quarta-feira, 23 de maio de 2012

o templo, o dragão, o rico e o convidado

o que ronda sobre nós,
sobre as asas do albatroz.
caiu forte no chão:
ergue-se o dragão no meio do panteão.

"que criatura é esta?
levanta garras e sopra fogo,
quer tirar o pouco que nos resta, certamente."
"matemo-la logo!"
"silêncio que ela nos vê!
não sabemos do que é capaz,
nem sequer se lê - que besta ignorante que será."
"nem sei porque a deixamos viver. aliás, sempre que respira queima-nos as cortinas!
só despesas qu'esta besta nos vai trazer."
"queixas e queixas e demais queixas!
é o que dá vir de família fina,
tens convidados e logo os deixas sair!"
"se eu algum dia convidava um monstro sem disciplina!?
aparece sem avisar ninguém e sem bater à porta
e logo me queima a tapeçaria!"
"a besta aqui és tu! és rico mas compraste as maneiras tortas,
no mínimo davas-lhe um chá, parece abalado, veio de grande travessia!"
"vou espetar-lhe uma espada!"
"nem cortar queijo sabes, tens quem corte por ti!"
"para além de estares contra mim és presença mal-criada!"
"pois que de más maneiras percebes tu por mim."
"olha o monstro a fugir!"
"deixa ir, já não é empecilho!"
"muito burocracia, é sempre assim!"
"já seguiu o seu trilho."


"fiquemos e apreciemos a vida sem mais preocupações."


se adão e eva foram os primeiros,
os de escamas foram pioneiros.
eu não sei de nada.
se há um inferno lá no fundo,
é atlas que segura o mundo.
quem sabe mais que nada?
se foi prometeu que nos deu o fogo,
sirineu ajudou o "nosso senhor".
histórias, só histórias.
se é neptuno que comanda os mares,
a vossa guerra é filha de ares.
quem não sabe histórias?

somos prisioneiros da divagação.

ser iluminado é ser demente.
eu só sei que o meu pensamento
ecoa na minha mente.

não foi vontade divina
que me pôs 5 dedos na mão.
o meu povo caminha com a evolução.

se o teu povo foi pelo deserto,
gigantes de gelo foram algo concreto.
eu só sei o que se vê.
se é preciso subornar o homem cão,
a medusa faz-te em pedra com uma visão.
quem não sabe o que se vê?
se um homem fez doze trabalhos,
a proteção do mal são cruzes e alhos.
é cego quem não quer pensar.
se a tua gula é de belzebu,
se sombra na caverna é o que se vê no escuro.
quem não quer pensar?

somos albergadores da divagação.
somos o fruto da evolução.


quarta-feira, 9 de maio de 2012

um copo (procissão)

e vai ao centro e bota a baixo,
e celebra e afoga dores.
é o ritual no qual me encaixo,
venham também, meus senhores.

sigam o rasto e o cheiro a animais
e vão p'la sombra que arde a lua!
ou então sou eu que vejo a mais
no rio onde o reflexo flutua.

é uma vida de espelhos,
parece tudo tão real.
vou a pegar num copo
e cai tudo ao chão.
vamos ao fundo de joelhos
até ao altar real.
tenho direito a um voto para cada decisão.
e deito tudo a perder, que ia eu ganhar?
sou pobre a ser pobre e só de vos olhar
vejo que na miséria, sou senhor e vocês
aí altas, empilhados em merda, estão à minha mercê.

e vem um cheiro fétido
a sémen e suor.
de manhã é tudo angélico
mas agora não é hora
de pensar no que aí vem,
porque não vem porra nenhuma;
expectativas?, quem não as tem?
só não as levanto por coisa alguma.

"vem aí o riquinho,
de charuto na mão
ainda é um menino
e já vai nesta procissão!"


celebramos a vida e a morte,
bebemos um pouco de cada um!
e com alguma sorte
não entornamos nenhum.
seja o copo de madeira
ou o cálice de ouro.
o qu'interessa é que dê pr'á bebedeira,
o qu'interessa é que não seja pouco.
nascemos na miséria, morremos na valeta,
mijamos pelas ruas, chocamos canecas!
o que vai pelo meia é a vida e já só a vejo aos pedaços.
juntem-se a mim nesta lida, sentem-se neste regaço!

no fundo do copo
vejo tudo distorcido
mas pouso-o e o que olho
é apenas o mundo partido!

