado.
vêm-me umas segundas forças e levanto-me.
caminho mais um pouco, levanto os pés, marcho em direção ao que penso ser a saída, finalmente percebo como se sentem quem não tem rumo na vida.
finalmente percebo como me sinto, finalmente uma metáfora torna-se tão ridiculamente real que nem opções para rumo tenho.
verifico se há placas no deserto. verifico que já não penso concretamente em coisas que valham a pena. verifico que para qualquer teoria política resultar toda a gente tem de pensar igual. verifico que uma abismal maioria não pensa e que torna quase tudo impossível.
caio no chão. levanto-me. caio no chão. levanto-me. finalmente percebo aquela música brasileira que toda a gente cantava.
caminho mais um pouco e vejo um abutre ao longe.
deve ter água, ninguém vive sem água. tal como ninguém vive sem internet. se calhar têm disso. ou então não, não há postes com cabos por aqui.
aproximo-me mais um pouco e vejo que ele pousou ao pé de um animal tombado. não tenho ideia do que é, por isso pergunto-lhe.
não me responde. se calhar as boas maneiras não chegam a estas paragens.
um pouco mais à frente vejo um oásis. e que belo oásis, tudo muito digno de reclames. água, uns arbustos, umas palmeiras, uma gaja a tomar banho, afinal não, era um monte de calhaus, mas não me podem acusar de ter pouca imaginação.
vou logo a correr, desta vez não mergulho porque gato escaldado de água fria tem medo, apesar de os gatos já não serem muito fãs de água, só se lambem os porcos.
acelero o passo e molho o pé.
molhado.
finalmente.
mergulho a cabeça e bebo e bebo mais e bebo ainda mais e paro lá um pouco por baixo da palmeira.
olho para o céu. está a começar a escurecer. vai esfriar. o calor vai ser frio. se calhar não devia ter atirado metade das roupas para o chão há umas horas.
só me arrependo das coisas depois de as fazer. se me arrepende-se antes dava mais jeito. devia começar a fazer isso. viver sem erros.
se calhar não seria assim tão bom, tinha menos histórias para contar.
"então como é que foi a tua vida, alguma história gira?"
não, sem erros nem nada que se pareça.
tudo muito aborrecido.
vou dormir enquanto posso, enquanto a temperatura é amena.
boa noite. amanhã é dia novo. amanhã dia novo é. é amanhã dia novo.
tudo rigorosamente igual, só se altera o ser.


Sem comentários:

Enviar um comentário