quinta-feira, 22 de setembro de 2011

retrato do fim

um cheiro nauseabundo.
um cheiro reles a merda, sangue e suor
num beco nos cantos do submundo
com a distinção clara do antes e depois.

à minha direita, com raiva nos olhos
satanás invoca pragas e injúrias ao lado por onde se ergue o sol
por onde desce a mão de deus
para me salvar da minha própria salvação,
dos meus poucos e pequenos apogeus.

e ri-se lúcifer da minha miséria
do meu triste orgulho
que não só é dele como é ele mesmo
e enche o que resta de mim de entulho.
porque os valores de hoje em dia são coisa de gente rica.
e mamon concorda comigo, com a minha sede.
e com a minha fome.
e com a minha sensação de tudo me parecer distante,
por muito intenso que seja o momento.

e não se vai o cheiro a merda, sangue e suor.
porque é o lugar para onde tudo o que morre vem...
num beco nos cantos do submundo.








(dedicated to Collin de Plancy)

bala

pela manhã, levaste uma bala no bolso,
igual a todas as outras que eu e tu já vimos.
a única coisa palpável que tinhas em toda a tua vida.
que não fosses tu mesmo, que já não era certo p'la tua idade.

era a bala que restava,
que não tinha sido disparada,
por mero arrependimento de todas as outras
que tinham furado paredes.
e crânios.

e a bala lembra-te os teus erros
e impede-te de os fazeres de novo.
agora que é
a solidão tua única companhia
a esquizofrenia a tua única razão
as incertezas como os teus juramentos
o silêncio a tua fala
e uma folha em branco como o resumo da tua vida
que já foi tão amachucada que não resta nada dela.

e a tua bala como a tua ajuda.

vaguear...

sou rude, vulgar, banal, incoerente, previsível, hipócrita.

sou demente, para mente, com muito amor de mente.
sou contra a democracia, contra a monarquia, e contra a anarquia
sou contra a opressão e contra a liberdade de expressão
sou contra a modernização.
sou contra a evolução.
apoio fortemente o progresso,
insisto na vitória do regresso ao bom velho,
que nunca mais o vi desde que me perdi
a mim e ao meu retrato de quando era eu o bom velho
que se tornou uma palavra feia p'las bocas que a disseram.

poema de amor (está fraco)

não és nada mais que mel (ou pelo menos eras)
que me adoça os sonhos noite após noite
a tornar tolerável o escuro, vez após vez.
no entanto não passas de fel (e digo fel p'la beleza literária, se não chamar-te-ia de merda)
que me perpetua a realidade
até mais mais não
a nós os três.

eu, tu e o meu outro eu (que não passa de notas de autor entre parênteses)
que fala por entre o que eu digo
(como se fosse besta racional)
(como se soubesse o que dizia)
(como se soubesse que era eu quem manda no outro eu)

e acho que começo a gostar de ti mais do que era suposto
dos teus olhos
da tua boca
(da imagem que eu tenho de ti)
dos teus (mas mais dos meus) sonhos
(porque nunca soube dos teus sonhos)
(do que a minha mente fez com que tu parecesses)
e dou-te um poema de amor porque te acho perfeita em tudo.
                      (porque te acho perfeita em tudo o que fiz de ti)
                                                                    (isso, e nada mais.)











não dedicado a ninguém em especial, um desabafo apenas.
                                                                               (digo eu.)

lamentos do pobre velho

quem és tu jovem cara, cheia de dor?
meu filho? pois já nem te reconheço, com cara diferente.
e bem sei que notas diferenças na tua cara, chamas-me a mim velho
mas o que a idade me fez a mim a má vida te fez a ti.

e se bem que já não tenho a melhor das memórias.
nem o melhor da minha visão.
nem o melhor de mim mesmo.
mas te garanto meu filho, que não eduquei nenhum cabrão,
nenhum homem que mereça menosprezo p'las más escolhas que tomou.

e no entanto tenho-te em tão boa estima.
em tão alto pedestal, ao lado dos grandes senhores desta família.
como os teu pais.
que ou por azar ou por acaso já não estão cá.
e ficas aqui tu a ouvir os meus ais.
qu'eles foram antes de tu saberes o que era essa tua vida má.

mas vá vai-te lá embora, que eu m'entretenho aqui com este espelho.
a ver que já nem a mim me reconheço
a ver que sou só eu aqui comigo
a ver como o tempo me lavou a cara de beleza.

a minha sorte é que já nem sei o que isso é.

eu venho de outro tempo

uma vida inteira a ser cuidadoso
para chegarem vocês e causarem o meu enterro.
uma vida inteira e já sou idoso
para fazerem do que eu fiz um completo degredo.

já de olhos desfeitos, vejo-vos a vocês
a mutilarem-se uns aos outros
cabeças em espinhos, cobertas de sangue
os vivos liderados p'los mortos.

uma esfera de ossos que se levanta do chão
enclausura-me como minha recompensa
foram vidas tiradas nos bons velhos tempos
em que razão era violência!

ensina-me a respirar
qu'esta falta d'ar já não é do meu tempo
tudo erguido do mar
e agora voltamos p'ra lá, trevas erguem-se do vento.

eu já não percebo nada.

perdidos

mente coberta

eu toldo o meu discernimento por opção própria.
deixo de poder distinguir, tudo me parece certo, até o mais ridículo e absurdo.
parece-me a mim perfeitamente lógico chover. Em Agosto.
afinal, se vivo num mundo em que se matam por prazeres (e achamos isto perfeitamente normal), porque é que havia de achar irracional algo tão trivial como a natureza?

guerra

o trovão ecoa pela rua, lembrando os tempos de guerra.
mas era difererente na altura, primeiro ouviamos o barulho dos aviões.
e só depois um clarão.
é tudo o que me lembro.

para lá do para lá do para lá (etc.)

sofro de impaciência crónica.
um minuto demora uma hora a passar quando tenho de esperar.
e ainda assim espero que não passe
porque são os únicos momentos que me dedico a pensar no que haverá para lá da metafísica.

excepção que confirma a regra

por vezes um cliché é a coisa mais impossível de prever.

(excepto em filmes. isso é uma merda)

argumento circular

estou molhado.
faz frio.
quero fogo.
dá-me lume.
estou a arder.
preciso de água.
estou molhado.
faz frio.

voltinhas

toda a gente sabe como acabamos.
poeira. como tudo começou.

luz (erro)

para aqueles que nunca tiveram um momento de força, sou opulento
para aqueles que nunca conheceram fraqueza sou miserável.

para aqueles que nunca olharam ninguém de cima sou um titã
para aqueles que nunca tiveram superiores sou miserável.

para aqueles cujas leis os impediram de viver, sou livre
para aqueles que não se prendem às regras sou miserável.

para aqueles que venderam a mente sei o etéreo
para aqueles que nos controlam sou miserável.

para aqueles que nunca me viram não sou ninguém
para aqueles que nunca me querem ver não existo.

mas ainda bem, porque não sei o que sou.

para além de miserável.

luz (salvação)

vou mudar então.
vou livrar-me do que me prende ao chão e à miséria,
prender-me ao céu com tempos e eras
que nunca vi como alvo de amizade.
ou ódio.

afinal, ao dizer adeus à miséria dei os bons dias à loucura.
despedi-me de tudo a que este mundo me segura.

para vos ver pequenos e miseráveis.