sexta-feira, 30 de setembro de 2011

existi (?)

quantas vezes fechei os olhos de noite
só para os abrir de manhã e ser dia?

(e nada mudar.
mantém-se a mesma monotonia...
podia ter frio.
ou calor.
mas o frio é algo que eu crio,
para criar algum furor.
e o calor...
há quanto tempo não o sinto,
porque sou só eu,
egoísta e navegante
p'los meus mares,
à procura de sei lá eu o quê...)


será que existi?
o tempo andou sem mim.
(e eu sem ele, que o tempo só é bom quando se é velho e se tem tempo para o aproveitar)
andaram todos vocês sem mim.
(e eu continuei a navegar, p'los meus mares...)
nesses tristes momentos
(que são muito mais que momentos)
que passei tão só e capitão da minha nau,
livre de qualquer pensamento
(e se calhar até pensei e não o sei).


mas agora estou em casa,
no meu nada, tão aconchegado
num quarto que sou eu...
num quarto branco, na ausência das cores.
num quarto branco, rodeado de luz.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

senhoras da biblioteca/pessoa

senhoras da biblioteca


"passas, mas só desta vez!"
dizem elas num tom pomposo,
senhoras de si mesmo
e donas de todos nós (ou pelo menos agem como tal).
a decidir que liberdades cabem a quem,
quando a ninguém deviam caber,
a escrutinar a paciência, a exigir silêncio
quando as próprias bocas parecem não conhecer
tal suplício, que mesmo por momentos, é um castigo extenso.


ao menos eram justas, e praticavam o que pregam!


mas a hipocrisia já as tomou por garantidas
e elas nada fazem, estão tão bem com o mal que não contrariam.
mas quem me dera a mim,
após dar entrada na terra do demo
(que quer haja, quer não haja, é para onde vou)
e ao aproximar-me das portas do meu mundo que alguém fez,
dizerem-me num tom pomposo
"passas, mas só desta vez!"


pessoa


oculto.
escondido em Campos que reflectem a tua angústia,
a tua revolta com a vida que deitaste para o chão
mas isso é outra história,
que o teu outro eu escreveu,
num poema de 4 páginas, que vai para lá do que é
ou o do que podia ser.
e no entanto, é tão palpável como tudo.
que tantas vezes chamaste de nada.


e foste também pastor,
um homem da natureza
que é tão inconstante e abstracta
como o que tu és.
ou eras.
agora és concreto, varrido de mente e d'alma.
nada mais que poeira e ossos
se é que ainda duram
como o que escreveste dura.


e foste também pessoa na rua dos Douradores
onde foste alma e aclamavas o que pensavas
e da tua falta de calma surgiram textos
todos eles no mesmo contexto,
sem nada em comum,
que contam a história do teu pensamento
que só por si é um elemento baseado em memórias
que foram contigo e com o tempo,
para lá da metafísica.





domingo, 25 de setembro de 2011

cartas em tempo de guerra/bons tempos

cartas em tempo de guerra

de: ele
para: ela

querida ela,

cheguei são e salvo a esta terra maldita
ou talvez não seja assim tão má.
realmente tem um cenário degradado,
a paisagem, ardida e bombeada,
os sonhos de famílias, apagados e esborratados
numa tela já toda pintada,
de negro e tristeza.
espero que isto te chegue,

do para sempre teu,
ele


de: ela
para: ele

querido ele,

a tua carta chegou-me meu amor,
apesar de riscada pela censura.
não sei como são os cenários...
nem as paisagens... 
nem os sonhos de ninguém,
já nem os meus os sei,
agora que partiste.
espero que voltes, ver-te-ei chegar da minha janela

da para sempre tua,
ela


de: ele
para: ela

querida ela,

terei mais cuidado no que digo e no que faço.
nunca pensei ter tanta vontade de não pensar,
esta guerra traz-me tantas dúvidas.
estará tanto mal contra a nossa pátria
neste sítio apenas?
será necessário fazermos chover mísseis
e cuspirmos vinte mil balas por segundo
sem qualquer repreensão?
somos assim tão donos do mundo,
que nos esquecemos que todos somos uma nação?
soe isto lamechas ou não,
é tudo o que eu sinto,
e te garanto que não minto.
responde-me mais uma vez,
espero que o meu amor por ti nunca gele.