já caí tantas vezes
que já conheço o chão.
vocês olham-me de pé,
sem conhecerem o que são:

nada mais que calçada, um pedaço de nada.
a viveram na ignorância porque a vossa ganância
é só pela quantidade e nunca pela qualidade.
antes 20 anos livre que 70 cativo no que os outros querem de mim.


domingo, 22 de abril de 2012

o capitão ao mar

ó mar, os teus dias já foram.
fechaste as tuas águas a quem te deu nome!
de ti já só ondas britam,
os filhos de quem te criou passam fome...

somos do mesmo sangue,
da mesma carne, do mesmo espírito
e mandas contra nós as tuas falanges,
só por seres prolongamento do infinito!

céu do céu. da terra, um véu
que tapa as nossas imperfeições.
de tantos homens um mausoléu,
de tantos que se somem, nem visões.

eu, um saco de pele e ossos,
um empecilho, um conceito.
dono e posse de um culto de devotos
que conhece apenas um sujeito:

o mar nosso, o mar de todos!,
repleto de vida e para onde venho morrer.
o grande colosso, o pai do êxodo!,
infinito pr'ós sonhos que vêm aqui ser.

o problema é que os deixamos todos por terra...
o meu sonho de ser capitão ficou n'aldeia
e volto ainda hoje, para junto da serra
onde sonho navegar p'lo irmão da areia.

mas agora que sou o que queria ser
só quero viajar pelas ruas que nem vagabundo.
nada brota daqui, este mar mo fez ver

segunda-feira, 16 de abril de 2012

a passear pelo fundo na superfície

fomos todos para o mundo,
sempre a descer, é bem fundo!,
dei de caras com a vida
sem saber como é merecida.
midas trocou-a por ouro,
nada que não mate!
outros tristes dedicam-n'ao choro,
um complexo do foro da mente,
"ansiamos resgate!
queremos o que já não temos p'la frente!"

chego a toda a parte,
(ser específico não é a minha arte)
e vejo que ao fundo da rua
uma mulher vende noites de loucura!
ela é filha de um pobre na estrada
ou de um magnata sem caminho!
mostra as mamas por nada
mas se queres tocar já vais ter de pagar,
"sou oferecida e dou carinho,
só quero uns trocos e um lugar para gritar!"

vamos lá, siga no andamento!
um vagabundo olha para mim todo sorridente,
com um pote na mão à espera de milagres
quando ele bem sabe que todo o mel é vinagre.
em tempos se calhar até foi senhor,
ou sempre foi um triste à espera.
só não trabalha pelo seu grande amor:
a preguiça e o pó que o desperta.
"andam todos muito ocupados nesta esfera.
eu não atrapalho e fico parado de mão aberta!"

passa por mim o d. engravatado,
tão atarefado!, a voltar para a família de predicados:
um pai e mãe milionários (ausentes para toda a gente!)
um puto mimado (preso ao cómodo com as próprias correntes!)
embarra contra mim de telefone na mão,
só ele sabe tanto sobre o ofício da pressa!
há-de vir-lhe uma qualquer emoção,
qualquer coisa que o gelo que lhe prende as veias não suporte.
"tenho um forte porte e não faço nada, essa é que é essa.
uma vida carregada de ser carregado, é a minha sorte!"

e aí vem ela, toda lançada, sem qualquer receio.
um movimento de ancas que limpa um passeio inteiro.
um decote que realça o que ela quer ostentar,
umas pernas que mostram que o frio não vai no ar.
é louca que nem um chapeleiro,
a mania come-lhe o discernimento,
para ser diva só lhe falta dinheiro,
isso e uma mente dela que não lhe fazia mal.
"ai minhas lindas o meu único lamento
é que nem sei o que vestir para toda a ocasião social."

terça-feira, 20 de março de 2012

simplicidade (complexo humano)

se o tempo é só uma noção, um conceito do homem,
também o é o espaço.
o próprio homem é a sua noção de espaço e tempo.
é assim que sabemos quem somos.

o homem, no lugar, com idade,
que foge fugazmente para onde? nem ele sabe,
corre em frente (ou em conceito de frente), a razão a mim não me cabe,
só sei que onde ele há-de finar, finarei eu, que sou também uma noção de espaço e de lugar.

qu'este suplício acabe!,
e me dê asas de uma qualquer ave,
para ser mais espaço sem que a vida me vaze
deste escaço saco, que já vazio,
sempre teve mais vivências que eu,
só por não ser apenas uma noção e por ser oriundo do seio da terra.

como é homem é fantástico!,
saído da terra, como tudo o resto,
mas superior a todos e a si mesmo!


