se o tempo é só uma noção, um conceito do homem,
também o é o espaço.
o próprio homem é a sua noção de espaço e tempo.
é assim que sabemos quem somos.
o homem, no lugar, com idade,
que foge fugazmente para onde? nem ele sabe,
corre em frente (ou em conceito de frente), a razão a mim não me cabe,
só sei que onde ele há-de finar, finarei eu, que sou também uma noção de espaço e de lugar.
qu'este suplício acabe!,
e me dê asas de uma qualquer ave,
para ser mais espaço sem que a vida me vaze
deste escaço saco, que já vazio,
sempre teve mais vivências que eu,
só por não ser apenas uma noção e por ser oriundo do seio da terra.
como é homem é fantástico!,
saído da terra, como tudo o resto,
mas superior a todos e a si mesmo!
como posso ser sem ti?
como posso quantificar quem sou sem ter a única constante em todo o meu sentimentalismo racional?
se fosse dois mais dois têm a liberdade de serem quatro,
também nós temos a liberdade de ser apenas um,
ignorando toda a separação possível que infinidades negativas e positivas possam oferecer.
o chão faz tanto parte do nosso mundo
como eu faço do dele: somos apenas suporte um do outro.
mas o teu mundo e o meu,
os nossos diagramas de venn coincidem na perfeição,
revelando um sonho que apenas nós vemos,
longe do palpável e racional.
olá sol,
olá inverno gelado mas acima de tudo febril,
olá raiar por entre as nuvens de fumo,
olá neblina omnipresente,
olá nébula omnipotente de pensamentos, peças, partes de um todo que por sua vez é parte de um todo.
ouçam-me todos, neste comício pela loucura,
neste comício pelo prazer,
neste hospício para todos nós que pensamos para lá do que se vê e do que há,
nós somos sonhadores no próprio som,
cada nota musical que se propaga por nós é um nó que nos desaperta a mente cada vez,
abraçando todas as noções controversas e as moções imersas numa sincronia em harmonia completa.
nós somos um omniverso.
não, dois. três. mas apenas um de cada vez, propagados um no outro como quando se atira uma pedra para a água
e se vê ondas dentro de ondas,
colidindo com tudo à volta.
nós somos fotografias, monografias, poligrafias, caligrafias e ignorancías que nem se sabem escrever direito.
nós somos uma tabacaria, onde só se vendem sorrisos e fantasias. não, na verdade é um sítio de ócio e pecado. não, na verdade vendemos metafísica,
cuidadosamente enrolada numa mortalha de transcendência,
pronto a fumar e a atingir o nirvana com 3 leves prestações.
nós somos provas concretas da nossa existência, somos pensamentos divididos em momentos divididos em 7 desenvolvimentos: nascer, viver 5 vezes e morrer
muitas vezes para deixar bem claro que cessamos de existir em nós mesmos.
nós somos anáforas. somos repetições. somos eco-eco-eco-eco. somos repetições. eco
somos os jovens que não nasceram.
somos os que já morreram.
somos feitos de gente que (já) não está cá (ainda).
no entanto, somos incrivelmente físicos. niilistas de alma fervente.
presos por correntes às nossas máquinas feitas de deus.
(corpo feito de pensamento.)
solipsistas extremos, rodeados de pensamentos de outros.
(um único rodeado por nada.)
somos dementes e cientes da nossa sanidade mental.
(santidade da ignorância que tudo sabe.)
somos o trigo separado do joio.
somos um cereal killer.
somos um tipo de humor tão rasca que é reservado às mais altas elites, onde reinam a estupidez e a incoerência.
nós, os reles, a ralé, os rascas, os rudimentares, os ridículos, tão mais sentidos nas artes e nos contrastes que as altas sociedades ignoram e:
1º pintam quadros
2º todos pimpões e janotas e fofitos e com umas molduras todas bonitas de uma marca de burguesinhos.
3º só falta pendurarem os quadros sobre a cabeça do povo e dizerem que nos compreendem,
E VOILÀ!
a receita perfeita e cuidadosamente melhorada e adaptada ao longo dos éons para o típico discurso de "não se preocupem, já estabelecemos controlo.",
enquanto o s.s. portugal continua em rota contra o gigantesco fim do mundo plano, que se enquadra tão perfeitamente nas mentalidades das gentes felizes com a situação.
mas felizmente, existimos nós, não é?
a mó de baixo, o moinho que mói as próprias palavras e ideais e sorri à espera de um mundo melhor,
que encomendámos aos senhores que fazem um mundo melhor
só para não nos causar estorvo.
somos nós com muito medo da revolução.
com medo da regressão para o mundo mecânico.
mas ainda mais medo da evolução para um mundo humano, instável e tenebroso.
"p'la força do sol nascente desembainha da tua espada e faz das tuas vítimas o teu legado. que a tua honra prolifere pelos campos de batalha e se tiveres de cair, cai, sabendo que a cor que causaste ao teu adversário é o prazer da tua morte."
