sexta-feira, 28 de outubro de 2011

saudade

vieste de um mundo violeta
onde viveste em histórias apenas.
e choras de saudade,
porque o que resta desse mundo
não é mais que a merda presa às minhas botas,
que por muito que limpe não há-de sair tão cedo.

talvez venha a chuva e lave as minhas botas.

talvez venham lágrimas e levem a tua saudade.

mas a chuva já veio
e continuo com as botas sujas.
já derramaste tantas lágrimas
e a saudade ainda te habita,
sem pagar renda nem nada.

a rasgar o papel de parede,
a partir lâmpadas,
a riscar os móveis,
a caminhar nua e de saltos altos
para te lembrares que ela tão cedo não sai.

mas tu também não a queres ver fora de ti
porque a saudade é o pouco que te lembras de onde vivias.
sem ela, as memórias eram só histórias
que contarias aos teus filhos,
para eles terem saudades também.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

a idade das trevas

fujo de quem me teve preso.
limpo o sangue aos lençóis que me cobriam
e as lágrimas à camisa rasgada que tenho vestida.
sou indefeso, porque sempre vivi nos olhos de outros
e saí das masmorras para um mundo
onde são todos cegos.

o meu sonho continua aceso
e é a minha luz de presença no escuro
onde continuo com o peso do que sei aos ombros
e olho os que nada sabem com asco
por quererem ser puros
sem saírem dos escombros
nem verem luz que seja.

oh, príncipes do eterno,
só o vosso pensamento é mais breve que a vossa mente.
quem me dera que esta chuva vos lavasse a pureza que não têm,
e vos levasse, para uma terra onde seriam lordes das moscas
e reis dos vossos próprios nojos.

mas não, são sempre os correctos, os perfeitos,
os benditos da razão e os desertores da ignorância,
que percebem tanto da vida
que não sabem que depois da morte apenas há pó.

nada de éter,
nada de castigo,
nada de ilusões,
apenas pó.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

no leito da minha sarjeta/quem me dera

no leito da minha sarjeta

chove. choram as minhas lágrimas outros que não conheço
e até as minhas lágrimas choram as lágrimas que não são delas.

já nada me pertence.
é tudo do tempo
e o tempo já esqueceu o que tem.

não me pertenço.
sou filho de nobres, desolado.
feito de lama, na minha sarjeta
onde penduro molduras,
porque nunca fui rapaz de fotografias,
nem tive memórias para fotografar.

morro.
levanta-se o tempo do seu trono e diz-me
"que foi feito dos teus sonhos?
ao menos tinhas algo para ninguém herdar."
mas vendi-os para comprar esperança.
que depois vendi para comprar pão.
que comi sentado no chão da rua onde não vivo.

quem me dera

luz.
os meus dias são luz
e encho os meus pulmões a celebrar o dia glorioso
que me conduz a um futuro com mais gozo.

mel.
quem me dera ser feito de mel
e matar-me no egoísmo a anular-me do mundo
que tenho anotado num papel nos bolsos rotos
do meu casaco de vagabundo.

rei.
era feliz se fosse rei
e não faria nada, como o bom mestre do ócio
que sou e que sempre serei, refastelado de equinócio
a equinócio.

marasmo.
quase estagno com tanto marasmo
e no entanto já andei por todo o mundo e imundo
que por sorte ou azar meu, culmina num pasmo
em que me lembro que não fui a lado nenhum.

tijolo.
duro e feio como um tijolo
que fez uma casa onde vive gente sempre alegre
e eu olho-os no meu desconsolo, a perguntar-me
se a alegria é fruto de uma febre.

anti-pirético.
quem me dera ser anti-pirético
que curasse a febre desta gente e os livrasse da canseira,
que o mundo e eu somos cépticos e olhamos para vocês
com grande inveja da vossa ingénua cegueira.

que nem vêm o mundo como ele é.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

um ode ao som/as câmaras nas nuvens

um ode ao som

um ode ao som. vou escrever um ode ao som. não vai ser um ode à beleza das teclas do piano, ao contraste do preto com o branco nem ao som quase harmónico que emana. não vai ser um ode ao violino, à delicadeza do braço, à simplicidade do arco e pêlo de cavalo nem ao brilho do verniz. não vai ser um ode à alegria, à tristeza, ao para sempre, ao nunca, a toda a gente nem a ninguém. vai ser um ode ao som. porque a música tem perfeições e imperfeições. ao som ninguém lhe sabe dizer as imperfeições. ninguém lhe sabe dizer se é bonito ou feio. também, se fosse bonito chamavam-lhe música, se fosse feio chamavam-lhe ruído que é bonito aos olhos de mentes transcendentes. desenvolver um culto ao som, seja ele um grito, um choro ao nascer, um silêncio após a pulsação ou o tombo de um morto. adorar o que nunca teve direito a altar, sempre abandonado, deixado para morrer num vale, no rugir do mar, na agonia de um rejeitado, fechado, silenciado mas a ecoar com as lágrimas que caem no chão.

as câmaras nas nuvens

as câmaras nas nuvens,
onde adoram a amplificação
desfazem-se com a chuva
e esculpem o meu caixão.

numa árvore, numa alucinação
induzida p'lo crescimento do barulho.
num barco que flutua p'la interrogação
do que causa nela este marulho.

nada mais que branco, e pedras pesadas
que arrasto comigo, de bengala em punho
até ao vale da morte, que é uma assombração sonhada
que ecoa na minha mente que é só um rascunho,
com uns rabiscos que não são nada nem podem aspirar a ser nada
e um fantasma que diz ser o meu único testemunho
em como estive mesmo aqui, a vaguear por terras afundadas
nos meus olhos fechados e soturnos.