quarta-feira, 14 de março de 2012

democracia dos foragidos da lei/hipocrisia-apresentação do homem-gott ist tot-(cego)

democracia dos foragidos da lei

um rugir ecoa pelo meu corpo.
uma sensação não processada, sem quaisquer alterações,
atravessa-me a alma.
sinto-me tão irracional como os primeiros.
sinto-me a ser feito de suposições,
que foram geradas por teorias
que foram geradas por dogmas incertos.

e cismo na minha cisma.
insisto na minha persistência.
duvido das minhas dúvidas que, sendo refutadas por gente igual a mim, não são sequer o que eu sei que são.
são tretas balbuciadas por um ignorante.
são coisas.

se proteste sou decerto um louco,
mas se me calo sou volátil!

vivo num debate constante se hei-de ser barro ou pedra.
se hei-de ser maleável e mal-tratável e suprimível ou ignorado no vosso caminho para um futuro melhor!
de que vale ter livre arbítrio se ninguém me ouve?
sou só mais uma boca protestante.
sou só mais um manifesto com pernas.
sou uma besta sem educação, um perdido sem um papel para pendurar na parede como certificado de inteligência.
sou só uma personagem sem um cupão que diz:
"tem direito a uma opinião válida."
que feliz que eu era, se os nossos senhores doutores me ouvissem!
vestia o meu melhor trapo, com uma laçarote e tudo!,
e lá ia eu, inteiramente e infinitamente sabedor e conhecedor:
um verdadeiro génio da auto-estima, um perito na preservação de mim mesmo, o grão mestre das artes arcaicas da inveja,
o juíz final! o dono do eterno!
seria monoteísta se me adorasse a mim mesmo!
seria panteísta se fosse tudo!
seria agnóstico se fosse e não fosse!

AI o que eu seria se fosse um senhor doutor!
mas não...
isto não é nenhuma era de ouro ou prata ou bronze ou cobre:
são os tempos do pobre, dois zero doze, tempo da falta e época dos roubos.
meu povo, eis o vosso futuro capitalista e liberal, 
onde o pobre já não tem sonhos porque os trocou por pão,
onde nos são servidos ideais de igualdade
acompanhados de um prato de discrepância social.

ó meus príncipes, somos os vossos escravos piegas,
que vivem as dores que vocês praguejam
perto do dia em que sobem ao pódio
para parecerem preocupados com o chão que pisam,
com os vossos sapatos de sola imundos e valores, defuntos e corruptos, arrastados e maltratados.

são esses os vossos estudos, as vossas ciências!
incoerências e incongruências;
as artes do ego subliminar e todas as suas magias do oculto;
os dialectos da piedade com um sotaque de crueldade,

um liberalismo confinado,
uma sociedade igualmente discrepante,
a divisão do todo por uma parte apenas,
o fechar de uma cena com a actuação a meio,
despedimentos em massa,
transições, transações, translações, rotações e já se foi outro ano de supremacia dos burgueses da política.

o tempo flui com uma naturalidade incrível e nós permanecemos estagnados.
o templo rui e caí toda a humanidade susceptível e nós vemos fascinados.
como uma boa tragédia, deve ser apreciada!
a nossa nova estratégia de como governar a nossa vida depois de conquistada:
já não somos nada.

hipocrisia-apresentação do homem-gott ist tot-(cego)

"não matarás", proclama o seguidor,
enquanto limpa as mãos de sangue.
"o suplício dos vossos irmãos é a vossa dor
e quem não o ame,
mestre do ofício da santa religião,
sinta o furor da lâmina do nosso senhor."

"não roubarás", fala o tutor,
enquanto arruma os pertences de outros.
"a riqueza nada nos diz, mas se todo o ouro for
será mui pouco,
a pobreza de vós, meus filhos,
dá-vos o dom de ''ser inferior'' no reino
do nosso senhor."

"meus filhos,
contemplem a criação do nosso senhor,
o seu ex lubris racional,
dono de livre arbítrio mas a seguir as leis do criador,
amado incondicionalmente mas apenas se bem mandado for!
venham, juntem-se ao culto da sombra do homem defunto.
sejam filhos do vulto, vivam nos escombros do mundo."

"o salvador é a luz, mesmo que dele só reste escuro...
omnisciente de natureza!,
mas necessita de provas de fé.
omnipresente,
mas adorado apenas em locais de culto!"

(será falha minha ser inerte à luz ou culpa das incoerências?)

(ceguei-me por não suportar a criação do homem que o criou.)


tribute to friedrich nietzsche.