sábado, 15 de outubro de 2011

vaguear... (3)

quem diz que um poema tem de ter rimas?
que nos temos de nos prender a palavras
que todos os dias deitamos fora?
quem diz que uma árvore tem de ter folhas verdes?
que não pode vir o outono e levar a vida embora
que nunca foi nossa nem de ninguém?


pois, nem nós resistimos ao frio,
e somos tão fortes, tão resistentes,  tão aquém
de todas as forças e tão acima de todas as fraquezas,
a existir o nosso próprio meio termo:
nem muito vivo, nem muito morto.
nem muito são, nem muito enfermo,
nem no paraíso, nem no horto,
onde morreu quem deu fé,
como se tivesse chegado a viver,
feito de pão e vinho,
que é tão mundano que é sacrilégio,
como qualquer caminho
já apagado do chão por ser tão pisado.


mas foi heresia criada pelo homem,
tal como foi o cerne de tudo imortal
criado por quem já morreu,
e adorado por quem existe no erro ou benção
de quem o trouxe, quem sabe um deus
ou algo tão perto do chão,
como nós.


"Há homens que já nascem póstumos."
Nietzsche

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

as milhas da vida

erguido da bruma,
fez brilhar o dourado no escuro,
numa espécie de azul.

fez muitas milhas,
viveu muitas vidas,
enquanto explorava um mundo
que existia no caos,
calmo e bruto,
produto do momento,
e em 78 rotações por minuto.

nascido num mundo dentro do novo mundo,
de latão em punho.
sons teus a acompanhar-me em noites de solidão,
a deixar silêncios, por breves segundos,
para o ar ser livre também onde a desordem reina.

ó príncipe da escuridão,
pouca alegria se via em ti,
apesar de deitares toda a dor fora com sopros,
uns mais fortes, outros mais graves.
uns que jingavam no próprio som,
outros que choravam,
num berro alto que mal se ouvia,
no meio da tua fama triste,
p'la dor que era tua e dos teus irmãos.


(dedicado ao Miles Davis, 1926 - 1991)

domingo, 9 de outubro de 2011

ego

feio, fútil, fatigado.
fechado no meu próprio fim.
no meio caixão,
confinado às minhas crenças,
calado e quieto.
aquilo que sempre quis mas nunca me foi dado.
sedento por água num qualquer deserto
com um lago a meu lado.
a congelar no evareste
quando ardem em mim mil sóis
cada um mais quente que o seu adjacente,
num círculo em volta de mim.
são eles paixões que sofri, neguei, vivi.
sofri por estupidez,
p'lo meu egoísmo.
neguei por timidez,
por ser eu mesmo.
vivi uma de cada vez,
sozinho no meu solipsismo,
só e abandonado.
só e rodeado de quem me quer bem,
alvo do meu próprio enxovalho.
cansado de dizer a mim mesmo
que sou um idiota e sei-o.
e digo isto com muito orgulho.
aliás, até releio:
sou um idiota e sei-o.
por me por à frente do mundo.

afinal, quem precisa de amigos
quando me tenho a mim?
excêntrico, egoísta, egocêntrico e algo masoquista
por querer o que não posso ter,
sem ânsia de esconder o desejo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

ela (2), ...

ela (2)

    outono, ouro a cobrir as árvores e ela não aparece. ainda me lembro do dia em que a perdi... frio, céu coberto de nuvens, em pleno agosto... nem uma risca de sol se via. um escuro tremendo cobria toda a cidade. as pessoas, aos encontrões, com cachecóis pesados e casacos compridos não se falavam. a olharem para a frente ou para o chão, sem cruzarem olhares nem palavras nem almas. nenhum deles pertencia a ninguém, mas tinham alguém para quem voltar e não sabiam o quão bom era. ela, de mão dada a mim sorriu-me pela última vez nesse dia e éramos os únicos que eram só um no meio de todos.
     ainda me lembro.
     viu uma cara que reconheceu, perseguiu-a e pouco mais me lembro. desapareceu. passaram dias. semanas. meses. nada. continuo sem ninguém em casa para quando volto. continuo sem ninguém que chore por mim quando for. continuo, sem ninguém na multidão, para sermos um. agora sou uma alma, sem trocar sorrisos, nem olhares com ninguém. a comer numa mesa pequena, encostada a uma parede na cozinha, com uma cadeira do outro lado, à espera dela. pratos acumulam-se durante vários dias para chegar um dia em que os parto por acidente, por raiva ou por solidão. ouço, deitado num sofá que tenho desde que me lembro, os carros a passarem, as pessoas a caminhar, aos encontrões, com rumo próprio, sem rumo comum. todas diferentes, todas elas almas.

...

nunca fui um gajo muito dado a pequenos amores
e todos os grandes que tive cabiam-me na palma da mão.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

realidades passageiras, passos esquecidos

realidades passageiras, passos esquecidos
sonhos de vida e mágoa
arrastados, como eu perdidos,
com fado incerto e choro na alma.


tudo passado, sem acabar,
dor que perdura p'los cantos do meu lamento
que é redondo, pintada pelo meu choramingar
em tons de sépia, branco e cinzento,
como um quadro já gasto e esbatido
que já não se vê o que é nem o que sinto.


mas cá viajo e caminho.
por estradas que eu fiz com as mãos
abandonado e sozinho
para chegar a sítios seguros e sãos.
feitos por mim e erguidos por nós
tão juntos agora no escuro
sem sabermos que estamos na foz
da nossa vida, a desaguarmos para o mundo.


sem nada em nós que nos faça flutuar.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

pobre esquizóide.

materializaste-te num sonho teu
fora do corpo, o vagabundo
chama-te doente e irmão de prometeu
atlas, portador do teu mundo.

não conhece o teu mal
nem o teu bem,
nem ninguém que conheça alguém
que saiba o fruto da tua fome,
do deserto d'onde vens,
pobre esquizóide.

mas fizeste de ti mesmo soturno
algo assombroso, filho do fogo
já puseste os pés nos anéis de saturno
e o vadio chamou-te louco.

não sabe quem te fez mal
nem sabe se és alguém
mas tu és rei filho de nenhuma mãe,
que a única que sabe o que te consome
que é feito das ilusões que tens,
pobre esquizóide.

mas és descendente de outros tempos
e dono de sítios que são o teu legado
que são feitos de momentos
em que te tens mantido sozinho e fechado.

e é esse o teu mal
enterrado à espera que te salvem
mas quem deixa um epitáfio para trás,
para quem te dizia apenas "some"
sabemos que ninguém te salvará,
pobre esquizóide.

domingo, 2 de outubro de 2011

vaguear... (2)

o sangue que não derramei,
continua nas minhas veias e artérias...
adormecido,
exausto,
dormente.
a aguardar o momento em que se vê livre de mim
e da minha dor, que só é dor de quem não sabe o que sente.

as lágrimas que não derramei,
continuam nos meus olhos e sonhos....
gastas,
evaporadas,
secas.
a esperar outras dores que as libertem
sem saber que nem eu vou saber quando as sinto.

os passos que não dei,
mantêm-me longe de tudo e de todos...
não porque não pude,
não porque não os soube dar,
apenas por os ter seguido o caminho errado.

em vez de caminhar para o que queria caminhei para o conforto,
que apesar de ser algo que sempre quis
sempre o tive.
em vez de caminhar para o que seria fiquei aqui quedo e morto,
que foi algo que sempre temi
e sempre me perseguiu.
caminhei para o que já tinha, abandonei o meu respeito todo.

nunca assim me vi,
nunca mais me quero ver.