quinta-feira, 31 de maio de 2012

reunião

sentam-se todos, uns d'outros tempos e outros dos d'agora.
e depois, a cruzarem o pensamento, mandando-o para fora,
vivem tempos de outrora.

que destes tempos que se correm já nada se aproveita,
estão todos à espera que d. sebastião esteja à espreita
mas nem de longe vê-lo!, vivem todos num pesadelo
onde são todos alguém e ninguém conhece um sonho que seja.

"eu uma vez conheci um."
"eu soube doutro que ninguém conheceu."
"em fiz parte d'um em comum
com todos os outros mas não era nada meu.
era uma ilusão num ecrã.
era um espetáculo de amanhã..."

e nenhum se lembra de nada,
sofrem de amnésia.
com tudo de mão beijada
e agora na miséria.

"eu ainda me lembro de a levar a jantar fora!
havia tanto para toda a gente...
mas já me falha tudo da memória,
quem sabe se as vendi por pão quente
e meia dúzia de tostões para atestar o carro
que tive de vender para pagar um telhado
que agora nem os meus filhos dão valor, ingratos!,
mas não os culpo, dei-lhes tudo mas nada que valesse lhes foi dado,
o tempo que passei a ser doutor
não passei a ser pai e que remédio o deles se não guardar rancor..."

todos tiraram ficha para a fila da dos degenerados.
de ilustres vitrais sobram apenas cacos.
foram boas decorações, mas para pilares são fracos,
não se constrói uma sociedade a partir pedaços.


quarta-feira, 23 de maio de 2012

o templo, o dragão, o rico e o convidado

o que ronda sobre nós,
sobre as asas do albatroz.
caiu forte no chão:
ergue-se o dragão no meio do panteão.

"que criatura é esta?
levanta garras e sopra fogo,
quer tirar o pouco que nos resta, certamente."
"matemo-la logo!"
"silêncio que ela nos vê!
não sabemos do que é capaz,
nem sequer se lê - que besta ignorante que será."
"nem sei porque a deixamos viver. aliás, sempre que respira queima-nos as cortinas!
só despesas qu'esta besta nos vai trazer."
"queixas e queixas e demais queixas!
é o que dá vir de família fina,
tens convidados e logo os deixas sair!"
"se eu algum dia convidava um monstro sem disciplina!?
aparece sem avisar ninguém e sem bater à porta
e logo me queima a tapeçaria!"
"a besta aqui és tu! és rico mas compraste as maneiras tortas,
no mínimo davas-lhe um chá, parece abalado, veio de grande travessia!"
"vou espetar-lhe uma espada!"
"nem cortar queijo sabes, tens quem corte por ti!"
"para além de estares contra mim és presença mal-criada!"
"pois que de más maneiras percebes tu por mim."
"olha o monstro a fugir!"
"deixa ir, já não é empecilho!"
"muito burocracia, é sempre assim!"
"já seguiu o seu trilho."


"fiquemos e apreciemos a vida sem mais preocupações."


se adão e eva foram os primeiros,
os de escamas foram pioneiros.
eu não sei de nada.
se há um inferno lá no fundo,
é atlas que segura o mundo.
quem sabe mais que nada?
se foi prometeu que nos deu o fogo,
sirineu ajudou o "nosso senhor".
histórias, só histórias.
se é neptuno que comanda os mares,
a vossa guerra é filha de ares.
quem não sabe histórias?

somos prisioneiros da divagação.

ser iluminado é ser demente.
eu só sei que o meu pensamento
ecoa na minha mente.

não foi vontade divina
que me pôs 5 dedos na mão.
o meu povo caminha com a evolução.

se o teu povo foi pelo deserto,
gigantes de gelo foram algo concreto.
eu só sei o que se vê.
se é preciso subornar o homem cão,
a medusa faz-te em pedra com uma visão.
quem não sabe o que se vê?
se um homem fez doze trabalhos,
a proteção do mal são cruzes e alhos.
é cego quem não quer pensar.
se a tua gula é de belzebu,
se sombra na caverna é o que se vê no escuro.
quem não quer pensar?

somos albergadores da divagação.
somos o fruto da evolução.


quarta-feira, 9 de maio de 2012

um copo (procissão)

e vai ao centro e bota a baixo,
e celebra e afoga dores.
é o ritual no qual me encaixo,
venham também, meus senhores.

sigam o rasto e o cheiro a animais
e vão p'la sombra que arde a lua!
ou então sou eu que vejo a mais
no rio onde o reflexo flutua.

é uma vida de espelhos,
parece tudo tão real.
vou a pegar num copo
e cai tudo ao chão.
vamos ao fundo de joelhos
até ao altar real.
tenho direito a um voto para cada decisão.
e deito tudo a perder, que ia eu ganhar?
sou pobre a ser pobre e só de vos olhar
vejo que na miséria, sou senhor e vocês
aí altas, empilhados em merda, estão à minha mercê.

e vem um cheiro fétido
a sémen e suor.
de manhã é tudo angélico
mas agora não é hora
de pensar no que aí vem,
porque não vem porra nenhuma;
expectativas?, quem não as tem?
só não as levanto por coisa alguma.

