quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

o racional do irracional

como posso ser sem ti?
como posso quantificar quem sou sem ter a única constante em todo o meu sentimentalismo racional?

se fosse dois mais dois têm a liberdade de serem quatro,
também nós temos a liberdade de ser apenas um,
ignorando toda a separação possível que infinidades negativas e positivas possam oferecer.

o chão faz tanto parte do nosso mundo
como eu faço do dele: somos apenas suporte um do outro.
mas o teu mundo e o meu,
os nossos diagramas de venn coincidem na perfeição,
revelando um sonho que apenas nós vemos,
longe do palpável e racional.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

política de neo-regressão

olá sol,
olá inverno gelado mas acima de tudo febril,
olá raiar por entre as nuvens de fumo,
olá neblina omnipresente,
olá nébula omnipotente de pensamentos, peças, partes de um todo que por sua vez é parte de um todo.

ouçam-me todos, neste comício pela loucura,
neste comício pelo prazer,
neste hospício para todos nós que pensamos para lá do que se vê e do que há,
nós somos sonhadores no próprio som,
cada nota musical que se propaga por nós é um nó que nos desaperta a mente cada vez,
abraçando todas as noções controversas e as moções imersas numa sincronia em harmonia completa.
nós somos um omniverso.
não, dois. três. mas apenas um de cada vez, propagados um no outro como quando se atira uma pedra para a água
e se vê ondas dentro de ondas,
colidindo com tudo à volta.
nós somos fotografias, monografias, poligrafias, caligrafias e ignorancías que nem se sabem escrever direito.
nós somos uma tabacaria, onde só se vendem sorrisos e fantasias. não, na verdade é um sítio de ócio e pecado. não, na verdade vendemos metafísica,
cuidadosamente enrolada numa mortalha de transcendência,
pronto a fumar e a atingir o nirvana com 3 leves prestações.
nós somos provas concretas da nossa existência, somos pensamentos divididos em momentos divididos em 7 desenvolvimentos: nascer, viver 5 vezes e morrer
muitas vezes para deixar bem claro que cessamos de existir em nós mesmos.
nós somos anáforas. somos repetições. somos eco-eco-eco-eco. somos repetições. eco


somos os jovens que não nasceram.
somos os que já morreram.
somos feitos de gente que (já) não está cá (ainda).

no entanto, somos incrivelmente físicos. niilistas de alma fervente.
presos por correntes às nossas máquinas feitas de deus.
(corpo feito de pensamento.)
solipsistas extremos, rodeados de pensamentos de outros.
(um único rodeado por nada.)
somos dementes e cientes da nossa sanidade mental.
(santidade da ignorância que tudo sabe.)

somos o trigo separado do joio.
somos um cereal killer.
somos um tipo de humor tão rasca que é reservado às mais altas elites, onde reinam a estupidez e a incoerência.
nós, os reles, a ralé, os rascas, os rudimentares, os ridículos, tão mais sentidos nas artes e nos contrastes que as altas sociedades ignoram e:
1º pintam quadros
2º todos pimpões e janotas e fofitos e com umas molduras todas bonitas de uma marca de burguesinhos.
3º só falta pendurarem os quadros sobre a cabeça do povo e dizerem que nos compreendem,
E VOILÀ!
a receita perfeita e cuidadosamente melhorada e adaptada ao longo dos éons para o típico discurso de "não se preocupem, já estabelecemos controlo.",
enquanto o s.s. portugal continua em rota contra o gigantesco fim do mundo plano, que se enquadra tão perfeitamente nas mentalidades das gentes felizes com a situação.

mas felizmente, existimos nós, não é?
a mó de baixo, o moinho que mói as próprias palavras e ideais e sorri à espera de um mundo melhor,
que encomendámos aos senhores que fazem um mundo melhor
só para não nos causar estorvo.

somos nós com muito medo da revolução.
com medo da regressão para o mundo mecânico.
mas ainda mais medo da evolução para um mundo humano, instável e tenebroso.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

samurai/o néscio/dicotomia: eloquência e mais não sei o quê: carta

samurai


"p'la força do sol nascente
desembainha da tua espada
e faz das tuas vítimas 
o teu legado.
que a tua honra prolifere
pelos campos de batalha
e se tiveres de cair,
cai, sabendo que a cor que causaste ao teu adversário
é o prazer da tua morte."


