mente coberta
eu toldo o meu discernimento por opção própria.
deixo de poder distinguir, tudo me parece certo, até o mais ridículo e absurdo.
parece-me a mim perfeitamente lógico chover. Em Agosto.
afinal, se vivo num mundo em que se matam por prazeres (e achamos isto perfeitamente normal), porque é que havia de achar irracional algo tão trivial como a natureza?
guerra
o trovão ecoa pela rua, lembrando os tempos de guerra.
mas era difererente na altura, primeiro ouviamos o barulho dos aviões.
e só depois um clarão.
é tudo o que me lembro.
para lá do para lá do para lá (etc.)
sofro de impaciência crónica.
um minuto demora uma hora a passar quando tenho de esperar.
e ainda assim espero que não passe
porque são os únicos momentos que me dedico a pensar no que haverá para lá da metafísica.
excepção que confirma a regra
por vezes um cliché é a coisa mais impossível de prever.
(excepto em filmes. isso é uma merda)
argumento circular
estou molhado.
faz frio.
quero fogo.
dá-me lume.
estou a arder.
preciso de água.
estou molhado.
faz frio.
voltinhas
toda a gente sabe como acabamos.
poeira. como tudo começou.
luz (erro)
para aqueles que nunca tiveram um momento de força, sou opulento
para aqueles que nunca conheceram fraqueza sou miserável.
para aqueles que nunca olharam ninguém de cima sou um titã
para aqueles que nunca tiveram superiores sou miserável.
para aqueles cujas leis os impediram de viver, sou livre
para aqueles que não se prendem às regras sou miserável.
para aqueles que venderam a mente sei o etéreo
para aqueles que nos controlam sou miserável.
para aqueles que nunca me viram não sou ninguém
para aqueles que nunca me querem ver não existo.
mas ainda bem, porque não sei o que sou.
para além de miserável.
luz (salvação)
vou mudar então.
vou livrar-me do que me prende ao chão e à miséria,
prender-me ao céu com tempos e eras
que nunca vi como alvo de amizade.
ou ódio.
afinal, ao dizer adeus à miséria dei os bons dias à loucura.
despedi-me de tudo a que este mundo me segura.
para vos ver pequenos e miseráveis.
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