do para sempre teu,
ele


de: ela
para: ele

querido ele,

a censura comeu-te muitas das palavras,
mas não interessa.
a distância já é demais para mim,
o tempo sem um homem já de mais para mim,
a falta do que nós éramos já é de mais para mim.
encontrei outro homem, não vale a pena escreveres mais.
não posso dizer que não te amo, porque a chama ainda é intensa,
mas já não suporto ouvir mais os teus ais.
a saudade de calor era imensa.
e qualquer crença que eu tinha em amor já se foi.
agora qualquer momento de emoção,
noites de paixão, são o que me alegram o dia.
o meu cheiro agora já está noutra lapela,

da nunca mais tua,
ela


de: ele
para: ela

querida ela,

marcaste-me como nenhuma mulher me marcou.
pensava que o sentimento era mútuo,
que eras uma mulher com classe e cabeça.
mas afinal, como muitas outras não passas de uma puta.
meretriz, rameira, flausina, mulher de infame ofício.
o que é de certo modo uma ofensa a quem vende prazer,
porque tu o dás, de graça, como se fosses uma amostra.
e costumavas ser tão querida...
tão inocente, nada indecente...
não sei que foi que te plantaram na mente,
para te fazeres tão cabra.
que força macabra fez isto à única mulher que amei.
e perdi-a. perdi-te a ti.
e fica triste por saber que ainda me amas,
mas que não fizeste o esforço de te manteres a meu lado.
e se por mim que me amas, não tentas sequer,
quantas mais relações vais espezinhar para obteres o que queres?

ouço do longe os aviões a chegar,
um ataque é iminente, não tenho muito tempo.
se eu morrer agora, o amor ainda não se foi,
mas odeio-te intensamente.
não sou homem de maldições, 
mas que a minha morte toda a tua paixão sele!

da morte para sempre tua,
d'ele.


bons tempos

saio pela porta.
tudo igual, tudo se mantém, tudo indiferente a tudo o resto,
a coexistirem em perfeita harmonia.
excepto uma coisa:
um pássaro morto.
que era o pior que me acontecia há muito tempo.
também era o melhor.
o que é algo triste.
antes escrevia sobre amor.
ou dor.
que são palavras tão usadas que já me causam uma certa impressão de ver (e escrever).

mas escrevia também sobre força e fraqueza,
sobre o mais nobre dos homens e sobre o mais reles da pobreza.
sobre o quão a vida me pesava nos ombros e me obrigava a rastejar
e sobre o quão a vida me elevava de escombros e me atirava ao ar.
sobre a partida de todos aqueles com quem partilhei memórias e amei
e sobre a chegada de todos aqueles que me roubaram histórias e odiei.
sobre outros poemas que li e canções que ouvi que me deram inspiração para escrever
e sobre algo que nunca soube bem o que era, que sou eu mesmo, que está lentamente a desaparecer...


mas agora...
escrevo sobre o que costumava escrever.

e sobre um pássaro morto.



quinta-feira, 22 de setembro de 2011

perdidos 2

eterno

sangue a jorrar pelas paredes
por onde me vigiam olhos mudos
a especar-me, a acusar-me sem falar,
a obrigar-me a enrolar
tudo o que eu sei num feto que nasce do céu
que é o que eu vejo no meu reflexo.

o menos afortunado...

caiem imagens dos teus olhos que foram cegos toda a vida.
cai raiva da tua alma que foi imaculada toda a vida.
cai suor da tua pele que foi limpa toda a vida.
e cai tristeza de ti, como sempre caiu.
e abriu mares frios, que só por si já eram gelados
de muitos outros menos afortunados.

... ignora...

a minha mente ergueu questões às quais nunca respondi.
não por não poder, mas por não querer,
para conservar a minha sanidade
que depende do que muitos chamariam de inocência.
que não passa do mal que ainda não descobri em mim.

... vive!

levantei-me do pedaço de cartão que eu tão amavelmente chamo de cama e enfrentei o mundo. larguei o jornal que me cobria o corpo e tirei pedaços de carvão dos bolsos que já mal tenho e escrevi:"sinto que hoje vai ser um bom dia."

The Little Match Seller

acendi um fósforo e nele vi tudo o que nunca tive.
calor.