é este o meu hino,
a minha sina.
a maldição com a qual foi abençoado.
ver pais e filhos a tombar a meu lado em guerra,
a geradora de descendentes orfãos e de ascendências desgostosas.


mãe, fui para a guerra para ser homem
mas vim de lá derrotado e de rastos...


como posso ter honra ainda?


voltar da guerra perdida
não passa de cobardia...
condeno-me ao exílio
por ter vergonha de morrer
e medo do que sou:
cavaleiro andante parado na minha desolação,
um isolamento do mundo encarcerado em mim mesmo.
o mundo conheceu-me forte e guerreiro
e nunca mais me viu.
oculto vivo,
em morte.


o néscio


o néscio.
tão boémio,
detentor da sua glória ignóbil e suja,
orgulhoso e envergonhado, perseguido por um passado que ainda o é,
mancha eterna no próprio pensamento,
seguidor cego de um glorioso culto oculto.


o filesteu.
prometeu do nosso tempo
que nos prometeu o fogo dos antigos,
anciões inimigos para nosso bem,
manipansos omniscientes sem noção do mundo,
só concentrados em salvar-nos do fundo
enquanto nos privam da mente que nos deram.




todo o bem do mundo de nada vale quando negamos quem nunca nos deu provas de presença.


dicotomia: eloquência e mais não sei o quê: carta


queridos reis,


com são com vossos luxos?
com os vossos fluxos sanguíneos perfeitos e rosados,
com as numerosas mentes que sonham por vocês
apenas sendo ignoradas?


do povo vim e por cá continuo.
sou parte da tua corte de baixo nível,
da tua sorte azarada,
da tua hipérbole por um mundo melhor (para sua excelência)
e de uma venda para mim.


tudo promessas, tudo em vão, eh.


e eu, o burro a puxar carroças d'oiro,
o cabrão a levar ao colo quem pode voar,
o velho a abrir janelas para a sala cheia de luz!


GRANDE IDIOTA! 


eu, cavaleiro eterno na minha mula,
vos saúdo!,
ó imperadores do opulento reino de merda.


eu sonhador interno e sofredor externo,
sei de todo o mal da pátria e amo-a incondicionalmente.
sei dos escândalos, dos vândalos, das enchentes de corrupção e das sedes por dinheiro.
sei dos patrocínios ocultos, das festas de chá de menino rico, dos patrimónios sujos e da sobreestima dos vossos fatos.
soube das armas e barões assinalados e sei de todas as ruas e estradas mal sinalizadas.
sei de tudo o que valeu pena, não sendo a alma pequena, podendo a alma caber-me na cova de um dente.
sei de todas as mentiras, repetidas e re-repetidas até se tornarem verdade,
sei das vossas auto-condenações, que vos convenceram que ninguém mais o faria.
sei que o vosso discurso nada vos importa, apenas a vossa imagem distorcida.
sei do crédito que rege o vosso mundo que nos tira credibilidade e que ainda nos dá crenças!
sei da vossa vaidade a quem chamam fama.
sei dos vossos apetites de grandeza e da vossa barriga já tão grande que não vê os pequenos.


eu vos saúdo!, e a toda a vossa genialidade e a todos os que ainda acreditam em vocês!
afinal, tanta ingenuidade é motivo de festejo!
qualquer excesso que haja hoje é bom!
muitos bobos, muitos idiotas, muitos promessas, muito ócio, muitos motivos para não ter fé, muitos vivos para pouca terra.
muitos muitos para muitos poucos.


srs. reis,
eu me despeço e vos saúdo,


com um muito saudoso "ide-vos foder",

o patriota. 


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

o velho e o jovem racional

que ciências contas tu, filho?
eu se me sento, sinto o chão frio.

mas tu dizes-me que é só uma transmissão de energia...

então e as memórias?, são o único que me resta!
e é a única coisa que me aquece.
vais-me dizer que os sonhos são também transmissões de energia?

vais-me falar em racionalizações quando tudo o que eu quero é lembrar?
só me faltava a mim ouvir-te dizer que tudo o que vivi foram factos.
TE GARANTO!, que nunca factos me assombrariam.
só erros.
mensagens ocultas do meu subconsciente que gritam comigo,
com vozes agudas e profundas.

e, meu filho, nem eu, nem tu conhecemos erros que são factos, pois não?

quantas vezes me recosto e penso no que amei e que ignoro...
recordo-me das vidas que vivi,
desta cara sem barba, sem metade dos dentes, (como tenho agora!)
mas tão feliz.
tão ignorante,
mas tão feliz.


sábado, 21 de janeiro de 2012

pour vous

perdoa-me ausências.
perdoa-me grandes faltas,
humilhações e noitadas,
meios do dia em vão.
perdoa-me desculpas esfarrapadas...