é este o meu hino, a minha sina. a maldição com a qual foi abençoado. ver pais e filhos a tombar a meu lado em guerra, a geradora de descendentes orfãos e de ascendências desgostosas.
mãe, fui para a guerra para ser homem mas vim de lá derrotado e de rastos...
como posso ter honra ainda?
voltar da guerra perdida não passa de cobardia... condeno-me ao exílio por ter vergonha de morrer e medo do que sou: cavaleiro andante parado na minha desolação, um isolamento do mundo encarcerado em mim mesmo. o mundo conheceu-me forte e guerreiro e nunca mais me viu. oculto vivo, em morte.
o néscio
o néscio. tão boémio, detentor da sua glória ignóbil e suja, orgulhoso e envergonhado, perseguido por um passado que ainda o é, mancha eterna no próprio pensamento, seguidor cego de um glorioso culto oculto.
o filesteu. prometeu do nosso tempo que nos prometeu o fogo dos antigos, anciões inimigos para nosso bem, manipansos omniscientes sem noção do mundo, só concentrados em salvar-nos do fundo enquanto nos privam da mente que nos deram.
todo o bem do mundo de nada vale quando negamos quem nunca nos deu provas de presença.
dicotomia: eloquência e mais não sei o quê: carta
queridos reis,
com são com vossos luxos? com os vossos fluxos sanguíneos perfeitos e rosados, com as numerosas mentes que sonham por vocês apenas sendo ignoradas?
do povo vim e por cá continuo. sou parte da tua corte de baixo nível, da tua sorte azarada, da tua hipérbole por um mundo melhor (para sua excelência) e de uma venda para mim.
tudo promessas, tudo em vão, eh.
e eu, o burro a puxar carroças d'oiro, o cabrão a levar ao colo quem pode voar, o velho a abrir janelas para a sala cheia de luz!
GRANDE IDIOTA!
eu, cavaleiro eterno na minha mula, vos saúdo!, ó imperadores do opulento reino de merda.
eu sonhador interno e sofredor externo, sei de todo o mal da pátria e amo-a incondicionalmente. sei dos escândalos, dos vândalos, das enchentes de corrupção e das sedes por dinheiro. sei dos patrocínios ocultos, das festas de chá de menino rico, dos patrimónios sujos e da sobreestima dos vossos fatos. soube das armas e barões assinalados e sei de todas as ruas e estradas mal sinalizadas. sei de tudo o que valeu pena, não sendo a alma pequena, podendo a alma caber-me na cova de um dente. sei de todas as mentiras, repetidas e re-repetidas até se tornarem verdade, sei das vossas auto-condenações, que vos convenceram que ninguém mais o faria. sei que o vosso discurso nada vos importa, apenas a vossa imagem distorcida. sei do crédito que rege o vosso mundo que nos tira credibilidade e que ainda nos dá crenças! sei da vossa vaidade a quem chamam fama. sei dos vossos apetites de grandeza e da vossa barriga já tão grande que não vê os pequenos.
eu vos saúdo!, e a toda a vossa genialidade e a todos os que ainda acreditam em vocês! afinal, tanta ingenuidade é motivo de festejo! qualquer excesso que haja hoje é bom! muitos bobos, muitos idiotas, muitos promessas, muito ócio, muitos motivos para não ter fé, muitos vivos para pouca terra. muitos muitos para muitos poucos.
que ciências contas tu, filho?
eu se me sento, sinto o chão frio.
mas tu dizes-me que é só uma transmissão de energia...
então e as memórias?, são o único que me resta!
e é a única coisa que me aquece.
vais-me dizer que os sonhos são também transmissões de energia?
vais-me falar em racionalizações quando tudo o que eu quero é lembrar?
só me faltava a mim ouvir-te dizer que tudo o que vivi foram factos.
TE GARANTO!, que nunca factos me assombrariam.
só erros.
mensagens ocultas do meu subconsciente que gritam comigo,
com vozes agudas e profundas.
e, meu filho, nem eu, nem tu conhecemos erros que são factos, pois não?
quantas vezes me recosto e penso no que amei e que ignoro...
recordo-me das vidas que vivi,
desta cara sem barba, sem metade dos dentes, (como tenho agora!)
mas tão feliz.
tão ignorante,
mas tão feliz.
perdoa-me ausências. perdoa-me grandes faltas, humilhações e noitadas, meios do dia em vão. perdoa-me desculpas esfarrapadas...
e por muita admiração que te dedique, há sempre a ilusão a dar lugar à desilusão, por isso te dedico o meu perdão, cuidadosamente embrulhado em confiança machucada.
e dou-te todo o meu amor, a ti, um culminar de tudo o que eu amo e amarei, de tão singela natureza. como todas as partículas do universo presas num copo de água, tudo de bom no mundo enclausurado num corpo, harmonioso e simétrico.
e eu sei que não sou rapaz de magistrais afectos e não sei bem o que é suposto fazer, por isso escrevo isto para ti.