e agradeço a minha dor ao ruído
que já é mais velho que o tempo.
ainda não era deus nascido
e já o ruído tinha um templo.

um monólito que rasgou o chão
e se afirmou, no meio do fumo
como supremo senhor dos que são
senhores de tudo e de todos os túmulos,
que controlam a morte na palma da mão,
como se ela já fosse desprovida de rumo.
controlam fantoches da sua prisão,
sem decência nem prumo.
 só temos de dar graças a um senhor por isto:
ao nosso amigo barulho.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

prosa da paixão

já não há inverno. é uma lenda. agora é só sensações - muitas sensações - desnecessárias. muitos cheiros, muitas cores, muita luz, muitos dissabores, muito tudo, e tudo me atrofia os sentidos. caminho pela rua que vai dar a uma escola onde já andei em tempos. para fugir ao normal, caminho num pedaço de terra, ao lado do passeio, que está à beira de um campo, e mais à frente de uma mata, a ver se encontro um relógio, uma moeda, uma nota de 5 euros, um brinco, um sei lá eu o quê, que sei lá eu quem perdeu. mas nada disso. quanto muito, um ou dois preservativos usados, de algum casal, de alguma paixão de mata. de alguns ou muitos momentos passados, em plena natureza, no íntimo um do outro, a viver o espírito de adolescente delinquente ou de adulto sem juízo.
talvez, quem sabe, foi fruto de algum adultério, de alguma traição, de alguma tragédia familiar. que novelesco, que romanesco! que digno de algum programa de sábado à tarde, que leva as velhas (e novas) cochicheiras a conversas que não acabam sobre o que está mal com a sociedade.
talvez, quem sabe, foi simplesmente fruto de uma noite de prazer carnal, sem roupa mas com a mente vestida e agasalhada, sem partilharem o que torna o ser humano racional.
talvez se arrependam um dia disto. e vão culpar o álcool, o calor do momento, as hormonas agitadas. e vão lamentar o que quer que tenham perdido nessa noite - quer seja virgindade, pureza ou dignidade - para o resto dos tempos.
talvez se orgulhem disto. e vão glorificar esta conquista, ou arquivá-la, junto de todas as outras, num livro preto ou numa mente negra, que não conhece amor.

guerra/ternura

toda uma nação na guerra.
uma geração luta p'la próxima.

uns, por quererem ser mais homens.
outros, por estarem dispostos a deixar de ser para os outros serem.
uns, donos de tabacarias, senhores de mercearias, filhos de pai incógnito e de mãe que não os queria.
outros, mercenários, filhos de generais, gente que teve tudo na vida.

mas na guerra são todos iguais,
é a sobrevivência do mais forte,
mas toda e qualquer morte,
traz dor ao batalhão.
cai um jovem sereno no chão.
de farda vestida,
lê-se no seu colar de latão,
destroçado por uma bala:
"3º esquadrão de infantaria."
o seu corpo pesado, quieto, numa poça de sangue,
é como um chamamento para os amigos soldados,
é um grito de guerra, que multiplica a raiva.
ouvem-se tiros - ainda mais.
o rugir das armas ecoa em campo de batalha,
nada parece tão certo na vida como morrer,
e eles sabem isso.
muitos não vão chegar ao fim do dia, muitos vão perecer.
e só vão ser lembrados numa estátua de um soldado desconhecido,
que nem a geração pela qual lutam sabe quem é.


ternura

mãe, o pai foi embora.
foi para a guerra, que é uma coisa que não percebo,
porque ele sempre me disse que lutávamos numa guerra todos os dias.

mãe, o pai foi embora.
foi para as trincheiras, que é um sítio que não conheço,
mas pelo o que o pai diz não é um lugar onde eu iria.

mãe, o pai foi embora.
foi, mas não queres saber, encharcada em vinha que é mais placebo
que cura para o que vives, ou dizes viver, verdade ou mentira.

mãe, o pai foi embora.
foi e não volta mais, morreu sem direito a enterro.
mas eu vou buscá-lo, vou finalmente fazer algo que há muito queria.

mãe, eu vou embora.
vou para a guerra, para as trincheiras, mas tenho algum medo.
vou para ao pé do pai, mas tu nunca te importaste se eu vivia ou morria.

mãe, eu não volto mais.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

carta de ódio a quem sente e odeia a dor

a suástica presa na tua mente
vida plástica acesa, arde indiferente
criaste a vida, do teu próprio suor,
do ódio levanta-se a tua dor.

rios de lágrimas, tomam o dia
filhos de quem não se queria
erguem monólitos de negra cor
no topo triunfa toda a tua dor.

viveste um manifesto, contra o teu igual.
rogas pragas a deus, a chamar o final
com o teu sofrimento, o teu amor,
com a tua companhia, a tua dor.

o teu testamento, escrito na tua pele
o teu juramento, ecoou pelo céu
"da morte para a vida, da água para o vapor"
da tua sorte tão querida, restou apenas dor.

ainda te lembras quando os portões da tua alma permaneciam inertes?
agora derrubados, foges pisado e destroçado, a aguardar que algo em ti desperte.
acorda a besta, culpaste-nos pela tua ira, suja de putrefacção.
já não é nesta, nem será noutra vida que tiras a outro homem os tempos que virão.

debaixo do chão,
sem ascensão,
não odeias mais, como eu odeio.