alguém ousou sonhar.
em penumbra elevou o pensamento
e sem ser ave aspirou a voar.
ergueu a cabeça.
pescoço dorido de especar sempre o chão.
olhou os astros: "que eles nos fortaleçam",
pensou "pois restam-nos a fome e a união".
pegou na trouxa e fez-se à estrada.
a demanda não era comandada,
mas bem sabia que ou arriscava ou não teria nada;
eram altos os riscos mas mais altos os sonhos e pouco mais interessava.
talhava pegadas no solo agreste,
já tinha esta terra visto escorbuto, febre amarela e peste
e já pouco restava da gente que afagava as culturas,
sobravam os que importavam esculturas e pinturas,
os que rezavam por mais fartura
e os que fizeram a própria fortuna,
porque os que tinham a lida dura, apodreciam a um cantoo
e deles nem se ouvia um pranto,
com medo de mais miséria,
que quem a pagava eram eles por baixo de 7 palmos de terra.
o sonhador rápido se fez ouvir
e que nem relâmpagos vieram os cangalheiros,
p'ra enterrar o que se atreveu a sorrir,
para o matar até, se houver envolvido dinheiro.
"és tu quem sonha em vão?"
"sou sócrates, galileu galilei e d. sebastião.
sou che guevara, zeca e marx.
sou revolução poesia e o ar que se respira,
pois não há nada mais livre que o oxigénio de que se vive.
e digam, homens com costas arqueadas, unhas mal aparadas e de correntes aos punhos,
vêm vós do submundo ou são só barqueiros do rio estige"
"somos o mal de fundo do mundo"
"mas são demónios reais ou só o fingem?"
"somos já velhos demais para ouvir loucuras de outrem,
escutamos a vontade solene del rei,
do grande ditador ou de quem vier mais ouro,
sejam celtas, iberos ou mouros."
"são bestas ou senhores?"
"nada mais que terrores, caro sonhador,
e que sejam vossas estas dores."
"que sejam então vossos estes gumes e todo o choro,
pela pátria!, pelo povo."
de uma só rajada, que fez dos cangalheiros meios coveiros,
movida por sonhos e ódio profundo a el rei,
proclamou liberdade a quem a lei não favorecia,
o que desde sempre se pretendia.
resta o senhor no seu trono,
que rápido ouviu do seu insubordinado.
levantou-se logo e clamou:
"há que ser massacrado!"
convocou legiões de soldados,
todos eles cegos de justiça,
com lealdade postiça e em fraca moral apoiados,
de mau credo e raça mestiça.
armados até aos dentes,
com espadas, escudos e mocas na mão,
não esquecendo redes e tridentes e armaduras reluzentes,
arcos, flechas, bestas e morte como profissão.
ao longe viu-se o sonhador,
comandado pelos próprios astros,
com o povo cantando o seu louvor
em ser capitão contra os ricos e fartos.
todos eles empunhavam ceifas ou forquilhas,
pedras, enchadas, machados ou machadas,
instrumentos que não viram sangue mas de terra viram milhas,
para que estas não sejam mais pobres nem choradas.
"povo meu" gritou o sonhador
"o treino militar de nada serve se for fraca a razão para lutar.
se na frente do líder está a cortina do ditador
não é amigo o que está no trono a descansar.
eles empunham espadas e trajam peças que brilham,
pois nunca viram sangue que as manchasse.
vocês já viram o que fizeram aos vossos e digam-me,
se merecem eles ser de nobre raça."
todos correram em carga,
com pão e água no estômago apenas.
mas era tanta a moral que os guiava
que desfalcaram a nobreza de suas plumas e penas
verdade seja dita,
a morte assolou os campos como nunca se viu.
no entanto, a voz que grita
deparou-se com o rei que piedade pediu.
"não tens honra, ditador."
e de um só golpe a cabeça del rei rolou.
hostes celestiais contarão como tudo foi.
o herói e seu exército, o capitão e sua tripulação.
o sonho e os sonhadores!
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