Um Segundo

passei por ti e esboçaste um sorriso.
eu sorri de volta.
e em menos de um segundo materializou-se na minha cabeça
um número ridículo de imagens e sensações,
que já não via, nem sentia, nem imaginava sequer
ainda reter tais memórias (serão ilusões?).
e voltou a dor.
naquele segundo voltou todo o ardor
que em tempos de amor senti.
ou se calhar era paixão.
ou talvez não passou de luxúria
e estupidez.
mas senti.

passei por ti e esboçaste um sorriso.
que era mais cinismo que sorriso
que era mais o que tu és que aquilo que costumavas ser.

éter

passaste a vida a colocar troféus em prateleiras
a mostrar sucessos,
a exibir forças,
a realçar poder.
a esconder fraquezas e humilhações,
a omitir rejeições.
a empurrar para debaixo do tapete injúrias e calúnias.
a fingir que és feito da quinta essência.

alice

supernovas cobrem o céu e desfazem-se com o vento
que por sua vez te engana e diz que se chama alice.
e vai contigo atrás do coelho pela toca
mas em vez de maravilhas vês apenas um rapaz a chorar num canto,
com um gato ao colo que diz:

"nada no mundo é mais puro que a tristeza e mais sujo que lágrimas
por isso é que te vejo tão puro e tão sujo ao mesmo tempo
foi a vida que te trouxe paixões íntimas
e tas tirou por capricho próprio para teu lamento.
mas não devias chorar, não passas de uma criança
em que é que o teu choro pode afectar o mundo?"
em nada. mas posso sempre ter alguma esperança
que quem sabe erguem-se os meus queridos do solo imundo
"e aí ficas feliz, pobre criança?"
nunca, porque já fui feito d'um sonho intenso
e para lá voltarei, onde vejo espanha, frança,
tudo volta num sopro de incenso.

dito isto, deitei-me no chão e deixei que me levassem.
já passei tempo demais na realidade
a achar o que não encontrei nos sonhos:
uma ponta de humanidade.
mas nada encontrei
e daqui não saio com saudade
que é uma palavra tão terna que só eu sei
tão inimiga da eternidade...

retrato do fim

um cheiro nauseabundo.
um cheiro reles a merda, sangue e suor
num beco nos cantos do submundo
com a distinção clara do antes e depois.

à minha direita, com raiva nos olhos
satanás invoca pragas e injúrias ao lado por onde se ergue o sol
por onde desce a mão de deus
para me salvar da minha própria salvação,
dos meus poucos e pequenos apogeus.

e ri-se lúcifer da minha miséria
do meu triste orgulho
que não só é dele como é ele mesmo
e enche o que resta de mim de entulho.
porque os valores de hoje em dia são coisa de gente rica.
e mamon concorda comigo, com a minha sede.
e com a minha fome.
e com a minha sensação de tudo me parecer distante,
por muito intenso que seja o momento.

e não se vai o cheiro a merda, sangue e suor.
porque é o lugar para onde tudo o que morre vem...
num beco nos cantos do submundo.








(dedicated to Collin de Plancy)

bala

pela manhã, levaste uma bala no bolso,
igual a todas as outras que eu e tu já vimos.
a única coisa palpável que tinhas em toda a tua vida.
que não fosses tu mesmo, que já não era certo p'la tua idade.

era a bala que restava,
que não tinha sido disparada,
por mero arrependimento de todas as outras
que tinham furado paredes.
e crânios.

e a bala lembra-te os teus erros
e impede-te de os fazeres de novo.
agora que é
a solidão tua única companhia
a esquizofrenia a tua única razão
as incertezas como os teus juramentos
o silêncio a tua fala
e uma folha em branco como o resumo da tua vida
que já foi tão amachucada que não resta nada dela.

e a tua bala como a tua ajuda.

vaguear...

sou rude, vulgar, banal, incoerente, previsível, hipócrita.

sou demente, para mente, com muito amor de mente.
sou contra a democracia, contra a monarquia, e contra a anarquia
sou contra a opressão e contra a liberdade de expressão
sou contra a modernização.
sou contra a evolução.
apoio fortemente o progresso,
insisto na vitória do regresso ao bom velho,
que nunca mais o vi desde que me perdi
a mim e ao meu retrato de quando era eu o bom velho
que se tornou uma palavra feia p'las bocas que a disseram.