"vem aí o riquinho,
de charuto na mão
ainda é um menino
e já vai nesta procissão!"


celebramos a vida e a morte,
bebemos um pouco de cada um!
e com alguma sorte
não entornamos nenhum.
seja o copo de madeira
ou o cálice de ouro.
o qu'interessa é que dê pr'á bebedeira,
o qu'interessa é que não seja pouco.
nascemos na miséria, morremos na valeta,
mijamos pelas ruas, chocamos canecas!
o que vai pelo meia é a vida e já só a vejo aos pedaços.
juntem-se a mim nesta lida, sentem-se neste regaço!

no fundo do copo
vejo tudo distorcido
mas pouso-o e o que olho
é apenas o mundo partido!

já caí tantas vezes
que já conheço o chão.
vocês olham-me de pé,
sem conhecerem o que são:

nada mais que calçada, um pedaço de nada.
a viveram na ignorância porque a vossa ganância
é só pela quantidade e nunca pela qualidade.
antes 20 anos livre que 70 cativo no que os outros querem de mim.


domingo, 22 de abril de 2012

o capitão ao mar

ó mar, os teus dias já foram.
fechaste as tuas águas a quem te deu nome!
de ti já só ondas britam,
os filhos de quem te criou passam fome...

somos do mesmo sangue,
da mesma carne, do mesmo espírito
e mandas contra nós as tuas falanges,
só por seres prolongamento do infinito!

céu do céu. da terra, um véu
que tapa as nossas imperfeições.
de tantos homens um mausoléu,
de tantos que se somem, nem visões.

eu, um saco de pele e ossos,
um empecilho, um conceito.
dono e posse de um culto de devotos
que conhece apenas um sujeito:

o mar nosso, o mar de todos!,
repleto de vida e para onde venho morrer.
o grande colosso, o pai do êxodo!,
infinito pr'ós sonhos que vêm aqui ser.

o problema é que os deixamos todos por terra...
o meu sonho de ser capitão ficou n'aldeia
e volto ainda hoje, para junto da serra
onde sonho navegar p'lo irmão da areia.

mas agora que sou o que queria ser
só quero viajar pelas ruas que nem vagabundo.
nada brota daqui, este mar mo fez ver

segunda-feira, 16 de abril de 2012

a passear pelo fundo na superfície

fomos todos para o mundo,
sempre a descer, é bem fundo!,
dei de caras com a vida
sem saber como é merecida.
midas trocou-a por ouro,
nada que não mate!
outros tristes dedicam-n'ao choro,
um complexo do foro da mente,
"ansiamos resgate!
queremos o que já não temos p'la frente!"

chego a toda a parte,
(ser específico não é a minha arte)
e vejo que ao fundo da rua
uma mulher vende noites de loucura!
ela é filha de um pobre na estrada
ou de um magnata sem caminho!
mostra as mamas por nada
mas se queres tocar já vais ter de pagar,
"sou oferecida e dou carinho,
só quero uns trocos e um lugar para gritar!"

vamos lá, siga no andamento!
um vagabundo olha para mim todo sorridente,
com um pote na mão à espera de milagres
quando ele bem sabe que todo o mel é vinagre.
em tempos se calhar até foi senhor,
ou sempre foi um triste à espera.
só não trabalha pelo seu grande amor:
a preguiça e o pó que o desperta.
"andam todos muito ocupados nesta esfera.
eu não atrapalho e fico parado de mão aberta!"

passa por mim o d. engravatado,
tão atarefado!, a voltar para a família de predicados:
um pai e mãe milionários (ausentes para toda a gente!)
um puto mimado (preso ao cómodo com as próprias correntes!)
embarra contra mim de telefone na mão,
só ele sabe tanto sobre o ofício da pressa!
há-de vir-lhe uma qualquer emoção,
qualquer coisa que o gelo que lhe prende as veias não suporte.
"tenho um forte porte e não faço nada, essa é que é essa.
uma vida carregada de ser carregado, é a minha sorte!"

e aí vem ela, toda lançada, sem qualquer receio.
um movimento de ancas que limpa um passeio inteiro.
um decote que realça o que ela quer ostentar,
umas pernas que mostram que o frio não vai no ar.
é louca que nem um chapeleiro,
a mania come-lhe o discernimento,
para ser diva só lhe falta dinheiro,
isso e uma mente dela que não lhe fazia mal.
"ai minhas lindas o meu único lamento
é que nem sei o que vestir para toda a ocasião social."

terça-feira, 20 de março de 2012

simplicidade (complexo humano)

se o tempo é só uma noção, um conceito do homem,
também o é o espaço.
o próprio homem é a sua noção de espaço e tempo.
é assim que sabemos quem somos.

o homem, no lugar, com idade,
que foge fugazmente para onde? nem ele sabe,
corre em frente (ou em conceito de frente), a razão a mim não me cabe,
só sei que onde ele há-de finar, finarei eu, que sou também uma noção de espaço e de lugar.

qu'este suplício acabe!,
e me dê asas de uma qualquer ave,
para ser mais espaço sem que a vida me vaze
deste escaço saco, que já vazio,
sempre teve mais vivências que eu,
só por não ser apenas uma noção e por ser oriundo do seio da terra.

como é homem é fantástico!,
saído da terra, como tudo o resto,
mas superior a todos e a si mesmo!