e por muita admiração que te dedique,
há sempre a ilusão a dar lugar à desilusão,
por isso te dedico o meu perdão,
cuidadosamente embrulhado em confiança machucada.


e dou-te todo o meu amor,
a ti, um culminar de tudo o que eu amo e amarei,
de tão singela natureza.
como todas as partículas do universo presas num copo de água,
tudo de bom no mundo enclausurado num corpo,
harmonioso e simétrico.


e eu sei que não sou rapaz de magistrais afectos
e não sei bem o que é suposto fazer,
por isso escrevo isto para ti.



quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

anel/rei/feiticeiro/anão e elfo/dio/balada

anel

castigaram-te o peito.

o peso de um anel tombou-te o corpo.

o verde que conhecias já ignoras,
só o ouro te conduz e guia pelo escuro,
até ao fogo.

enfrentaste bestas aladas,
fugiste de bestas feitas de lama e lava,
cobertas de ferro e escuridão.

todas elas mais imperfeitas que nós homens,
todas elas mais imponentes que nós monstros.

vinte anéis e apenas um para os governar a todos.
por baixo do céu,
nas câmaras rochosas,
a quem foi destinada a morte
e a quem é feito de escuridão,
um anel para os governar a todos.

rei


num manejo imaculado da espada
mandaste muitos para a morte.
e para tua sorte
caíste para o fim e voltaste
para fazer chover sobre os teus inimigos
nada que não a raiva que eles te deram.

feiticeiro


de cinzento te vestias, mas nunca mais.
agora és branco como a luz que conduzes
nas trevas.

anão e elfo


um machado e trinta metros de determinação
é o que usas como arma.


um arco e nada mais.

em eterna competição,
ambos vencedores.

dio

ajoelhas-te sobre o chão que pisas e sujas
e dedicas rezas a quem não te ouve.

balada

ouço um tiro no escuro,
é sempre bom para dançar.
uma balada feita só de barulho
é o som do mundo a rodar.

será que ninguém ouve
a escuridão que só eu vejo?
ninguém será o que sou,
estou preso no meu desejo.

todo o mundo num segundo,
não passa de um ponto final.
o fim comprimido no fundo da frase,
o conteúdo não é mais fulcral.

somos todos parte de uma balada,
e quem nos escreveu foi quem nos amou.
somos um ajuntamento de peças inacabadas,
um comício de tudo o que foi
e que não nos define mais.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

o americano/adão e eva/tanto

o americano

oh grande herói.
foste tu que nos deste tudo
sem pedir nada.

o teu corpo penetrado por balas mancha o chão dos teus inimigos.

os teus, já fundo no mundo
em putrefacção
choram por ti.

confessaste os pequenos males que te pesavam.

levaste o teu isqueiro.

estavas em paz.
e assim continuarás.

adão e eva


somos feitos de peças soltas
mas onde está a nossa dor?
está espalhada por umas e por outras
manchas sujas, das quais só sobra vapor.

foi tudo ao ar, nada mais resta
e este é tão nocivo como a nossa voz.
a minha civilização é esta
e nem repulsa sinto por nós.

somos todos os primeiros a ser como somos
mesmo sendo cópias do que pensamos ser.
vivemos na boca do lobo
e ignoramos o que nos está a acontecer.

somos comidos, digeridos, dissolvidos por enzimas,
vomitados, castigados e atirados para os fogos magistrais
o que nos resta da mente não é o que fica ao de cima
mas sim o que nos torna exactamente iguais.

somos todos tão vestidos,
tão politicamente correctos,
tão pensativamente desmedidos,
tão mentalmente incertos.
qualquer passo para a inovação
atrasa a nossa mentalidade,
estamos presos ao chão
e a culpa é da nossa enfermidade:

a nossa criatividade é delimitada pelo que os outros pensam...

e eles sofrem do mesmo.

tanto

uma despedida despida de qualquer receio,
nua e para sempre efémera.
presa num momento.
o que temos em mente é o que somos
e nunca o que era.

só a gente se veste tanto.

um orgasmo residente no futuro.
um organismo sozinho e distante.
nada nos resta.
apenas nos tapa a vergonha um manto.

só a gente complica tanto.

o céu coberto de tormentos
torna o sol  numa miragem.
é tudo claro quando não sonho
e reduzo a minha mente a uma imagem.

só a gente se obscura tanto.

será que somos só memórias numa vagem?
uma viagem na margem de um rio
intrinsecamente viajado e conectado por pontes de água
que me lembram que os meus neurónios
só me servem de castigo.

só a gente se lembra tanto.
só a gente se analisa tanto,
como se a introspeção trouxesse respostas.